quarta-feira, 22 de abril de 2015

Livros: "Colcha de retalhos", de Rodrigo Domit

Finalmente os Correios permitiram e o livro do Rodrigo Domit chegou aqui em casa.

Já citei o Colcha de Retalhos aqui mais de uma vez, mas nunca é demais

lembrar: o Domit transformou o livro, publicado em 2011, num audiolivro que ficou pronto no final do ano passado.


Eu li o conto "Ambicioso" para a versão em áudio e, com maior orgulho, fiz parte desse bordado de vozes e sotaques que formaram esse projeto tão especial.

Pra conhecer mais o projeto, você pode ir visitar a página do projeto no Facebook. Tem também o post original, da época do lançamento do audiolivroPra quem quiser ouvir direto, é só clicar aqui.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Lona na Lua no Benfeitoria


Pra quem quer ajudar um grande projeto cultural e social, o Lona na Lua, do Zeca Novais, tá cadastrado no Benfeitoria.

Pra quem não conhece ainda, o Benfeitoria é uma plataforma voltada para o desenvolvimento de projetos socioculturais e da economia criativa. É bem rápido, fácil e você pode ajudar com pouco. A ideia é ir juntando gente e mantendo um financiamento coletivo a projetos permanentes.

Pra colaborar, basta clicar aqui e seguir o passo a passo.

Escrevi sobre o Lona na Lua em maio do ano passado (o texto pode ser lido aqui). Na época, o grupo estava estreando o espetáculo "Minha casa, minha vida", lá em Rio Bonito, e comemorando cinco anos de existência:

É bom saber que a Lona está lá. Mas não se pode esquecer de todas as dificuldades enfrentadas no caminho e as que ainda virão. E vale lembrar que a existência do Lona na Lua depende não apenas do trabalho dos loneiros: somente com o apoio da comunidade, dos empresários e do poder público, tanto a Prefeitura quanto a Câmara, o projeto continuará dando os frutos que tem dado. Rio Bonito está fora do grande centro produtor e consumidor de arte e entretenimento e estar na periferia é uma condição que não podemos negar. Ao contrário, isso pode e deve ser a mola propulsora pra que nos tornemos mais fortes. O fato é que tem que ter apoio, patrocínio, subvenção e casa cheia toda semana, tudo junto!

O que escrevi continua valendo. Se puder, vai lá no Benfeitoria e dá uma força.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"De longe" no Manufatura

Quem olhasse de longe não entenderia. Ela estava agachada sobre a mesa do restaurante. Segurava uma faca com a mão esquerda e (continua aqui)

domingo, 5 de abril de 2015

A camisa vermelha

Quando a pegou a camisa vermelha na gaveta, não imaginou que se tratava de um dia especial. Não imaginou nada, na verdade, pois se tratava apenas e tão somente de uma camisa. Agora, estava pensando sobre a camisa vermelha, o dia, a barba, as gavetas da memória em que se escondem os gestos inesquecíveis, os traumas, os cheiros e as texturas.

Estava ali sobre a cama havia horas. Poderia dizer que havia dias, poderia dizer qualquer coisa. Barriga pra cima, uma mão entre a cabeça e o travesseiro, a outra sobre o peito. Da posição que estava, podia ver a camisa vermelha sobre a cadeira do outro lado do quarto.

Seus olhos, bem abertos, eram bonitos e, houvesse luz, alguém que olhasse poderia vê-los fundos. E veria a camiseta amarrotada, a calça desabotoada, a barba cansada. Mas não havia luz nem ninguém e, por conta disso, não se viu nada.

A mão esquerda, a que estava sobe o peito, batia os dedos dessincronizadamente. E foi pensar nisso, para, em alguns segundos, buscar alguma lógica no andamento dos dedos, atentando para quão esquisita era aquela palavra que acabara de visualizar. Tinha o hábito estranho de imaginar as palavras que dizia. Era estranho, não contava a ninguém, mas, para si, era natural. E, como parte de uma grande proteção de tela dos olhos, viu as letras se separarem e repicarem nos cantos do quarto e voltarem e esbarrarem umas nas outras e voltarem aos cantos e se misturarem mais e mais e se espalharem por todas as partes do quarto. As que conseguia enxergar, claro, já que o quarto permanecia escuro desde que se dera conta da falta de contas sobre o tempo. E as letras em deslocamento eram vermelhas. Não saberia dizer a fonte, provavelmente Arial ou Times New Roman, uma coisa padronizada, de certo. A cor, sem dúvida, era o vermelho. Um vermelho vibrante até, mas meio escuro. Como a camisa que usara no último dia inteiro passado do lado fora. E que, naquele momento, olhos acostumados à falta de luz, encarava-o de onde estava, estendida no encosto da cadeira, bem em frente à cama.

