segunda-feira, 27 de julho de 2015

Deixa clarear


Clara Nunes era a cantora predileta da minha avó. Talvez de todas as avós (e algumas mães) das pessoas da minha idade.

Lembro de um dia, ainda criança, ouvir minha avó falando dela. Tocava uma música no rádio, perguntei quem era; ela disse Clara Nunes. Eu não conhecia, perguntei se era viva, o que cantava. Minha avó cantarolou “Morena de Angola”, aquela, sim, conhecia, e emendou com um “e como cantava...” e um suspiro.

Depois, cresci e ouvi muitas outras vezes a voz daquela mulher do rádio. E sempre me comove (como não se comover com “Canto das três raças” ou qualquer música do Paulo César Pinheiro?) ouvir a voz dela: parte porque se trata de uma cantora especial; parte pela lembrança da minha avó.

Ontem, uma outra Clara (Santhana) cantou as músicas que a Clara Nunes cantava em Deixa Clarear, peça Musical sobre Clara Nunes. Pude ver e ouvir de perto lá no Glauce Rocha, na ocupação Grandes Minorias. Fui ver uma peça, mas “Deixa clarear” transcende o palco, o teatro, o fazer teatral. É ritual, é oração (né, Marcia?).

Na 11ª temporada, muita gente já escreveu e falou bem sobre o "Deixa clarear". Não tenho nada de novo a dizer. Apenas agradecer por ontem.

Sentado e chorando do início ao fim, eu, que nem sou religioso, me encontrei com a minha avó naquela plateia, naquela festa. Porque foi, acima de tudo, uma festa, uma festa para Clara, uma festa sobre ela e com ela. Afinal, também encontrei com a Clara Nunes por lá. Todos, tenho certeza, encontraram. E foi uma festa linda.

A temporada acabou, mas tomara que um dia vocês possam ver “Deixa clarear”.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

"Vende-se uma geladeira azul" no Teatro Sesi Centro





Chegou o dia: mais tarde, às 19hs, nasce o espetáculo "Vende-se uma geladeira azul".

É um dia muito especial, o ponto alto de um processo que começou lá no começo do ano passado quando me inscrevi, sem muita esperança, no Núcleo de Dramaturgia do SESI Cultural Rio. No início, havia um título e uma sinopse simples. Ao longo do processo, nasceu o texto, cresceu e, neste 1º de julho, se reproduz no palco.

No Núcleo, o texto foi sendo construído sob a orientação de Carla FaourHenrique Tavares. Agradeço a eles pelas discussões importantes que fizeram o texto ganhar corpo, mas, acima de tudo, pelo carinho, pelo respeito às minhas convicções e pela sensação de ter sido tratado ao longo de todo o processo como um colega de atividade e não como um subordinado que deveria seguir um rumo previamente estabelecido.

Além deles, convivi com colegas que foram muito importantes pro desenvolvimento desse trabalho. A Marina Henriques e o Bob Maestrelli, do Sesi, estiveram presentes ao longo do processo e deram todo o suporte necessário e opiniões relevantes sobre dramaturgia.

É também necessário agradecer aos meus colegas de escrita. Escrever e reescrever carrega a dureza de ser uma atividade solitária. No Núcleo, porém, essa tarefa foi mais viva junto a Herton Gustavo, Leandro Bellini,Leandro Bacellar, Thales Paradela, Nivea Oliveira, Rita Elmor, Aline MacedoAnita ChavesLohan Lage PignonePedro Alvarenga e alguém mais que eu possa ter esquecido.

Sim, sim: acabou virando um textão de jabá misturado com rasgação de seda. Um textão, longo, cheio de "importantes" e "agradecimentos". Desculpem, mas juro que foi de coração. Achei que precisa dizer alguma coisa, mesmo sabendo que é só um pequeno registro dessa galera que colaborou imensamente pra que o meu textinho virasse a peça que vai ao palco hoje pela primeira vez.

Pela primeira vez como peça, já que ganhou uma leitura dramática em fevereiro deste ano. Na leitura, já com a sensível direção do Pedro Nercessian e a assistência da Juliana Bebé, defenderam brilhantemente a nossa geladeira azul Adassa MartinsBernardo Marinho e Leonardo Hinckel. Naquele momento, recebi também elogios e comentários importantes da Marcia Zanelatto e da Inez Viana.

Hoje, quase cinco meses depois, a estreia de "Vende-se uma geladeira azul" acontece no mesmo Sesi Centro em que se deu a leitura. O Pedro dirige o espetáculo também. No elenco, Amanda MirasciFelipe Haiut e Leonardo Hinckel. Com uma ficha técnica que me deixa muito feliz (!), com direito a Paulo César Medeiros (iluminação), Diogo Monteiro (cenário) e Mel Akerman (figurino).

Pra terminar, acreditando que alguém chegou até aqui, quero agradecer a pessoas de fora do Núcleo, mas que estiveram muito presentes no processo. À Juliana Marques, que leu todas as cenas e reclamou de um monte de coisa; aos meus parceiros de origem, que montaram um texto sério meu lá em 2005 e que sonharam fazer teatro numa cidade do interior, Renata Egger, que sempre insistiu pra que eu escrevesse mais, e ao Zeca Novais; à caravana de Rio Bonito (e exilados em Niterói, mas que mantem o espírito riobonitense, seja lá o que signifique isso) que apareceu na leitura e, agora, vai pra peça.

Enfim, não tenho palavras pra agradecer. Só não sei se elas me escapam pela alegria ou se gastei todas neste texto. Emoticon smile

Assim, chega de papo e vamos ao serviço:

Peça "Vende-se uma geladeira azul"
Escrita por Rafael Cal
Dirigida por Pedro Nercessian
Com Amanda Mirasci, Felipe Haiut e Leonardo Hinckel
No Teatro Sesi Centro (Avenida Graça Aranha, 1 - Metrô Cinelândia)
1, 2, 3 e 4 de julho.
Às 19:30.
Entrada gratuita.


Aqui o evento do Sesi:https://www.facebook.com/events/871047459654831/