segunda-feira, 28 de julho de 2014

Primeiras frases

Sou um sujeito apaixonado por começos de livros. Talvez isso tenha a ver com o fato de gostar de começar muitas coisas (e nem sempre terminá-las, vá lá).

Essa coisa de gostar de primeiras frases de livros me bateu da primeira vez que li Garcia Marquez. Era "Crônica de uma morte anunciada" e o Gabo começava assim:

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo."

Passei a colecionar começos de livros desde então, primeiras frases, frases para começar um romance, um conto, uma peça, um texto, o primeiro parágrafo, a primeira fala, o ponto de partida. E eis que há pouco me deparo com o chileno Alessandro Zambra e seus dois romances "Bonsai" e "A vida privada das árvores". Nos dois, a mão cheia pra abrir uma história:

"No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia." (Bonsai - Zambra)

"Julián distrai a menina com A vida privada das árvores, uma série de histórias que inventou para fazê-la dormir. Os protagonistas são um álamo e um baobá que de noite, quando ninguém está vendo, conversam sobre fotossíntese, esquilos, ou sobre numerosas vantagens de serem árvores e não pessoas ou animais ou, como eles dizem, estúpidos pedaços de cimento." (A vida privada das árvores - Zambra)




domingo, 27 de julho de 2014

história sem título para um dia de chuva

O sol não apareceu. Estava dia, mas era chuva, uma chuva dura, dessas que machucam a gente quando caem. Não pelo peso. Ou talvez pelo peso.
Ele quis que ela não fosse. Mas não tinha mais forças.
Ele também achou que ela não queria ir. Mas não tinha mais forças.
Precisavam de força, de forças, os dois, da força do caminhante que caminha inexoravelmente para o fim, para o seu fim próprio que é caminhar, e não chegar a algum lugar, porque lugar nenhum há no fim de tudo. Há apenas o andar.
Pensassem nisso, e entendessem isso, poderiam descobrir como caminhar juntos.
E caminhariam. Com ou sem sol.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Eu, Bebeto e Romário

Há 20 anos, a Seleção Brasileira era tetracampeã mundial de futebol. A Copa de 1994, nos EUA, é a primeira grande lembrança de acompanhara uma competição esportiva que tenho. E, a final contra a Itália, a primeira grande tensão.

Durante a última Copa do Mundo, escrevi sobre Brasil e EUA, em 4 de julho de 1994, jogo válido pelas oitavas de final daquela Copa, já tão distante no tempo. Afinal, são 20 anos, né? O texto foi publicado no Ouro de Tolo, numa série especial chamada Meu jogo inesquecível. Você pode conferir o texto clicando aqui. O texto também foi publicado aqui no Fazendo um Drama e você pode ler aqui.


A primeira coisa que uma é criança na vida é o seu time. Se não pra todas, pra muitas. Se não a primeira, uma das primeiras. Uma manifestação de paixão e de um amor eterno. Você não sabe seu nome todo direito, não conhece todos os parentes dos seus pais, não sabe o CEP de casa e ainda come massinha na sala de aula. Mas basta alguém perguntar “qual o seu time?” pra resposta sair de pronto. Vasco da Gama, eu dizia rápido.
Futebol sempre foi coisa importante em casa. Comigo, coisa de pai pra filho. E de avô pra pai. Somos uma casa de portugueses e vascaínos. Pra mim, assim como pra muitas crianças brasileiras, imagino, as primeiras memórias mais claras da infância estão relacionadas ao futebol. Ganhar uma camisa do Vasco com “Coca-Cola” escrito na frente e perguntar se não tinha uma do Guaraná Brahma é, e imagino que sempre será, história pra contar no almoço de família.
Entretanto, histórias do Vasco e de almoços de família na minha casa ficam pra outra oportunidade. Afinal, em junho de 1994, dias depois de completar nove anos, a criança que corria empolgada com uma bandeira cruz-maltina amarrada no pescoço e ainda comemorava o tricampeonato estadual incorporava uma outra torcida à paixão pelo futebol: sou Vasco e Brasil, dizia. Por aqueles dias, meu pai explicou como funcionava a Copa, falou que ia ser nos EUA, mas que eles não sabiam jogar bola, lembrou do Brasil X Uruguai das eliminatórias e me deu o álbum e as figurinhas pra colecionar. Minha tia deu uma tabela pra marcar os resultados dos jogos. Mal sabiam que estavam criando um monstrinho viciado na Copa do Mundo. CONTINUAR LENDO

domingo, 13 de julho de 2014

Último escrito sobre a Copa do Mundo: Tarde no Maracanã *


Tarde de domingo, Maracanã. Jogo duro: dois rivais que já tinham decidido campeonatos anteriores se enfrentando pelo título. Gols perdidos, pancadas, torcida cantando forte.