Depois de um tempo no escuro, é possível enxergar melhor, pensou.

O último dia inteiro passado fora do quarto, fora um dia qualquer. Outro dia qualquer que, agora, talvez, se tornasse especial. Quando a pegou, porém, a camisa vermelha na gaveta, não imaginou que se tratava de um dia especial. Vestiu bem, estava macia, com o cheiro do amaciante de jasmin ou lavanda ou qualquer nome de cheiro agradável e prendeu levemente na barba.

Saiu de casa, passos precisos, como num dia comum. Conversou sobre futebol com o porteiro, fez um comentário triste sobre o Vasco e tentou não bater o portão muito forte ao sair. Passou pelos mesmos lugares. Se sujou com as mesmas poeiras de todos os dias. Voltou pelo mesmo caminho de sempre. E passou pela casa do velho.

As letras vermelhas pararam de se mover e haviam sumido. Os olhos fixos no teto enxergavam, com alguma dificuldade, os desenhos no gesso. Era a decoração do velho apartamento. Desenhos aleatórios em que procurava algum sentido. Não encontrou.

Parou de tamborilar os dedos antes de pensar na palavra e começar tudo de novo, quem sabe que cores surgiriam?, se ajeitou na cama e apertou as mãos contra o rosto. Moveu os dedos pelo caminho das sobrancelhas até atingirem as costeletas. Com a palma, apertou as bochechas por um tempo e piscou os olhos longamente.

Não seria possível dizer se dormiu. O fato é que ao abrir os olhos o quarto permanecia escuro. Como talvez estivesse lá fora também.

Dentro e fora.

Mas não descobriria, pois não levantaria da cama e abriria a janela, sequer a cortina, para olhar. Ainda era cedo. E só valeria olhar pela janela para ver o sol e, uma vez que não havia sol, ou suspeitava que não houvesse, não valeria a pena. Por isso, o escuro, o teto, as letras. Ali, naquele pedaço, conhecedor de cada um dos cantos e quinas, de certa forma, estava protegido. Ou isolado. Ou isolado em si. O que, muito provavelmente, no fim das contas, não significaria proteção.
Se ao menos tivesse uma letra bonita, quem sabe pudesse, insistindo, escrever tudo num caderninho qualquer de capa de couro que estava sobre a mesa. E quem sabe um dia, um dia qualquer, o caderninho fosse encontrado e, vendo uma letra tão bonita, alguém se interessasse por ele e lesse e gostasse. Tudo por conta da letra bonita, redondinha, caprichada, parecendo com os escritos de uma criança na escola.

Mas nada disso jamais poderia acontecer. Porque se estivesse escrevendo, não passaria de um amontoado de letras tortas, formando uma massa de palavras disformes. E ninguém leria ou se interessaria por uma massa disforme, porque ninguém se interessa por massas disformes, quaisquer que sejam. Ainda mais sendo tristes, como seriam aquelas palavras sendo postas, uma a uma, no caderninho de couro.

Sem pensar em nada disso, coçou a barba amarga. E pensou nos olhos redondos. E em como estavam tristes naquele dia.

Era o fim da tarde, as primeiras luzes começavam a ser acesas e ajudavam a borrar o desenho das coisas. Olhar para o mundo ressaltava o astigmatismo que se impunha dia a dia.
A porta estava aberta. Entrou e deu um beijo no rosto quente. O velho apontou aqueles olhos redondos e tristes, falou da barba, apontou o caminho pro lado de fora e se movimentou, gestos lentos, em direção à varanda. Ventava um vento meio frio demais praquele dia. Repetiu o comentário sobre a barba enquanto se ajeitava.

