domingo, 15 de janeiro de 2017

Respiros


“Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você, só enquanto eu respirar”.
É esse o coro que se ouve enquanto uma chuva vermelha toca a madeira. O pesadelo, tão cru, tão cruel, tão inacreditável, tão inacreditavelmente dolorido havia começado um mês e meio antes. Sem data para terminar.
No primeiro ato, Raphaela está sentada ao lado do sofá da sala da casa de Zeca. Os olhos redondos diminuídos, como um farol baixo querendo apagar. Estavam ensaiando para uma adaptação de Os saltimbancos. A ideia era rodar escolas da cidade apresentando o espetáculo e, dessa forma, conseguir fundos para a manutenção do Lona.
Zeca gosta da peça. Um carinho especial. Havia sido uma das suas grandes participações nos tempos do grupo de teatro do Colégio Cenecista. Como o Cachorro, tinha se destacado bastante e caído nas graças do público por todos os lugares em que passaram com o espetáculo.
Assim, preparou uma nova adaptação, bem simples, e reuniu os jovens atores do Lona na Lua. Ainda estavam nas primeiras leituras, mas já ficara definido que Raphaela seria o Cachorro.
Mas, naquele dia, no chão da sala, as coisas começariam a mudar. Durante a leitura, os outros atores foram percebendo que ela não estava bem. Perguntada, tentava resistir. Até que não aguentou e disse que tinha que parar um pouco e ir ao médico.
Ela decide ir embora, mas quer que todos continuem ensaiando para a peça. Da casa de Zeca, vai à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Rio Bonito. Feita a triagem, a suspeita é de que seja mais um caso de dengue na cidade. O atendimento e o exame reforçam a ideia, dado o baixo nível das plaquetas. A decisão é pela internação, para que seja observada.
Horas depois, Zeca recebe um telefonema da avó dela, dona Terezinha, avisando que a Raphaela ficaria internada e que não haveria visita. Combinam um encontro na UPA, na manhã seguinte.
A noite é longa. Os outros atores ainda não sabem direito da história. Zeca, em casa, está ansioso. As horas vão seguindo a conta-gotas.
O dia amanhece e ele vai para a UPA. Chegando lá, uma nova surpresa ruim: Raphaela havia sido transferida para a “sala vermelha”. No protocolo de atendimento, significava uma emergência. Independentemente de protocolos – e da compreensão deles pela família e por Zeca –, está claro que as coisas não vão nada bem.
Aos poucos, os loneiros vão sendo informados. As pessoas começam a chegar à UPA e, junto, um clima de desespero. Os loneiros choram muito, eles sempre choram muito; com alguém tão querido doente, tudo se amplifica. Por conta da situação, de lá ela é transferida para o Hospital Regional Darcy Vargas, no centro de Rio Bonito.
Nesse momento, Zeca assume a coordenação dos esforços. Parte em uma peregrinação pelo hospital atrás de ajuda dos médicos e dos membros da diretoria, buscando uma maneira de resolver. Enquanto isso, Ariel, a amiga constante, não sai do hospital de jeito nenhum.
Os médicos responsáveis são muito atenciosos com aquele monte de gente que não sai do hospital. Tentam explicar o inexplicável para quem não quer explicação: todos só querem a Raphaela bem. Há algumas suspeitas, mas o caso evolui de maneira muito rápida. Há uma infecção. Está medicada e em observação. Flávio Colucci e Luiz Gustavo Martins, membros do corpo médico e da diretoria do hospital, respectivamente, acompanham o caso de perto e tentam amparar Zeca e a família no dia a dia.
As visitas são restritas aos familiares. O pai de Raphaela, Jorceil, todos os dias, pouco antes do fim do horário de visita, sai da sala intensiva, retira o adesivo do peito e passa para Zeca, que consegue entrar para ver a amiga.
Em busca de notícias o tempo inteiro, os amigos do Lona decidem ir até o hospital e ficar por lá, em uma espécie de vigília. Todo o resto parece secundário nesse momento. É preciso estar lá.
Logo no primeiro dia, quando se aproximam do vidro da unidade intensiva, Raphaela está na cama, com a máscara de oxigênio e com acessos para o soro, mas cheia de bom humor: acena, manda beijos, faz um coração com as mãos.
Por alguns momentos, tudo parece que vai dar certo. Há um clima de otimismo nos loneiros. Mais que isso: eles têm certeza que, em breve, ela vai estar de volta à lona e aos ensaios.
