segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Encontrei com o Doutor Ulysses e ele curte um fígado acebolado

Às quintas, o bar do Tio Osmar costuma servir bife de fígado acebolado. Por isso, saio do trabalho correndo e tomo metrô e ônibus torcendo pra chegar cedo à praça Orlando Silva, na fronteira invisível entre o Cachambi e o Méier, a tempo de comer a refeição que custa doze dinheiros.
Hoje, pra minha surpresa, na mesa do canto, aproveitando dois dedos de um aperitivo local, estava o Doutor Ulysses. Acenou com o copo e eu, meio sem entender nada, sorri de volta e sentei num lugar próximo.
Mas lá no Tio Osmar ninguém fica de canto, a interação é a alma da casa. Nessa hora do almoço, a tv tá sempre na Record, passando uma oração, um programa de fofocas, uma história triste ou um caso policial. E nessa o Doutor Ulysses não resistiu e engatou um papo sobre as eleições com os outros presentes.
Os ânimos ameaçaram se exaltar. Aquele senhor bem vestido falava erguendo a mão um pouco acima da mesa, gesticulava bastante, enquanto seus interlocutores estavam divididos em prestar atenção e tentar rechaçar algumas falas.
Foi quando chegou Arnauld, o garçom, com o meu prato e o do Doutor Ulysses. Nos serviu e não consegui disfarçar mais minha curiosidade com aquela presença ali.
“O que o senhor tá fazendo aqui?”, perguntei.
“O fígado. Eu vim pelo bife de fígado acebolado”, ele disse pra mim.
Eu, na euforia quase juvenil de estar falando com aquele senhor, naquela situação completamente sem sentido, deixei sair algumas palavras gaguejadas.
“Ninguém vai acreditar que te encontrei aqui. O que você gostaria que eu dissesse sobre este momento?”
“Diz pras pessoas pararem de ficar compartilhando essas tosqueiras de formador de opinião e colunista decadente.”
Bom, eu não ia falar nada, mas um pedido desses é pra ser cumprido, né?. Então tá feito, Doutor Ulysses.

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