segunda-feira, 27 de julho de 2015

Deixa clarear


Clara Nunes era a cantora predileta da minha avó. Talvez de todas as avós (e algumas mães) das pessoas da minha idade.

Lembro de um dia, ainda criança, ouvir minha avó falando dela. Tocava uma música no rádio, perguntei quem era; ela disse Clara Nunes. Eu não conhecia, perguntei se era viva, o que cantava. Minha avó cantarolou “Morena de Angola”, aquela, sim, conhecia, e emendou com um “e como cantava...” e um suspiro.

Depois, cresci e ouvi muitas outras vezes a voz daquela mulher do rádio. E sempre me comove (como não se comover com “Canto das três raças” ou qualquer música do Paulo César Pinheiro?) ouvir a voz dela: parte porque se trata de uma cantora especial; parte pela lembrança da minha avó.

Ontem, uma outra Clara (Santhana) cantou as músicas que a Clara Nunes cantava em Deixa Clarear, peça Musical sobre Clara Nunes. Pude ver e ouvir de perto lá no Glauce Rocha, na ocupação Grandes Minorias. Fui ver uma peça, mas “Deixa clarear” transcende o palco, o teatro, o fazer teatral. É ritual, é oração (né, Marcia?).

Na 11ª temporada, muita gente já escreveu e falou bem sobre o "Deixa clarear". Não tenho nada de novo a dizer. Apenas agradecer por ontem.

Sentado e chorando do início ao fim, eu, que nem sou religioso, me encontrei com a minha avó naquela plateia, naquela festa. Porque foi, acima de tudo, uma festa, uma festa para Clara, uma festa sobre ela e com ela. Afinal, também encontrei com a Clara Nunes por lá. Todos, tenho certeza, encontraram. E foi uma festa linda.

A temporada acabou, mas tomara que um dia vocês possam ver “Deixa clarear”.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

"Vende-se uma geladeira azul" no Teatro Sesi Centro





Chegou o dia: mais tarde, às 19hs, nasce o espetáculo "Vende-se uma geladeira azul".

É um dia muito especial, o ponto alto de um processo que começou lá no começo do ano passado quando me inscrevi, sem muita esperança, no Núcleo de Dramaturgia do SESI Cultural Rio. No início, havia um título e uma sinopse simples. Ao longo do processo, nasceu o texto, cresceu e, neste 1º de julho, se reproduz no palco.

No Núcleo, o texto foi sendo construído sob a orientação de Carla FaourHenrique Tavares. Agradeço a eles pelas discussões importantes que fizeram o texto ganhar corpo, mas, acima de tudo, pelo carinho, pelo respeito às minhas convicções e pela sensação de ter sido tratado ao longo de todo o processo como um colega de atividade e não como um subordinado que deveria seguir um rumo previamente estabelecido.

Além deles, convivi com colegas que foram muito importantes pro desenvolvimento desse trabalho. A Marina Henriques e o Bob Maestrelli, do Sesi, estiveram presentes ao longo do processo e deram todo o suporte necessário e opiniões relevantes sobre dramaturgia.

É também necessário agradecer aos meus colegas de escrita. Escrever e reescrever carrega a dureza de ser uma atividade solitária. No Núcleo, porém, essa tarefa foi mais viva junto a Herton Gustavo, Leandro Bellini,Leandro Bacellar, Thales Paradela, Nivea Oliveira, Rita Elmor, Aline MacedoAnita ChavesLohan Lage PignonePedro Alvarenga e alguém mais que eu possa ter esquecido.

Sim, sim: acabou virando um textão de jabá misturado com rasgação de seda. Um textão, longo, cheio de "importantes" e "agradecimentos". Desculpem, mas juro que foi de coração. Achei que precisa dizer alguma coisa, mesmo sabendo que é só um pequeno registro dessa galera que colaborou imensamente pra que o meu textinho virasse a peça que vai ao palco hoje pela primeira vez.

Pela primeira vez como peça, já que ganhou uma leitura dramática em fevereiro deste ano. Na leitura, já com a sensível direção do Pedro Nercessian e a assistência da Juliana Bebé, defenderam brilhantemente a nossa geladeira azul Adassa MartinsBernardo Marinho e Leonardo Hinckel. Naquele momento, recebi também elogios e comentários importantes da Marcia Zanelatto e da Inez Viana.

Hoje, quase cinco meses depois, a estreia de "Vende-se uma geladeira azul" acontece no mesmo Sesi Centro em que se deu a leitura. O Pedro dirige o espetáculo também. No elenco, Amanda MirasciFelipe Haiut e Leonardo Hinckel. Com uma ficha técnica que me deixa muito feliz (!), com direito a Paulo César Medeiros (iluminação), Diogo Monteiro (cenário) e Mel Akerman (figurino).

Pra terminar, acreditando que alguém chegou até aqui, quero agradecer a pessoas de fora do Núcleo, mas que estiveram muito presentes no processo. À Juliana Marques, que leu todas as cenas e reclamou de um monte de coisa; aos meus parceiros de origem, que montaram um texto sério meu lá em 2005 e que sonharam fazer teatro numa cidade do interior, Renata Egger, que sempre insistiu pra que eu escrevesse mais, e ao Zeca Novais; à caravana de Rio Bonito (e exilados em Niterói, mas que mantem o espírito riobonitense, seja lá o que signifique isso) que apareceu na leitura e, agora, vai pra peça.