Quando o empate parecia definitivo, quando não havia mais força pra mudar o resultado, o técnico chama ele do banco pra entrar. O cara entra e faz o gol. Decide o jogo e o campeonato.

O nome dele? Cocada. 

Goetze apenas repetiu o feito dele em 1988, num Vasco e Flamengo. Repetiu, não, quase repetiu. Afinal, o Cocada fez o gol e foi expulso logo depois. Se o Lukas Podolski é o Vampeta-2002 nessa Alemanha, Goetze é o Cocada.



* Homenagem ao grande site NetVasco.

terça-feira, 8 de julho de 2014

"Chuveiro ligado" no Página Cultural

Ela olha para a água que cai do chuveiro.
Dizem que um chuveiro elétrico aberto durante quinze minutos gasta 145 litros de água. É o tempo que estou aqui tentando decidir o que fazer. Já se foram 145. 145 é o que no jogo do bicho? Não faço ideia. Nunca joguei. Até tenho curiosidade. Mas sempre me faltou coragem. Contravenção, né? Esse nome me assusta.
Olha fixamente para o registro. No caminho, seu olhar corta a água.

"Chuveiro ligado" foi publicado no Página Cultural. Para ler o post completo, clique aqui.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vamos falar da seleção da Argélia mais uma vez?

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A seleção argelina retornou ao seu país nesta semana e foi recebida com festa pela população local. Tratados como heróis na chegada a Argel, o grupo foi ainda mais fantástico: doará a premiação recebida da Fifa à população de Gaza.

Aproveitando o assunto, escrevi sobre a seleção da Argélia para a cobertura especial da Copa do Mundo do Ouro de Tolo. O texto se chama "Vamos falar da seleção da Argélia" e você pode ler clicando aqui. Ele foi republicado aqui no blog também.

No texto falo do impacto da seleção argelina (e também dos costa-riquenhos) sobre nós. Reafirmo aqui o que disse lá: "Não sei se falaremos mais dessas seleções e de seus países, mas há chances, penso. Tomara que consigamos, nós e eles. Fará bem ao futebol, à Copa do Mundo e à sociedade". E, completo agora, a Argélia tem feito.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Vamos ter muitas histórias para contar *