É um momento especial para o movimento. Naqueles dias, a lona está sendo transferida para outro endereço, uma nova sede para o Espaço Cultural Lona na Lua, na avenida Sete de Maio. Uma área mais central, mais próxima do público, uma conquista importante. Só que a conquista implica em um volume maior de trabalho e preocupações: é preciso deixar tudo pronto, capinar o terreno, levantar as paredes de uma salinha que servisse de escritório, cimentar o chão, conseguir recursos que paguem todas as despesas daquele momento.
Enquanto Raphaela e os loneiros resistem, os médicos, liderados pelo diretor Flávio Colucci, continuam trabalhando em cima de um diagnóstico mais preciso. Enviam o caso para outros locais em busca de opiniões a respeito. A suspeita é de que seja uma doença autoimune.
São dias longos. Muita tensão. Medo. Ansiedade. Preocupações variadas. Tudo misturado. Zeca é o cara que resolve as coisas. Portanto, não conseguir resolver é um drama sempre, um peso enorme, fonte de inesgotáveis cobranças a si próprio. Uma coisa tão típica dele desde muito tempo, que havia uma brincadeira entre os dois. Diante de um problema, Raphaela costumava dizer: “Zeca resolve”. Em um dos dias da internação, ela lembra disso. Com dificuldades de respirar, tira a máscara de oxigênio, olha para ele e diz: “Resolve aí, Zeca”.
Ele não admite desabar. Em meio à situação complicada, Zeca não come e nem dorme direito. Os olhos fundos e o rosto abatido denunciam o estrago por dentro do jovem de 26 anos. É preciso resolver. A parceira de sonho está ali, prostrada, sem que a solução esteja ao alcance dele. Os moinhos de vento estão derrubando a Sancho Pança.
Em uma das visitas, tentando afastar a sombra de tragédia que paira diante dos olhos, faz uma promessa a ela: “Se você melhorar, deixo você escolher uma peça pra gente montar”. Ela acena concordando, como se dissesse, vai ter que dar um jeito porque eu vou melhorar.
É mais uma história para contar lá fora, para os outros. Poucos conseguem entrar nesses dias. Quase sempre é só a família. Do lado de fora, os amigos inventam o que podem: gravam vídeos, mandam mensagens, acenam da janelinha.
Vem um momento de alívio: mais de um mês depois de ter sido internada, Raphaela melhora. Parece estar reagindo ao tratamento e os médicos decidem transferi-la para o quarto. Poderá receber visitas, estar com a família construída no Lona na Lua, a família que escolheu e que vivia intensamente.
Ato contínuo à transferência para o quarto, já começam as visitas. Quando Zeca aparece pela porta, ela diz: Lisbela. É a resposta à promessa que ele tinha feito. Ela havia cumprido a parte dela, melhorado e ido para o quarto; quer, agora, a dele: criar uma peça baseada na história de Lisbela e o prisioneiro. Ele sorri, como que agradecendo pelo trabalho que teria.
Taiane, a amiga do Lona, chega e sofre com o abatimento da amiga.
“Nenhê, você tá tão magrinha, tem que comer...”
“Graças a Deus, agora eu tô magrinha, né?”
Ela ri, mas não é engraçado. É só sobrevivência, instinto. O riso é o motor. O riso dos outros garante um pouquinho da energia que está se esvaindo, que já foi. Tenta aguentar, mas, humana, tem que lidar com a perspectiva da morte. Dor e cansaço.
A melhora alegra a todos e os acalma também, mas não esconde o desgaste. Os olhos redondos estão lá, tristes e oblíquos, com uma poesia dolorida a contar uma história que não tem nada de machadiana. É um Tchecov, com a vida esvaindo discreta e irreversivelmente em um leito gelado. Ou suassunamente teatral, aqueles olhos tão expressivos, na luta contra o encontro com “o único mal irremediável”, o “fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados”.
O frio de dentro do hospital e a secura do ar-condicionado vão deixando a boca dela estourada. Nem toda a manteiga de cacau do mundo parece dar conta. Ela reclama do jeito dela, fazendo graça. Lembra que a piada é a boia e tenta se agarrar.
Os dias passam. Três. Parece menos, mas são três dias, o mítico número que os dois tanto gostam de lembrar. Ela não está bem outra vez. Os médicos decidem transferi-la de volta para a ala de cuidados intensivos. É domingo, e como os domingos, chega ao fim com aquela melancolia de sempre.
O telefone toca na casa de Ariel. Denize, a mãe, atende. É do hospital. É o médico que cuida do caso. Informa sobre a decisão de levá-la de volta à área de cuidados intensivos e sugere que eles apareçam no hospital. Seria bom que estivesse com as pessoas que gostam dela; seria bom que recebesse a notícia assim.
