domingo, 30 de outubro de 2016

Pegando carona *


“A vida só faz sentido quando vira ficção”.

Esbarrei com essa frase meio sem querer. E foi a deixa perfeita pra começar.
Porque existem pessoas que não cabem na vida real. Assim como existem cidades que não cabem no mapa.

E transbordam.

Transbordam em memórias, em livros e personagens. E, por que não?, em autores. Cidades feitas de terra, concreto, trilhos, casas, carros e pessoas de carne e osso, moleques e molecas da estação, que só poderiam ser ficção.

De tanto transbordar, Leir se tornou, no imaginário dos rio-bonitenses, o poeta da cidade. Sem esquecer, claro, de outros grandes como B. Lopes, Julia Cortines e Helio Nogueira — pra não estender muito a lista. 

Mas é que lê-lo é fazer uma viagem por Rio Bonito. 

Uma Rio Bonito idílica, em preto e branco, melhor: em sépia. Como uma foto antiga daquelas que a gente vê penduradas lá na rodoviária. A Rio Bonito do trem, dos moleques na estação, do jogo de futebol com o bagaço de laranja. É ver uma cidade quieta, silenciosa, um lugar em que o tempo não passa. Uma cidade, afinal, que talvez não possa existir em outro lugar que não a ficção, nas narrativas da memória.

E até quando escrevia prosa, era poesia sendo destilada sobre essa nossa aldeia. Fosse falando de Serrado e Prazeres. Fosse falando de figuras como Manuel Duarte e Astrojildo Ribeiro, ou das cachoeiras, do Cine Glória, da Grutta Tupy.

Por isso, neste dia tão especial, é dia de celebrar e também de sentir saudade. Já que, como ele mesmo já disse há tempos, “a saudade é a nossa presença no passado”.

E voltar ao passado é o que Leir era capaz de fazer com imensas delicadeza e simplicidade a cada linha, a cada verso, a cada história. Não apenas voltar, mas nos levar. Levar numa viagem por memórias – dele, nossas, coletivas – num passo manso, tranquilo. Tal qual o marchar cadenciado de um trem que nos leva sempre de volta a uma estação chamada Rio Bonito.


Afinal, se a vida só faz sentido na ficção, é porque, no fundo, talvez sejamos todos moleques da estação, prontos pra pegar uma carona nas palavras do nosso poeta.


* Homenagem realizada ao escritor Leir Moraes, no dia 29/10/2016, em Rio Bonito.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Encontrei com o Doutor Ulysses e ele curte um fígado acebolado

Às quintas, o bar do Tio Osmar costuma servir bife de fígado acebolado. Por isso, saio do trabalho correndo e tomo metrô e ônibus torcendo pra chegar cedo à praça Orlando Silva, na fronteira invisível entre o Cachambi e o Méier, a tempo de comer a refeição que custa doze dinheiros.
Hoje, pra minha surpresa, na mesa do canto, aproveitando dois dedos de um aperitivo local, estava o Doutor Ulysses. Acenou com o copo e eu, meio sem entender nada, sorri de volta e sentei num lugar próximo.
Mas lá no Tio Osmar ninguém fica de canto, a interação é a alma da casa. Nessa hora do almoço, a tv tá sempre na Record, passando uma oração, um programa de fofocas, uma história triste ou um caso policial. E nessa o Doutor Ulysses não resistiu e engatou um papo sobre as eleições com os outros presentes.
Os ânimos ameaçaram se exaltar. Aquele senhor bem vestido falava erguendo a mão um pouco acima da mesa, gesticulava bastante, enquanto seus interlocutores estavam divididos em prestar atenção e tentar rechaçar algumas falas.
Foi quando chegou Arnauld, o garçom, com o meu prato e o do Doutor Ulysses. Nos serviu e não consegui disfarçar mais minha curiosidade com aquela presença ali.
“O que o senhor tá fazendo aqui?”, perguntei.
“O fígado. Eu vim pelo bife de fígado acebolado”, ele disse pra mim.
Eu, na euforia quase juvenil de estar falando com aquele senhor, naquela situação completamente sem sentido, deixei sair algumas palavras gaguejadas.
“Ninguém vai acreditar que te encontrei aqui. O que você gostaria que eu dissesse sobre este momento?”
“Diz pras pessoas pararem de ficar compartilhando essas tosqueiras de formador de opinião e colunista decadente.”
Bom, eu não ia falar nada, mas um pedido desses é pra ser cumprido, né?. Então tá feito, Doutor Ulysses.