Enfim, não tenho palavras pra agradecer. Só não sei se elas me escapam pela alegria ou se gastei todas neste texto. Emoticon smile

Assim, chega de papo e vamos ao serviço:

Peça "Vende-se uma geladeira azul"
Escrita por Rafael Cal
Dirigida por Pedro Nercessian
Com Amanda Mirasci, Felipe Haiut e Leonardo Hinckel
No Teatro Sesi Centro (Avenida Graça Aranha, 1 - Metrô Cinelândia)
1, 2, 3 e 4 de julho.
Às 19:30.
Entrada gratuita.


Aqui o evento do Sesi:https://www.facebook.com/events/871047459654831/

domingo, 28 de junho de 2015

"Laura" no Catarse - texto da Nathalia Martins

Como já tinho postado aqui, tá rolando uma campanha no Catarse pra financiar a produção do espetáculo teatral "Laura".  Um projeto com o qual colaborei e sigo colaborando artisticamente e tenho muito alegria e honra em ter sido convidado no começo do ano a fazer parte. Junto, estão participando do projeto, além do idealizador-criador Fabricio Moser, Ana Paula Brasil, Cadu Cinelli, Francisco Taunay, Gabriela Lírio e Nathália Martins.

O financiamento no Catarse funciona de uma maneira bem legal: você compra os ingressos antecipadamente pras temporadas que já estão confirmadas aqui no Rio de Janeiro (Centro Cultural Laurinda Santos Lobo e Parque das Ruínas) e ajuda o espetáculo a nascer. Existem ainda outras recompensas, como a estadia num hostel por um fim de semana em Paraty (pra doações de R$500 ou mais). Ou você pode colocar uma grana porque gostou da proposta e que ver o espetacular existir mesmo.

Em campanha, peço que ajude a espalhar essa ideia. A Nathália Martins que eu citei ali em cima escreveu esse texto que reproduzo aqui:


"Laura é a avó do Fabricio Moser, quem sonhou com esse sonho Laura. 

Ele se perguntava: "porque não se fala dela?" E quis falar dela. Sonhou falar dela e falou, fala dela. Se pergunta: "o que da vó tem em mim? o que das avós há em nós?".

Falando dela, fala da minha avó também e da mulherada nossa, porreta, sempre velada. Fala do nosso país. Porque no nosso país, a vó é nossa história, raiz, segredo das plantas, de cura. 

E fala da avó de cada um da querida equipe-família que Fabrício, com muita habilidade, ensina como poder ser por perto, como construir, sem forçar afinidades, lutando por nossas paixões, dentro do processo criativo. 

Porque o teatro depende dessa fé em algum material inexplicável que surge do coração, do umbigo, do joelho e vai pra boca em forma de reflexão, pensamento crítico. Um artista nobre, justo, dedicado, apaixonado com uma equipe a sua imagem e semelhança; nós te chamamos agora a produzir junto uma daquelas histórias pequeninhas que tocam a História maior, social. 

Já adianto algumas coisas que só saem daqui, desse joelho, coração-umbigo. A Laura era livre, era bruxa, era índia, via futuro, cuidava de muitas bocas, deixou um legado importante de corpo e modo de ser. Se como pra mim, essas palavras são chaves e se você curte um troço feito de coração mas com método e trabalha-dores, talvez você queira já garantir seu ingresso colaborando.

Laura estreia sob a Lua Nova do dia 14 de agosto, às 20h, no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, e segue em apresentação nas Luas Crescente e Cheia, nos dias 21, 22 e 23 e 28, 29 e 30, sextas e sábados, às 19h30, e domingos, às 19h, no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, ambos em Santa Teresa. Nossa campanha no Catarse apresenta o projeto para receber seu apoio nessa etapa final de produção e também funciona como uma venda antecipada de ingressos para as primeiras apresentações." 

Colabore com essa produção independente, compartilhe a campanha e garanta seu ingresso.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Página da "Vende-se uma geladeira azul" no Facebook





Olha aqui a página da "Vende-se uma geladeira azul". O texto é meu e foi produzido no Núcleo de Dramaturgia do SESI Cultural Rio, sob a orientação da Carla Faour e do Henrique Tavares, no ano passado.

O espetáculo tem a direção do Pedro Nercessian, com Amanda Mirasci, Felipe Haiut e Leonardo Hinckel em cena.

A estreia é semana que vem, dia 1º, no Teatro Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1 - Metrô Cinelândia), às 19hs. A agenda do espetáculo tá toda na página. 

Vai lá ver!


Serviço

Vende-se uma geladeira azul
No Teatro SESI Centro (Av. Graça Aranha, 1 - Metrô Cinelândia)
Nos dias 1, 2, 3 e 4 de julho, às 19h30.


ps.: A foto do post é do Felipe Pilotto.

domingo, 21 de junho de 2015

"Obrigado, Leir" na Folha da Terra

Saiu ontem na Folha da Terra, do Alfonso Martinez​, lá em Rio Bonito, minha doce aldeia, texto meu homenageando o Leir Moraes, que morreu no último domingo. 