Desconfortável, disse.

E ele, no fundo, não sabia se era sobre a barba, a cadeira na varanda ou a vida. Apenas sorriu um sorriso meio débil e sentou ao lado dele. O velho pegou um cigarro e uma caixa de fósforos no bolso. Prendeu nos lábios e riscou um fósforo. Tentou, na verdade. Depois da terceira vez, ele pegou a caixa e acendeu o cigarro pro velho. Um trago longo e os olhos fechados.

Alcançou um cinzeiro arranhado na mesinha ao lado e colocou entre os dois. Apoiou o cotovelo no encosto, segurou a cabeça com a mão e contemplou a segunda tragada. Nem o sorriso débil veio. O velho abriu os olhos e encarou-o por uns segundos, segurando com a mão tão frágil o cigarro. A outra, pousou no ombro dele, fazendo um afago meio descoordenado.

Você fica bem de vermelho.

E, então, ele sorriu. Quase chorando. E falaram por horas. Bastante. Ainda que, diante da nova perspectiva, não parecesse mais o bastante. Sobre o cigarro, a varanda, os fósforos novos que não valem nada, a fase do Vasco, os dias quentes, o pouco sal, o sol quando passa pelas frestas da cortina e o vento frio.

Passou a mão no rosto outra vez. A cortina se movia e tinha esfriado um pouco. Mas ainda não se cobriria, apenas a camisa e a calça desabotoada.

Pensou em acender um cigarro. Mas se deu conta de que não fumava. E, antes mesmo de pensar em beber alguma coisa, lembrou que não bebia. Era difícil sofrer desse jeito.

Sorriu como se tivesse contado uma piada a si mesmo. E imaginou que o velho sorriria também.

Restava-lhe fazer um café. Mas teria que ir a cozinha e a cozinha ficava longe, pelo menos, 12 passos da cama, pelo caminho mais curto. Ponderou mentalmente. Preferiu observar os números luminosos do rádio-relógio.

A luz do rádio-relógio ilumina bastante, achou.

Nunca havia percebido. Ou talvez fosse só o efeito de tanto tempo, quanto?, no quarto, no escuro. Apertou os olhos pra enxergar os números, só viu um borrão. Astigmatismo.

Desistiu e, aproveitando o meio do caminho, fechou os olhos. Imaginou que dormiria logo. Antes, se deteve no anacronismo de ter um rádio-relógio, 2014, cara, quem ainda tem rádio-relógio nos dias de hoje?, e coisas do tipo. E riu de novo. E pensou, de novo, que o velho teria rido.

Entrelaçou os dedos e apoiou as mãos sobre a barriga. Queria rezar um pouco. Queria uma oração pronta, dessas fáceis de decorar, pra resolver os apertos. Não lembrava de nenhuma. Só lembrava de São Longuinho, mas não parecia muito útil naquele momento. Até então, ao menos pelo que sabia, o santo não havia sido utilizado praquele tipo de busca. Procurou palavras. As certas, em primeiro lugar. E não as encontrando, quis qualquer uma, mesmo as erradas, mas não veio nenhuma, sumiram todas, sumia tudo, quase tudo. Pediu a São Longuinho a palavra certa, uma exata, que desse conta daquilo, daquilo tudo, mas o santo não se manifestou e ele xingou o santo e pediu desculpa. E tentou de novo, pediu uma palavra qualquer, mesmo que inexata. E nada. Esperou mais um pouco. Como não sabia do tempo, tentava não cobrar rigor cronológico das obras celestiais. Mas queria respostas rápidas, mesmo que o rápido não fosse claramente identificável. E, chamando por ele de novo e não obtendo resposta, perdeu a compostura e mandou o santo a merda. E as palavras não vieram. Como que num call center, como se chamasse um supervisor, quis falar com Deus. Mas não sabia se estava à vontade praquilo.

Quis chorar ali deitado no escuro.

Com isso, percebeu o buraco tão fundo de tudo. Um buraco enorme que ele conseguiu enxergar no teto. Tentou passar por ele, mas, o que não percebia, é que estava nele, que era ele, ele e o buraco, o buraco e ele. Tentou, ao menos, olhar do outro lado, só que não sabia exatamente o que havia do outro lado ou o que era o outro lado. E quando a gente não sabe o que tem que ver, fica difícil enxergar alguma coisa, começou a pensar.