Todos correm para lá. Ela reclama, outra vez, fazendo piada, reclamando dos lábios machucados: queria voltar bonita para brincar com os médicos intensivistas. Todos riem um riso sem força. Não tem graça, é só a sobrevivência.
Antes da volta, é preciso fazer um novo acesso para medicação, mas o corpo está tão frágil que tudo fica difícil, doloroso, sai muito sangue. A cena assusta os amigos que veem tudo pela porta entreaberta. Mas, ao sair na maca, está altiva: a doença não a dobra. O corpo esquálido carrega uma alma nobre e resistente, que não quer se entregar apesar de tudo.
Todos retornam para suas casas. O dia seguinte é de escola e trabalho na lona, é preciso deixar tudo preparado. Afinal, é uma questão de tempo até que as coisas voltem ao normal, é o que pensam. Quer dizer, é do que têm certeza.
O 1º de maio amanhece e os loneiros decidem gravar um vídeo com o celular para mandar para ela. São imagens do terreno que abrigará a lona, brincadeiras, palavras de apoio, beijos, carinhos. Eles fazem montinhos com a brita espalhada, sentam e não conseguem pensar em nada que não seja a Raphaela curada e de volta. Planejam até uma festa surpresa – faria 22 anos no dia 16 de maio daquele ano – para quando ela sair, com direito a boneco de papelão com o rosto do Brad Pitt.
Mas as notícias não são nada boas. O estado é grave e segue piorando. Os médicos decidem transferi-la para um hospital com mais recursos e a opção é o Hospital dos Servidores do Estado, no centro do Rio de Janeiro. Zeca, de um lado para o outro, segue tentando organizar as ações, na expectativa de salvá-la, de resolver. Em vão.
No começo da noite, os loneiros estão reunidos em um restaurante no centro da cidade, quando recebem a visita da mãe de Ariel, Denize. A fala dela parece não fazer sentido para aqueles jovens – como pode ser verdade? O tom é de preparação para o fim.
As notícias que chegam do Rio de Janeiro dão conta de que Raphaela não está mais reagindo ao tratamento e o corpo não consegue combater a infecção generalizada. Alguns órgãos já começam a dar sinais de falência. O que a mãe fala com a filha e os amigos dela era, com doçura, que a morte estava chegando.
Nesse momento, Zeca está na casa dele. Com a mãe e as últimas forças. Na cidade vazia, a lua parece tocar o asfalto da avenida Sete de Maio, enquanto aqueles adolescentes voltavam para suas casas.
Durante a madrugada, o telefone toca, mas ele não abre os olhos. Tia Fátima se aproxima e fala baixinho, como se a voz não quisesse sair. Ele não precisa ouvir, sabe o que é.
E precisa resolver.
Avisar a todos. Preparar tudo. A notícia se espalha rapidamente e Zeca e tia Fátima vão passando de casa em casa para buscar os loneiros.
O dia vai amanhecendo e ele vai ao Lona. Pede para a mãe parar o carro e desce com o passo meio descompassado. Quando volta, traz os panos pretos das tapadeiras do palco. Agora, um imenso pano preto cobre o muro do Espaço Cultural Lona na Lua. A dor está escancarada.
A manhã já está no fim, quando o corpo chega a Rio Bonito. O velório é na funerária Santo Antônio, no centro da cidade. Ao redor, as pessoas choram, uma comoção que se espalha pela cidade. Zeca parece não pisar mais o chão. De alguma maneira, é como todos parecem ali.
Lá dentro, cumprem uma promessa feita à Raphaela. Muitas vezes conversaram sobre a morte. Ela sempre disse que seria a primeira a morrer. E que quando isso acontecesse, queria brigadeiro no velório e que todos usassem a camisa do Lona na Lua e um nariz de palhaço. Queria também ser enterrada com a bandeira do movimento.
Ainda parece difícil acreditar. Alguns esperam que ela chegue rindo e fazendo alguma piada. Mas ela não vai chegar.
Ao final do velório, Zeca pede a família autorização para colocar a bandeira. Cumpre o desejo dela. Depois disso, o corpo é levado para o Cemitério de Boa Esperança, 2º distrito de Rio Bonito.
Enquanto o caixão é colocado no túmulo, os loneiros cantam “O anjo mais velho”, música do Teatro Mágico, uma das bandas preferidas de Raphaela. “Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você”. E uma chuva vermelha cai junto: os narizes de palhaço são lançados ao túmulo com ela.
Não é um pesadelo e é um pesadelo. A ausência dela é silêncio. Os olhos dos loneiros não mentem a dor junto à poesia, ao verbo e à saudade. E o fim, por mais belo que seja, não tem mais nada de incerto.
Cantam alto. Mas nenhum grito é suficiente.