O Alfonso foi a primeira pessoa que me pagou pra escrever; o Leir, um cara de quem ouvi grande histórias. Aprendi muito com os dois no tempo em que estive lá. Segue o texto:


Obrigado, Leir - Rafael Cal

Eu era garoto, começando a trabalhar na Folha da Terra (2003, acho), quando entrei pela porta da redação e ouvi o batuque dos dedos nas teclas da máquina de escrever. Era Leir, sentado, datilografando um artigo pra edição daquela semana.

Coloquei um café pra nós dois e, me aproximando dele, perguntei, meio tímido, por que ele ainda escrevia a máquina. Ele olhou pra mim, cenho franzido e cigarro na mão, e respondeu que só a máquina dava vazão aos sentimentos de quem escreve.

Foi isso ou alguma coisa parecida. Afinal, o tempo passa e as palavras escapam da gente ou se misturam com outras, com imagens e coisas do tipo. Independentemente da exatidão da cena, achei um troço fantástico e sempre quis escrever sobre aquele dia. 

O momento apareceu, mas é pena que tenha sido numa hora triste como esta. Leir Moraes morreu no último domingo, aos 79 anos. Quando soube, só conseguia pensar sobre aquele dia, sobre escrever, sobre máquinas de escrever, jornalismo, literatura e boas conversas.

Encontrei com ele muitas outras vezes. Não que tenha sido íntimo, nada disso. Apenas aproveitei cada segundo daquele tempo no jornal pra ouvir histórias. Porque a verdade é que quem conta histórias deve, antes de tudo, saber perceber a boa oportunidade de ouvir histórias dos outros.

E era delicioso ouvir sobre política, jornalismo, Nelson Rodrigues, Niterói, Rio Bonito e meus avós (que receberam uma dedicatória belíssima na edição do "Bola de Gude" que guardo comigo). Todas contadas com a mesma simplicidade.

Por todas essas lembranças, posso dizer que foi um fim de semana menos feliz do que deveria. Se por um lado o LonaNa Lua​ reabria suas portas depois da reforma, representando uma celebração para todos nós militantes das palavras, das letras e das artes, partia com Leir um pedaço da boa escrita, da história da cidade e do antigo estado do Rio de Janeiro. Mas, mais que qualquer coisa, partia uma boa conversa.

Nessa hora de muitas homenagens, e ele merece todas elas, eu poderia desfilar aqui todos os cargos ocupados por Leir ao longo de sua vida e suas obras lançadas. Acredito, porém, que já fizeram isso. Este texto é, de alguma forma, um lamento.

Um lamento pela perda que a sua morte é pra Rio Bonito e pra todos os jovens riobonitenses que não ouviram suas histórias. Cronista de uma Rio Bonito (ou Serrado ou Prazeres) que já não existe há muito tempo, Leir foi o nosso Peixe Grande. E, certamente, suas histórias farão falta.

A mim, resta agradecer pelas conversas na mesa do jornal entre uns goles de café e a fumaça do cigarro dele. Elas foram muito importantes pra que eu continuasse escrevendo e contando histórias. Tomara que um dia eu possa fazer o mesmo por um jovem com vontade de escrever.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

"Laura" no Catarse

Palavras do Fabricio Moser, idealizador do projeto Laura, sobre a campanha no Catarse:

"Laura estreia sob a Lua Nova do dia 14 de agosto, às 20h, no CENTRO CULTURAL LAURINDA SANTOS LOBO, e segue em apresentação nas Luas Crescente e Cheia, dias 21, 22 e 23 e 28, 29 e 30, sextas e sábados, as 19h30, e domingos, as 19h, no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas (Oficial), ambos em Santa Teresa. Nossa campanha no Catarse apresenta o projeto para receber seu apoio nessa etapa final de produção e também funciona como uma venda antecipada de ingressos para as primeiras apresentações. Assista o vídeo, compartilhe a campanha, colabore com nossa produção e garanta seu ingresso."

Para colaborar, basta clicar aqui.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Livros: "Colcha de retalhos", de Rodrigo Domit

Finalmente os Correios permitiram e o livro do Rodrigo Domit chegou aqui em casa.

Já citei o Colcha de Retalhos aqui mais de uma vez, mas nunca é demais

lembrar: o Domit transformou o livro, publicado em 2011, num audiolivro que ficou pronto no final do ano passado.


Eu li o conto "Ambicioso" para a versão em áudio e, com maior orgulho, fiz parte desse bordado de vozes e sotaques que formaram esse projeto tão especial.

Pra conhecer mais o projeto, você pode ir visitar a página do projeto no Facebook. Tem também o post original, da época do lançamento do audiolivroPra quem quiser ouvir direto, é só clicar aqui.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Lona na Lua no Benfeitoria


Pra quem quer ajudar um grande projeto cultural e social, o Lona na Lua, do Zeca Novais, tá cadastrado no Benfeitoria.

Pra quem não conhece ainda, o Benfeitoria é uma plataforma voltada para o desenvolvimento de projetos socioculturais e da economia criativa. É bem rápido, fácil e você pode ajudar com pouco. A ideia é ir juntando gente e mantendo um financiamento coletivo a projetos permanentes.