Acendeu a luz de fora e levou o velho pra dentro. O jantar estava na mesa, mas nenhum dos dois quis comer. A senhora de óculos, com cara de tia ou de dona, suspirou e falou qualquer coisa.

O velho ligou a televisão e se acomodou lentamente na poltrona surrada. Puxou um cobertorzinho, pequeno, desses de criança, e pediu pra ele colocar sobre as pernas esticadas. Apontou pro apresentador do jornal. Dedo em riste, esculhambou com vontade aquele homenzinho de terno. Ele riu. Depois, falou mais uma vez da barba e deu um sorriso que se misturou com uma tosse que se misturou com uma repreensão da senhora de óculos que perguntava sobre os cigarros.

Os dois negaram. Mais de uma vez. Com convicção.

Ela reclamou uma coisa qualquer entre os dentes e foi sentar a mesa. Os dois se olharam, cúmplices de tudo. Ele abaixou e deu um beijo demorado no rosto já não tão quente. Depois, acenou pra senhora de óculos jantando e saiu. Já estava escuro.

Não tinha comido nada ainda nem tinha fome. Mas já começava a pensar sobre quanto tempo fazia que não comia nada ou ia ao banheiro ou bebia água. Se moveu até a beirada da cama e procurou com as mãos uma garrafa no chão. Não havia nenhuma e voltou pro lugar em que estava antes. Começava a perceber que não poderia permanecer ali. Esticou-se uma última vez, como que se espreguiçando. Passou as mãos pela cabeça, esfregou um pouco os olhos, pressionou as bochechas.

Voltou à beirada da cama. Devagar, ergueu o corpo, apoiando os braços, parecia meio fraco, meio tonto. Sentou na cama e sentiu o peso. A cabeça pesada, as pernas pesadas, o corpo pesado, todo, inteiro, inteiramente pesado, difícil de levantar. Um peso muito próximo aquele do dia anterior, de todas aquelas horas, da notícia, da espera, do fim. O peso que não é possível medir, que não é em quilos, que não é da responsabilidade, que não é de nada que exista, ou que se possa inventar. Jamais haverá uma balança de precisão pra isso, ele havia pensado muitas vezes. Um peso que não existe e que, ao mesmo tempo, é tão pesado de uma maneira infinita, tão opressor de um jeito absurdo, tão sufocante de uma forma violenta. E que, pior, ao depositar no chão, no fundo, em qualquer gaveta, não diminuiu, só aumenta, só pesa, só oprime, só sufoca. Um peso para o qual não existe escapatória, não há alavanca que ajude, solucione, dê jeito. Um peso ao qual se deve adequar a vida. Nada além disso.

Quando foi embora da casa do velho, já estava escuro, lembrou outra vez.

Chegou, três quadras depois, ao prédio em que morava. Elevador, banho, sofá. Não comeu nada, faltava fome. A televisão ligada em uma coisa qualquer, embalou o sono do corpo jogado nas almofadas coloridas.

Sonhou com um dia de sol, uma brisa fresca, o cheiro de sal e o mar de azul. Estava na praia, de calça jeans e camisa vermelha, e havia um garoto pequeno, ele mesmo, como numa lembrança da infância, andando pela areia fina e branca. Podia se ver pequeno, mão dada com o velho, que ainda não era velho, mas que já mostrava uma cabeça sem muito cabelo. Do outro lado, uma moça quase bonita poderia tirar a atenção dele com seu biquíni florido e as pernas bonitas. Poderia, apenas. Ele manteve os olhos no ele-pequeno de sunga vermelha e no velho-antes-de-ser-velho de bermuda e sem camisa. Apontava pra areia e pulava, como se estivesse quente. Foi, então, que começaram a correr, rindo alto, em direção ao mar, até se espatifarem nas ondas quebrando. E o ele-ele, sentado, olhando tudo aquilo, sentia ventar forte, estranhamente forte, pois nada se mexia no resto do cenário. Nada combinava muito, mas, afinal, era um sonho, o que tornava qualquer combinação desnecessária. E o dia passou rápido, com a moça do biquíni florido indo embora e as nuvens passando e o sol descendo no horizonte e a luz sumindo e o céu ficando escuro. Não viu mais os dois brincando na praia.

