sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aqui todo mundo chora


A lona cobre uma trupe de gente que chora. Não de chorões no sentido de quem pede, reclama ou coisa do tipo. Mas de quem emociona e se emociona.
Essa talvez seja a grande lição deixada pelo processo de realização do Lona dos sonhos. A emoção à flor da pele é, sem dúvidas, uma das marcas dessa galera.
O Zeca chora o tempo inteiro, todos estão acostumados. Mas não sabia que essa força da água querendo explodir pelos olhos era regra.
A cada entrevista pude ver todo mundo com o olho brilhando ao falar do projeto. A emoção das lembranças, das tristezas e das alegrias, estava presente o tempo inteiro.
Não faltaram pausas fora de tempo, no meio de uma frase, como que engolindo uns 15ml de lágrima. Não funcionava: vinha a frase seguinte e o choro desandava.
Alguns me fizeram chorar junto. Teve quem chorasse lembrando de um professor que teve na adolescência. Teve gente próxima lembrando de dias tristes. Teve o pessoal da antiga lembrando das suas histórias e sentindo o quanto era tudo especial e deles. Teve a lembrança permanente da Raphaela. Teve tia Fátima fazendo de tudo pra fugir de conversar comigo sob o argumento de que eu ia fazê-la chorar.
Estava certa. E eu, discretamente, chorei junto, tentando segurar uma pontinha de objetividade ali na investigação.
Ela e todo mundo ali, de alguma maneira, me bagunçaram por dentro nas suas falas e nos seus choros. Múltiplos, variados, plurais, puros, reais.
A emoção pura, ali, na cara, nos gestos, nas palavras. A emoção avisando pra todo mundo que ali é o lugar dela e não vai embora e não aceita não como resposta. A emoção gritando:
- Aqui todo mundo chora.


O texto foi publicado também no Medium Brasil.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

"Vende-se uma geladeira azul" por Livia Brazil


Foi em dezembro, mas acabei esquecendo de colocar aqui: a Livia Brazil fez um post lá no blog dela falando sobre o texto da minha peça "Vende-se uma geladeira azul".

Então convido vocês a darem um pulinho lá pra ler e ver outros posts dela. E pra quem quiser ler a peça, tá aqui.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A cidade que ficou cinza


É uma cidade cinza. O sol bate forte, poderia dizer inclemente se não fosse um clichê tão grande, é quente, sufocante, ar pesado, suor escorrendo. Mas, ao mesmo tempo, é um sol amarelo fraco, como se tivesse sido lavado demais e perdido a cor.
E o sol amarelo fraco contra a cidade cinza dá um aspecto estranho. Estranho porque até deveria, mas não é triste. É desolador.
Desolador como um abandono. É isso o que parece: parece o abandono. Uma luz amarela fraca contra o muro cinza de chapisco é quase um quadro do Hopper num país tropical. Tivesse um menino sentado no muro contemplando o horizonte, seria.
Devem existir muitos outros lugares assim. Eu mesmo já vi muitos outros lugares desse jeito pelo Brasil. Mas a minha aldeia não foi sempre assim, Rio Bonito era diferente.

(A cidade vista da Serra do Sambê.)
Era de cores fortes. Não, não era só a visão dos olhos de criança. Era a cor das laranjas vendidas na beira da estrada; do céu azul em que passavam os aviões; do branco tão branco da igreja no alto da colina em que a praça termina, que poderia servir de padrão prum operador de câmera que estivesse filmando este roteiro da minha memória; do colorido das camisas das crianças numa correria sem fim, brincando de escambida pelas ruas de casas de cores vivas; não vou nem falar do verde da serra do Sambê porque seria um clichê imperdoável, mas poderia.
Era.
As casas foram sumindo, e, na verdade, ainda estão. Prédios cada vez mais altos foram sendo erguidos. Acaba com a casa, compra um lote, uns lotes, sobe um prediozinho, qualquer coisa mais ou menos tá bom, dois, três andares, faz naquele padrão baratinho, coloca pra alugar, tá cheio de gente vindo pra cá por causa do Comperj. E tome especulação.
Não, não pode ver só dessa maneira, é o progresso, é o futuro, é o desenvolvimento chegando. Gabarito é entrave, sustentabilidade é entrave, memória é entrave. Aproveita que tá à toa aí e derruba mais uma casa que a gente precisa construir outro prédio de gosto duvidoso no centro da cidade.
E um dia eu cheguei e tinha uma placa numa obra dizendo que iam levantar ali um prédio de dez andares. Dez. Dez andares. Acredita num prédio de dez andares lá em Rio Bonito?
E asfalto, muito asfalto. Chega de calçamento, mete asfalto. Asfalto em tudo quanto é lugar, asfalto é progresso, asfalto é modernidade, enche de asfalto. Aplaude o asfalto.
Quando chega o verão fica ótimo, né?, calor insuportável e solo impermeabilizado. Até às quatro da tarde é o calor de dar desmaio; depois das quatro, é ficar ilhado nalgum canto ou tentar conter a água entrando pela porta.
Naquele pedaço ali, eucalipto. Deve ser melhor que ficar sem nada, alguém pode perceber, reclamar, tirar uma foto. Com eucalipto ninguém vai reparar.
E tem lixo, muito lixo, em todos os cantos, tanto lixo que quando chove parece um panelão de sopa. Sopa de entulho.
Falando tudo isso, pode ser que fique a impressão que eu tenho 92 anos e estou lembrando dos meus tempos montando cavalo a pelo, frequentando a Gruta Tupi, andando de trem ou sendo um personagem de um livro de Leir Moraes.
Mas só tenho 30 e tô falando de ontem, anteontem, semana passada, de menos de dez anos. De uma deterioração intensa, rápida, violenta e cruel entendida como progresso.
E o que é pior: parece imperceptível pra quem vive lá. Parece que tá tudo bem, que só aumentou a sensação de insegurança e o discurso meio difuso de insatisfação política.
Não está.
Está cinza e sem cor.