Pra colaborar, basta clicar aqui e seguir o passo a passo.

Escrevi sobre o Lona na Lua em maio do ano passado (o texto pode ser lido aqui). Na época, o grupo estava estreando o espetáculo "Minha casa, minha vida", lá em Rio Bonito, e comemorando cinco anos de existência:

É bom saber que a Lona está lá. Mas não se pode esquecer de todas as dificuldades enfrentadas no caminho e as que ainda virão. E vale lembrar que a existência do Lona na Lua depende não apenas do trabalho dos loneiros: somente com o apoio da comunidade, dos empresários e do poder público, tanto a Prefeitura quanto a Câmara, o projeto continuará dando os frutos que tem dado. Rio Bonito está fora do grande centro produtor e consumidor de arte e entretenimento e estar na periferia é uma condição que não podemos negar. Ao contrário, isso pode e deve ser a mola propulsora pra que nos tornemos mais fortes. O fato é que tem que ter apoio, patrocínio, subvenção e casa cheia toda semana, tudo junto!

O que escrevi continua valendo. Se puder, vai lá no Benfeitoria e dá uma força.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"De longe" no Manufatura

Quem olhasse de longe não entenderia. Ela estava agachada sobre a mesa do restaurante. Segurava uma faca com a mão esquerda e (continua aqui)

domingo, 5 de abril de 2015

A camisa vermelha

Quando a pegou a camisa vermelha na gaveta, não imaginou que se tratava de um dia especial. Não imaginou nada, na verdade, pois se tratava apenas e tão somente de uma camisa. Agora, estava pensando sobre a camisa vermelha, o dia, a barba, as gavetas da memória em que se escondem os gestos inesquecíveis, os traumas, os cheiros e as texturas.

Estava ali sobre a cama havia horas. Poderia dizer que havia dias, poderia dizer qualquer coisa. Barriga pra cima, uma mão entre a cabeça e o travesseiro, a outra sobre o peito. Da posição que estava, podia ver a camisa vermelha sobre a cadeira do outro lado do quarto.

Seus olhos, bem abertos, eram bonitos e, houvesse luz, alguém que olhasse poderia vê-los fundos. E veria a camiseta amarrotada, a calça desabotoada, a barba cansada. Mas não havia luz nem ninguém e, por conta disso, não se viu nada.

A mão esquerda, a que estava sobe o peito, batia os dedos dessincronizadamente. E foi pensar nisso, para, em alguns segundos, buscar alguma lógica no andamento dos dedos, atentando para quão esquisita era aquela palavra que acabara de visualizar. Tinha o hábito estranho de imaginar as palavras que dizia. Era estranho, não contava a ninguém, mas, para si, era natural. E, como parte de uma grande proteção de tela dos olhos, viu as letras se separarem e repicarem nos cantos do quarto e voltarem e esbarrarem umas nas outras e voltarem aos cantos e se misturarem mais e mais e se espalharem por todas as partes do quarto. As que conseguia enxergar, claro, já que o quarto permanecia escuro desde que se dera conta da falta de contas sobre o tempo. E as letras em deslocamento eram vermelhas. Não saberia dizer a fonte, provavelmente Arial ou Times New Roman, uma coisa padronizada, de certo. A cor, sem dúvida, era o vermelho. Um vermelho vibrante até, mas meio escuro. Como a camisa que usara no último dia inteiro passado do lado fora. E que, naquele momento, olhos acostumados à falta de luz, encarava-o de onde estava, estendida no encosto da cadeira, bem em frente à cama.

Depois de um tempo no escuro, é possível enxergar melhor, pensou.

O último dia inteiro passado fora do quarto, fora um dia qualquer. Outro dia qualquer que, agora, talvez, se tornasse especial. Quando a pegou, porém, a camisa vermelha na gaveta, não imaginou que se tratava de um dia especial. Vestiu bem, estava macia, com o cheiro do amaciante de jasmin ou lavanda ou qualquer nome de cheiro agradável e prendeu levemente na barba.

Saiu de casa, passos precisos, como num dia comum. Conversou sobre futebol com o porteiro, fez um comentário triste sobre o Vasco e tentou não bater o portão muito forte ao sair. Passou pelos mesmos lugares. Se sujou com as mesmas poeiras de todos os dias. Voltou pelo mesmo caminho de sempre. E passou pela casa do velho.

As letras vermelhas pararam de se mover e haviam sumido. Os olhos fixos no teto enxergavam, com alguma dificuldade, os desenhos no gesso. Era a decoração do velho apartamento. Desenhos aleatórios em que procurava algum sentido. Não encontrou.

Parou de tamborilar os dedos antes de pensar na palavra e começar tudo de novo, quem sabe que cores surgiriam?, se ajeitou na cama e apertou as mãos contra o rosto. Moveu os dedos pelo caminho das sobrancelhas até atingirem as costeletas. Com a palma, apertou as bochechas por um tempo e piscou os olhos longamente.

Não seria possível dizer se dormiu. O fato é que ao abrir os olhos o quarto permanecia escuro. Como talvez estivesse lá fora também.

Dentro e fora.