Acordou pensando na infância e nos dias em que fazia coisas com o velho. Não dormiu de novo, foi até a janela e ficou contemplando o céu escuro, quase sem estrelas. Uma, havia uma. Com um brilho fraco, um pouco acima do prédio em frente. Parou o olhar nela.

Estaria escuro ainda quando saísse correndo horas mais tarde em direção à casa do velho. O tempo não seria suficiente, mesmo com a cara amassada, mesmo com a roupa amassada, o cadarço desamarrado e o cabelo bagunçado. A senhora de óculos, sem os óculos, chorava.

Ele não.

Segurou-a pelas mãos. Falou alguma coisa. Ela chorou mais. Encostou a cabeça no ombro dele, apertou-o com força e, depois, se acalmou. Chegaram mais pessoas. Ele pediu que a levassem dali e ficou esperando.

Esperar, mesmo naquela situação irremediável. Esperar por tudo, por todas as coisas que se tem que fazer, e que não se sabe fazer em momentos como aquele. E esperou e fez.
Mais tarde, mais angústia, mais espera. Era difícil compreender o tempo. Apesar dos relógios. Como era difícil se pôr de pé. Mas fez.

De pé, se aproximou do rádio-relógio e viu as horas. Pensou em ir até a janela, olhar o tempo e pegar uma praia. Da janela, veria a rua que seguindo a segunda à esquerda, daria na casa do velho. E imaginaria o velho na varanda, de pé, altivo, com seu cigarro na boca e seus tragos longos. Lembraria, na verdade, dessa cena vista tantas vezes. E do semblante preocupado e do sorriso amoroso e dos olhos tristes e da esperança que estava lá, que esteve, ao menos. E lembraria do tempo em que não havia nenhum prédio por ali, só casas. Casas pequenas, de gente que se chamava de tia, de dona, de seu, de cores vibrantes e de nomes engraçados, de muros baixos, grades brancas, chapiscos. E dos quintais. Não que tivesse lembranças de árvores e frutas, não gostava de frutas, nenhuma, talvez tangerina. Mas tinha lembranças de árvores e sombras e ventos, que as tias, donas e seus chamariam de brisa ou de fresca e viriam no meio da tarde, mais ainda no fim, pra refrescar o jogo de bola no chão de terra. Os pés sujos e os joelhos ralados seriam a prova viva da importância do quintal, dos quintais, de todos os quintais do mundo. As frescas refrescariam também as tias e donas na calçada, conversando sobre o dia, as pessoas, a novela e o preço de tudo quanto era caro. Entre abanares, ofereceriam bolo e mandariam as crianças tomarem banho. O velho, cigarro no canto da boca, de pé na varanda, daria um assobio. E o dia se encerraria.

Mas não foi até a janela. Afinal, poderia estar sol lá fora.

Depois de um tempo no escuro, pode ser difícil abrir os olhos, pensou.

Se moveu dentro do quarto e alcançou a camisa vermelha esticada na cadeira. Sacudiu, sem pensar muito naquilo, apenas por sacudir. Era preciso lavar a camisa.

Devagar, foi em direção à porta e girou a maçaneta puxando contra si. A luz preencheu aquele espaço e uma lágrima escorreu pelo rosto dele, embolou na barba cansada, esbarrou na boca úmida e caiu na camisa vermelha. Baixou a cabeça e olhou para o ponto escuro que acabara de deixar na camisa embolada nas mãos.

Houvesse alguém ali, poderia ver seus olhos, que eram bonitos, de fato, numa cena bonita, a luz, a marca, o ponto, o queixo quase colado ao peito. Tinha uma clara dificuldade em lidar com a luz que chegava a parte de dentro do quarto, mas que, antes disso, preenchia a parte de fora pra onde ele iria agora. Ergueu o nariz e franziu o semblante como uma proteção inócua e caminhou, passando debaixo do batente.

Era preciso lavar.


E foi adiante, com a certeza de que não haveria mais dias comuns.