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O texto acima é o capítulo 11 do livro “Lona dos sonhos: as histórias do Lona na Lua”, lançado em maio de 2016. Aqui você pode ver imagens do lançamento, já aqui tem uns textos sobre a escrita do livro e se clicar aqui pode comprá-lo.

A Associação Cultural e Social Lona na Lua e o Espaço Cultural Lona na Lua estão em Rio Bonito (RJ), sob a liderança do Zeca Novais. O livro foi escrito por mim, Rafael Cal, e toda a renda gerada por ele é revertida para as atividades do projeto.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

"Lona dos sonhos" na Amazon





Em maio de 2016, lançamos - eu, o Zeca e todos os loneiros e loneiras - o "Lona dos sonhos: as histórias do Lona na Lua". O projeto completava sete anos e fizemos um festão pra mostrar esse nosso filhote.

Aqui a cobertura da InterTV: 



Foram muitas vozes e mãos fazendo isso acontecer, Lona e livro. Foram muitas palavras de apoio, muitas mensagens emocionadas, muitas pessoas comprando o seu primeiro livro.

Foi muita gente lendo. Esgotamos os 1000 primeiros que imprimimos - será que vem mais uma impressão em 2017?

Nos comprometemos a distribuir 200 para instituições educacionais e culturais do estado, mas fomos além e doamos quase 500 exemplares, incluindo estudantes da rede pública e coletivos. Vendemos pouco mais de 500 e a renda gerada por eles foi revertida para o projeto. Para um país que não lê, ficamos muito felizes.

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Mas tem mais. A partir de hoje, o "Lona dos sonhos: as histórias do Lona na Lua" está disponível na Amazon. Fruto do trabalho do Ricardo Hoffmann para preparar e subir o material na loja. Valeu, Ricardo!

Lá, você pode comprar o ebook e ler no celular, no tablet, no kindle, no computador, sei lá mais aonde: https://www.amazon.com.br/dp/B01MS6TFWH

O preço estipulado foi o menor possível e, claro, a renda continua sendo revertida integralmente para a manutenção do Espaço Cultural Lona na Lua.

Então, se puder ler, indicar, dar de presente, avaliar o livro no site, compartilhar esse post, qualquer uma dessas coisas ou todas elas ao mesmo tempo, a gente vai ficar muito feliz. E você vai estar colaborando com um projeto sério e transformador, o que, no mínimo, faz bem pra alma.

Compra lá!