Mas não descobriria, pois não levantaria da cama e abriria a janela, sequer a cortina, para olhar. Ainda era cedo. E só valeria olhar pela janela para ver o sol e, uma vez que não havia sol, ou suspeitava que não houvesse, não valeria a pena. Por isso, o escuro, o teto, as letras. Ali, naquele pedaço, conhecedor de cada um dos cantos e quinas, de certa forma, estava protegido. Ou isolado. Ou isolado em si. O que, muito provavelmente, no fim das contas, não significaria proteção.
Se ao menos tivesse uma letra bonita, quem sabe pudesse, insistindo, escrever tudo num caderninho qualquer de capa de couro que estava sobre a mesa. E quem sabe um dia, um dia qualquer, o caderninho fosse encontrado e, vendo uma letra tão bonita, alguém se interessasse por ele e lesse e gostasse. Tudo por conta da letra bonita, redondinha, caprichada, parecendo com os escritos de uma criança na escola.

Mas nada disso jamais poderia acontecer. Porque se estivesse escrevendo, não passaria de um amontoado de letras tortas, formando uma massa de palavras disformes. E ninguém leria ou se interessaria por uma massa disforme, porque ninguém se interessa por massas disformes, quaisquer que sejam. Ainda mais sendo tristes, como seriam aquelas palavras sendo postas, uma a uma, no caderninho de couro.

Sem pensar em nada disso, coçou a barba amarga. E pensou nos olhos redondos. E em como estavam tristes naquele dia.

Era o fim da tarde, as primeiras luzes começavam a ser acesas e ajudavam a borrar o desenho das coisas. Olhar para o mundo ressaltava o astigmatismo que se impunha dia a dia.
A porta estava aberta. Entrou e deu um beijo no rosto quente. O velho apontou aqueles olhos redondos e tristes, falou da barba, apontou o caminho pro lado de fora e se movimentou, gestos lentos, em direção à varanda. Ventava um vento meio frio demais praquele dia. Repetiu o comentário sobre a barba enquanto se ajeitava.

Desconfortável, disse.

E ele, no fundo, não sabia se era sobre a barba, a cadeira na varanda ou a vida. Apenas sorriu um sorriso meio débil e sentou ao lado dele. O velho pegou um cigarro e uma caixa de fósforos no bolso. Prendeu nos lábios e riscou um fósforo. Tentou, na verdade. Depois da terceira vez, ele pegou a caixa e acendeu o cigarro pro velho. Um trago longo e os olhos fechados.

Alcançou um cinzeiro arranhado na mesinha ao lado e colocou entre os dois. Apoiou o cotovelo no encosto, segurou a cabeça com a mão e contemplou a segunda tragada. Nem o sorriso débil veio. O velho abriu os olhos e encarou-o por uns segundos, segurando com a mão tão frágil o cigarro. A outra, pousou no ombro dele, fazendo um afago meio descoordenado.

Você fica bem de vermelho.

E, então, ele sorriu. Quase chorando. E falaram por horas. Bastante. Ainda que, diante da nova perspectiva, não parecesse mais o bastante. Sobre o cigarro, a varanda, os fósforos novos que não valem nada, a fase do Vasco, os dias quentes, o pouco sal, o sol quando passa pelas frestas da cortina e o vento frio.

Passou a mão no rosto outra vez. A cortina se movia e tinha esfriado um pouco. Mas ainda não se cobriria, apenas a camisa e a calça desabotoada.

Pensou em acender um cigarro. Mas se deu conta de que não fumava. E, antes mesmo de pensar em beber alguma coisa, lembrou que não bebia. Era difícil sofrer desse jeito.

Sorriu como se tivesse contado uma piada a si mesmo. E imaginou que o velho sorriria também.

Restava-lhe fazer um café. Mas teria que ir a cozinha e a cozinha ficava longe, pelo menos, 12 passos da cama, pelo caminho mais curto. Ponderou mentalmente. Preferiu observar os números luminosos do rádio-relógio.

A luz do rádio-relógio ilumina bastante, achou.

Nunca havia percebido. Ou talvez fosse só o efeito de tanto tempo, quanto?, no quarto, no escuro. Apertou os olhos pra enxergar os números, só viu um borrão. Astigmatismo.

Desistiu e, aproveitando o meio do caminho, fechou os olhos. Imaginou que dormiria logo. Antes, se deteve no anacronismo de ter um rádio-relógio, 2014, cara, quem ainda tem rádio-relógio nos dias de hoje?, e coisas do tipo. E riu de novo. E pensou, de novo, que o velho teria rido.

Entrelaçou os dedos e apoiou as mãos sobre a barriga. Queria rezar um pouco. Queria uma oração pronta, dessas fáceis de decorar, pra resolver os apertos. Não lembrava de nenhuma. Só lembrava de São Longuinho, mas não parecia muito útil naquele momento. Até então, ao menos pelo que sabia, o santo não havia sido utilizado praquele tipo de busca. Procurou palavras. As certas, em primeiro lugar. E não as encontrando, quis qualquer uma, mesmo as erradas, mas não veio nenhuma, sumiram todas, sumia tudo, quase tudo. Pediu a São Longuinho a palavra certa, uma exata, que desse conta daquilo, daquilo tudo, mas o santo não se manifestou e ele xingou o santo e pediu desculpa. E tentou de novo, pediu uma palavra qualquer, mesmo que inexata. E nada. Esperou mais um pouco. Como não sabia do tempo, tentava não cobrar rigor cronológico das obras celestiais. Mas queria respostas rápidas, mesmo que o rápido não fosse claramente identificável. E, chamando por ele de novo e não obtendo resposta, perdeu a compostura e mandou o santo a merda. E as palavras não vieram. Como que num call center, como se chamasse um supervisor, quis falar com Deus. Mas não sabia se estava à vontade praquilo.