Como disse noutro texto, e é um clichezão, perdoem, futebol é um negócio mágico. Não mágico do ponto de vistas dos lances bonitos e das surpresas que aparecem e nos encantam também. Mas, sim, das possibilidades de fascinação: o futebol transcende o esporte. É mais que uma competição com um vencedor e um derrotado. Muito mais.
Sim, eu sei a torcida brasileira não vem ajudando muito. Já reclamamos todos disso. Os estádios se tornaram um grande cenário para não-torcedores com ingresso”, como disse o José Antonio Lima. Eu, que assisti a um jogo na Fonte Nova, reforço essa visão. Acontece que tem aquela tal mágica que falei.
De repente, a Copa no Brasil se tornou um fenômeno. Tem uma média alta de gols, excelentes jogos, grandes surpresas e, por que não contar isso, sem dúvida, o maior número de teorias conspiratórias. De mensagem subliminar a resultado vendido.
Assim, uma Copa do Mundo apontada como o maior fracasso de todos os tempos, como a vergonha do país, se torna um sucesso. Olha a mágica acontecendo. Aquela Copa que não atraía a atenção de ninguém, que não empolgava o brasileiro, ganha as ruas e toma o país inteiro. E não só o nosso país.
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Muito além das fan fests espalhadas pelos países participantes da Copa, temos, como poucas vezes, um envolvimento de lideranças políticas na torcida. Um dos mais expressivos é Luís Guillermo Solís, presidente da Costa Rica.
É bastante comum a presença de Chefes de Estado em competições internacionais. No Brasil, a polarização irracional que vivemos tem impedido um pouco essa participação. A presidenta esteve na abertura e talvez apareça para a entrega da taça na final. Indo ou não, será alvo de questionamentos, certeza.
Fora daqui, no entanto, os políticos têm se envolvido intensamente com a Copa do Mundo. Voltando ao que falava sobre Solís, estava pesquisando algumas coisas para o texto que escrevi sobre a seleção centro-americana, logo após assistir a Costa Rica e Itália, quando cheguei à sua conta no Twitter. O presidente costa-riquenho estava explodindo de alegria, comemorando a classificação da seleção para a segunda fase. As fotos mostravam a população comemorando em San José e ele mesmo em meio a toda a festa.
Alguns dias depois, após a vitória contra os gregos nas oitavas de final, Solís foi cumprimentado pelos presidentes de El Salvador, Honduras e Guatemala pelo Twitter. Falavam em um triunfo da América Central. E mais festa na Costa Rica. E mais fotos.
Na primeira fase, o casal real holandês esteve no Brasil para assistir ao jogo de seu país contra a Austrália. Detalhe: a viagem foi em caráter não-oficial. Quer dizer, grosso modo, que queriam ver o jogo da Copa sem muita perturbação com os protocolos e compromissos.
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Mas é na América que a coisa está alastrada. Além do presidente costa-riquenho, outros colegas do continente têm aparecido ligados ao futebol. No Chile, após a eliminação da seleção contra o Brasil, Bachelet adiou um pouco sua viagem aos EUA para receber a delegação de seu país. E fez questão de salientar que a população estava orgulhosa dos jogadores.
Por seu lado, Obama também mostrou interesse na Copa do Mundo. O presidente se deixou fotografar assistindo ao jogo entre EUA e Alemanha dentro do Air Force One e destacou a classificação da seleção norte-americana para as oitavas em discurso.
É do Uruguai, porém, que vem a maior cena de um chefe de estado na Copa do Mundo de 2014. Recebendo a seleção uruguaia eliminada pela Colômbia, Mujica ainda reclamava da punição a Luis Suárez e, questionado por um repórter, dirige palavras não muito doces à Fifa.
Tudo isso é só pra lembrar que estamos vendo a história ser escrita na nossa frente. Estamos vendo o futebol ultrapassando o campo e o esporte servindo como elemento de unidade. Alguns, muitos, na verdade, já perceberam. Solís é um deles, sem dúvida. Outros, ainda estão gritando que, enquanto você grita gol, alguém te rouba. Infelizmente, não encontraram a máquina do tempo pra retornar ao século XXI ainda.
BrUp5sJCIAAMYGw[1]Eu, por aqui, continuo insistindo: vou ter muita coisa pra contar pros meus netos no futuro sobre a Copa do Mundo do Brasil em 2014. Contar que os EUA pararam pra ver uma partida de futebol, que tem casal real escapando pra ver jogo, que o Mujica xingou os caras da Fifa, que a Argélia enfrentou a Alemanha com bravura nas oitavas de final, que a Costa Rica está nas quartas de final e seu presidente é um cara que comemora como qualquer torcedor. Que bom que eu estou vivo pra ver isso.
(Nota: as fotos de Solís na Costa Rica estão disponíveis no perfil do presidente; a foto no Air Force One é da AFP.)

* Texto escrito para o Ouro de Tolo. Pra conferir o post original, clique aqui.

terça-feira, 1 de julho de 2014

"Vamos ter muitas histórias para contar" no Ouro de Tolo

"Muito além das fan fests espalhadas pelos países participantes da Copa, temos, como poucas vezes, um envolvimento de lideranças políticas na torcida. Um dos mais expressivos é Luís Guillermo Solís, presidente da Costa Rica."

Hoje, mais cedo, subiu texto meu lá no Ouro de Tolo. Dessa vez, me arrisquei a falar de futebol e política, apontando o interesse dos chefes de estado americanos na Copa do Mundo. O Solís, presidente da Costa Rica, segurando a bandeira na foto aqui do lado, é um dos mais empolgados. Mas tem (ou tinha) Obama, Bachelet, rei e rainha da Holanda.

O texto faz parte da cobertura especial do Ouro de Tolo para a Copa do Mundo. Todo o dia tem bastante coisa lá sobre o mundial, num esforço coletivo que tá dando um resultado bem legal.

Para ler o post original, clique aqui. Amanhã, subo o texto aqui.