Quis chorar ali deitado no escuro.

Com isso, percebeu o buraco tão fundo de tudo. Um buraco enorme que ele conseguiu enxergar no teto. Tentou passar por ele, mas, o que não percebia, é que estava nele, que era ele, ele e o buraco, o buraco e ele. Tentou, ao menos, olhar do outro lado, só que não sabia exatamente o que havia do outro lado ou o que era o outro lado. E quando a gente não sabe o que tem que ver, fica difícil enxergar alguma coisa, começou a pensar.

Acendeu a luz de fora e levou o velho pra dentro. O jantar estava na mesa, mas nenhum dos dois quis comer. A senhora de óculos, com cara de tia ou de dona, suspirou e falou qualquer coisa.

O velho ligou a televisão e se acomodou lentamente na poltrona surrada. Puxou um cobertorzinho, pequeno, desses de criança, e pediu pra ele colocar sobre as pernas esticadas. Apontou pro apresentador do jornal. Dedo em riste, esculhambou com vontade aquele homenzinho de terno. Ele riu. Depois, falou mais uma vez da barba e deu um sorriso que se misturou com uma tosse que se misturou com uma repreensão da senhora de óculos que perguntava sobre os cigarros.

Os dois negaram. Mais de uma vez. Com convicção.

Ela reclamou uma coisa qualquer entre os dentes e foi sentar a mesa. Os dois se olharam, cúmplices de tudo. Ele abaixou e deu um beijo demorado no rosto já não tão quente. Depois, acenou pra senhora de óculos jantando e saiu. Já estava escuro.

Não tinha comido nada ainda nem tinha fome. Mas já começava a pensar sobre quanto tempo fazia que não comia nada ou ia ao banheiro ou bebia água. Se moveu até a beirada da cama e procurou com as mãos uma garrafa no chão. Não havia nenhuma e voltou pro lugar em que estava antes. Começava a perceber que não poderia permanecer ali. Esticou-se uma última vez, como que se espreguiçando. Passou as mãos pela cabeça, esfregou um pouco os olhos, pressionou as bochechas.

Voltou à beirada da cama. Devagar, ergueu o corpo, apoiando os braços, parecia meio fraco, meio tonto. Sentou na cama e sentiu o peso. A cabeça pesada, as pernas pesadas, o corpo pesado, todo, inteiro, inteiramente pesado, difícil de levantar. Um peso muito próximo aquele do dia anterior, de todas aquelas horas, da notícia, da espera, do fim. O peso que não é possível medir, que não é em quilos, que não é da responsabilidade, que não é de nada que exista, ou que se possa inventar. Jamais haverá uma balança de precisão pra isso, ele havia pensado muitas vezes. Um peso que não existe e que, ao mesmo tempo, é tão pesado de uma maneira infinita, tão opressor de um jeito absurdo, tão sufocante de uma forma violenta. E que, pior, ao depositar no chão, no fundo, em qualquer gaveta, não diminuiu, só aumenta, só pesa, só oprime, só sufoca. Um peso para o qual não existe escapatória, não há alavanca que ajude, solucione, dê jeito. Um peso ao qual se deve adequar a vida. Nada além disso.

Quando foi embora da casa do velho, já estava escuro, lembrou outra vez.

Chegou, três quadras depois, ao prédio em que morava. Elevador, banho, sofá. Não comeu nada, faltava fome. A televisão ligada em uma coisa qualquer, embalou o sono do corpo jogado nas almofadas coloridas.

Sonhou com um dia de sol, uma brisa fresca, o cheiro de sal e o mar de azul. Estava na praia, de calça jeans e camisa vermelha, e havia um garoto pequeno, ele mesmo, como numa lembrança da infância, andando pela areia fina e branca. Podia se ver pequeno, mão dada com o velho, que ainda não era velho, mas que já mostrava uma cabeça sem muito cabelo. Do outro lado, uma moça quase bonita poderia tirar a atenção dele com seu biquíni florido e as pernas bonitas. Poderia, apenas. Ele manteve os olhos no ele-pequeno de sunga vermelha e no velho-antes-de-ser-velho de bermuda e sem camisa. Apontava pra areia e pulava, como se estivesse quente. Foi, então, que começaram a correr, rindo alto, em direção ao mar, até se espatifarem nas ondas quebrando. E o ele-ele, sentado, olhando tudo aquilo, sentia ventar forte, estranhamente forte, pois nada se mexia no resto do cenário. Nada combinava muito, mas, afinal, era um sonho, o que tornava qualquer combinação desnecessária. E o dia passou rápido, com a moça do biquíni florido indo embora e as nuvens passando e o sol descendo no horizonte e a luz sumindo e o céu ficando escuro. Não viu mais os dois brincando na praia.

Acordou pensando na infância e nos dias em que fazia coisas com o velho. Não dormiu de novo, foi até a janela e ficou contemplando o céu escuro, quase sem estrelas. Uma, havia uma. Com um brilho fraco, um pouco acima do prédio em frente. Parou o olhar nela.

Estaria escuro ainda quando saísse correndo horas mais tarde em direção à casa do velho. O tempo não seria suficiente, mesmo com a cara amassada, mesmo com a roupa amassada, o cadarço desamarrado e o cabelo bagunçado. A senhora de óculos, sem os óculos, chorava.

Ele não.

Segurou-a pelas mãos. Falou alguma coisa. Ela chorou mais. Encostou a cabeça no ombro dele, apertou-o com força e, depois, se acalmou. Chegaram mais pessoas. Ele pediu que a levassem dali e ficou esperando.

Esperar, mesmo naquela situação irremediável. Esperar por tudo, por todas as coisas que se tem que fazer, e que não se sabe fazer em momentos como aquele. E esperou e fez.
Mais tarde, mais angústia, mais espera. Era difícil compreender o tempo. Apesar dos relógios. Como era difícil se pôr de pé. Mas fez.

De pé, se aproximou do rádio-relógio e viu as horas. Pensou em ir até a janela, olhar o tempo e pegar uma praia. Da janela, veria a rua que seguindo a segunda à esquerda, daria na casa do velho. E imaginaria o velho na varanda, de pé, altivo, com seu cigarro na boca e seus tragos longos. Lembraria, na verdade, dessa cena vista tantas vezes. E do semblante preocupado e do sorriso amoroso e dos olhos tristes e da esperança que estava lá, que esteve, ao menos. E lembraria do tempo em que não havia nenhum prédio por ali, só casas. Casas pequenas, de gente que se chamava de tia, de dona, de seu, de cores vibrantes e de nomes engraçados, de muros baixos, grades brancas, chapiscos. E dos quintais. Não que tivesse lembranças de árvores e frutas, não gostava de frutas, nenhuma, talvez tangerina. Mas tinha lembranças de árvores e sombras e ventos, que as tias, donas e seus chamariam de brisa ou de fresca e viriam no meio da tarde, mais ainda no fim, pra refrescar o jogo de bola no chão de terra. Os pés sujos e os joelhos ralados seriam a prova viva da importância do quintal, dos quintais, de todos os quintais do mundo. As frescas refrescariam também as tias e donas na calçada, conversando sobre o dia, as pessoas, a novela e o preço de tudo quanto era caro. Entre abanares, ofereceriam bolo e mandariam as crianças tomarem banho. O velho, cigarro no canto da boca, de pé na varanda, daria um assobio. E o dia se encerraria.

Mas não foi até a janela. Afinal, poderia estar sol lá fora.

Depois de um tempo no escuro, pode ser difícil abrir os olhos, pensou.

Se moveu dentro do quarto e alcançou a camisa vermelha esticada na cadeira. Sacudiu, sem pensar muito naquilo, apenas por sacudir. Era preciso lavar a camisa.

Devagar, foi em direção à porta e girou a maçaneta puxando contra si. A luz preencheu aquele espaço e uma lágrima escorreu pelo rosto dele, embolou na barba cansada, esbarrou na boca úmida e caiu na camisa vermelha. Baixou a cabeça e olhou para o ponto escuro que acabara de deixar na camisa embolada nas mãos.

Houvesse alguém ali, poderia ver seus olhos, que eram bonitos, de fato, numa cena bonita, a luz, a marca, o ponto, o queixo quase colado ao peito. Tinha uma clara dificuldade em lidar com a luz que chegava a parte de dentro do quarto, mas que, antes disso, preenchia a parte de fora pra onde ele iria agora. Ergueu o nariz e franziu o semblante como uma proteção inócua e caminhou, passando debaixo do batente.

Era preciso lavar.


E foi adiante, com a certeza de que não haveria mais dias comuns.

segunda-feira, 30 de março de 2015

O dia em que não encontrei Eduardo Galeano

"Um conhecido que vai com frequência ao Uruguai, ao ser perguntado por mim sobre o que fazer em Montevidéu, deu uma dica que me fez abrir um sorriso:
- Há uma livraria na Ciudad Vieja, bem perto do Cabildo, em que o Galeano costuma ir no fim da tarde."

O texto foi o primeiro que publiquei aqui no Fazendo um Drama sobre a viagem. De certa forma, a boa reação a ele foi o que motivou a publicação dos demais. Pra ler a versão completa, basta clicar aqui.

domingo, 29 de março de 2015

De Montevidéu a Santiago, passando por Buenos Aires: um anti-guia de viagem

Este texto começou a ser escrito pra ser um arquivo de compartilhamento do Google Docs. Era um roteiro informal pra minha viagem por Uruguai, Argentina e Chile. Viagem que começou como um plano solo e que acabou ganhando a companhia de amigos e amigas, antes, durante e depois da viagem.
Quando enviei para um grupo de amigos que também viajaria (alguns em datas diferentes), pra que compartilhássemos interesses e expectativas, ouvi uma pergunta:
- Isso é uma crônica ou um roteiro de viagem?
O texto era uma espécie de justificativa das minhas escolhas para a viagem. Afinal, é possível se viajar de modos muito diferentes. Eu gosto de rua, por exemplo.
Isso pode parecer uma informação banal, mas o fato de gostar de rua condiciona toda a viagem. Porque significa reduzir bastante o tempo dentro de museus ao essencial e evitar passeios guiados ou ônibus turísticos. Nada contra, é uma opção apenas.
Uma opção que está associada a uma espécie de perder-se. Mapas são amigos, mas como amigos que são podem querer te controlar, às vezes. Deixá-los descansando na mochila em alguns momentos é uma sábia decisão: de cabeça baixa, lendo o nome de ruas e conferindo legendas, pode-se deixar escapar detalhes únicos do caminho.
Gostar de rua é também perder-se em esquinas, no centro da cidade, por lugares estranhos e cheiros diferentes; em mercados, de rua, de porto, de pulgas. É vagar por bairros em que se possa caminhar a pé e fugir do metrô.
Significa ainda gostar de áreas decadentes, envelhecidas, meio abandonas, meio sobrevivendo; zonas portuárias, de prostituição, regiões centrais, muquifos. Nada pra se colocar em risco, talvez uma ou outra vez, é a vontade de ver a cidade que o turista não vê.
Um dos campeões de atenções em viagens, os museus, me causam certa desconfiança. Sim, eu sei que deveria amá-los, já que sou professor de História. Mas posso explicar: boa parte dos museus não parece feita para ser agradável aos visitantes. São coleções, em geral, coleções cercadas de proibições e regras.
Apesar disso, queria ir especialmente a alguns nessa viagem: ao Malba ver o “Abapuru”, ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, ao Estádio Centenário, ao Museu do Boca. Além desses, costumo apostar sempre nos museus “da cidade”. Alguns lugares ainda têm promoções e, com promoção, a gente entra pra ver, né?
No mais, o texto tratava de ver um tango, comer um churrasco, ou vários, ver um espetáculo teatral, assistir ao Fuerza Bruta, livrarias e bares sugeridos por amigos, colegas e conhecidos e algumas outras coisas.
A partir dessa justificativa-manifesto de viagem, nasceu a ideia de transformar as anotações do período em um conjunto de textos sobre as impressões experimentadas na viagem. Algo que não fosse um diário que só fizesse sentido pra mim, mas tampouco fosse um roteiro do que fazer e lugares pra ir. Afinal, tem gente muito boa e eficiente fazendo esses roteiros. Eu mesmo sempre viajo com o Guia Criativo d’O Viajante.
Havia, entretanto, uma preocupação em não dar conta do projeto. Em 2013, numa viagem de um mês pela Europa, tentei começar a organizar uma coisa parecida. Mas perdi meu caderninho de anotações na passagem por Fátima e a coisa esfriou. Por fim, a viagem rendeu algumas, não muitas, fotos, um texto sobre Portugal e, acima de tudo, um conjunto de imagens e sentimentos inesquecíveis tatuados em mim.
Dessa vez, me prometi tomar mais cuidado. Usar um caderninho ao sair e deixar outro no hostel, de modo que não perdesse as anotações do dia. Parecia uma coisa meio metódica demais, mas acabou sendo uma maneira ótima de me disciplinar pra escrever um pouquinho, 30-40 minutos todo dia durante a viagem.
E valeu bastante. A viagem foi fantástica e rendeu muitas anotações que viraram estes escritos que começam aqui. Teve de tudo um pouco: de sugestões de lugares pra ver a histórias presenciadas na cozinha de um hostel; de um escritor que não compareceu a um encontro que nós nunca marcamos a uma viúva que herdou uma livraria com quase 15 mil volumes.
Teve brasileiro, muito brasileiro. O continente tem sido reiteradamente descoberto por nós na última década, década e meia. Montevidéu, Punta Del Este, Buenos Aires, Bariloche, Patagônia, Santiago, Atacama, Cartagena, Machu Pichu. Se há uma certeza ao viajar pra esses lugares, é que você vai ouvir alguém falando português num local público em busca de informações. Ou reclamando do Brasil, um dos nossos mais difundidos esportes nacionais.
Mas, independentemente de nacionalidade e de reclamações, teve gente. Muita gente. Circular por Uruguai, Argentina e Chile foi espetacular, sobretudo, pelas pessoas encontradas pelo caminho. Senhorezinhos e senhorazinhas que provavelmente tinham acabado de sair de uma foto guardada dos anos 1950; gente bonita, uma beleza diferente da brasileira; vendedores e vendedoras de rua, artistas, militantes das mais variadas causas, estudantes, turistas; e, nada mais marcante, crianças e cachorros.
Essas histórias estarão aqui. Serão, sem uma periodicidade definida, textos sobre as gentes e o tempo que passei andando pelas ruas de cada cidade que visitei, neste anti-guia de viagem para Montevidéu, Buenos Aires e Santiago. Acho que não vai servir pra preparar o seu roteiro de viagem, mas espero que sirva pra ser lido por aí durante uma delas. Seja por onde for esse “aí”.