quarta-feira, 30 de abril de 2014

BLOGS DO ALÉM: La Rochefoucauld



"Por isso, comento e reviso aqui alguns dos meus principais ditos.
'Perdoa-se à medida que se ama.'
A Receita Federal não ama você. Faz logo a declaração do IRPF.
'Todas as paixões nos levam a cometer erros, mas o amor faz-nos cometer os mais ridículos.'
E pior que o amor para cometer erros ridículos, só álcool com energético.
'A ausência apaga as pequenas paixões e fortalece as grandes.'
Já a presença acaba com tudo."


O texto é meu e do Vitor Knijnik. O Blog do La Rochefoucauld está aqui e na edição impressa da Carta Capital. Para ler outros Blogs do Além, clique aqui. Você também pode curtir a página no Facebook e receber as postagens novas clicando aqui.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Blog do La Rochefoucauld





"Como escritor francês do século XVII, já espalhava frases de efeito a partir de jogos de palavras muito antes das redes sociais existirem. Sem imagens de gatos ou powerpoints coloridos, claro. Mas, com todo esse clima de “é cool ser conservador”, resolvi transformar minha profissão de moralista em adjetivo, aproveitar a onda e voltar com tudo. Este é o momento perfeito para relançar minha obra. Todos têm o discernimento do que é certo e errado. A julgar pelos post, vivemos cercados de agentes de moral ilibada. Mas o cenário não é totalmente favorável. Algumas de minhas máximas se mostraram muito reflexivas para o século XXI. Ninguém tem muita paciência para papo-cabeça. O bom mesmo é cagar regra. Por isso, comento e reviso aqui alguns dos meus principais ditos."

A ilustração é do mestre José Luiz Tahan e o texto é meu e do Vitor Knijnik. O Blog do La Rochefoucauld está aqui e na edição impressa da Carta Capital. Para ler outros Blogs do Além, clique aqui. Você também pode curtir a página no Facebook e receber as postagens novas clicando aqui.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

"A bailarina ou Inventário dos guardados na caixinha de música": análise crítica de Leonardo Simões



Este solo é apresentado por uma atriz, isolada pelo foco central do palco, vestida de bailarina, num traje propositadamente inadequado para o corpo e para sua idade (cerca de trinta anos, conforme será explicitado depois).

O texto de Rafael Cal (vencedor do Prêmio Dramaturgia na edição anterior do Niterói em Cena) alinhava uma sequência de memórias que estabelecem grande identificação com as lembranças de muitos dos espectadores. E a própria narrativa memorial problematiza o caráter real ou ficcional das lembranças. A propriedade dessa discussão fica mais compreensível quando se sabe que o autor é formado em Historia (isso foi dito no debate realizado no dia seguinte à apresentação do esquete), mas sua pertinência se revela desde o início como importante objeto para essa reflexão cênica quanto às questões de autoria (artística e existencial), o contraponto entre realidade-ficção, a construção do cotidiano, a refiguração do passado, as projeções do futuro, o destino, o desejo e a frustração. A cena não aborda diretamente esses temas, mas nos leva, pelos meandros da arte, a refletir sobre eles a partir da situação apresentada.

O que se apresenta inicialmente induz a uma percepção de um imenso risco (e coragem), sobretudo por parte da atriz Renat Egger, que consegue transitar bem pelo difícil fio da navalha estabelecido pelos limites entre o que ela diz e o que não diz, mas deixa entrever. O que poderia ser um solilóquio maçante ganha profundidade e interesse com algumas variações de tom e o uso de alguns movimentos pontuais de grande eficácia, tal como no momento em que a atriz rapidamente desce a parte superior do corpete. Revela-se, então, o sutiã da striper-prostituta que ela é, numa tensão entre essa realidade e a bailarina que constituía a matriz do que ela pretendia ser.

Paralelamente, há uma crítica metafórica às diversas formas de opressão, materializada na situação da menina que sofre o controle repressivo de sua mãe e do próprio método tradicional do ballet clássico. Mais do que a frustração pela ruptura, a memória dessas vivências e projeções infantis é tratada como o reconhecimento de uma continuidade possível diante das circunstâncias da vida. “Dançar na horizontal” é uma metonímia recorrente quando se aborda a relação sexual da prostituta com seus clientes. E, de alguma forma, o esquete sugere que, no ideal da bailarina (vítima de opressão e renúncias), ela se protege da crueza de sua vida atual.

Enquanto esse discurso se desenvolve, sob o constante sorriso exigido às bailarinas, mesmo com os dedos quebrados, a atriz realiza movimentos de dança e vai se desconstruindo lentamente, até o ponto em que se desloca do centro e, no foco da direita, assume a identidade da prostituta, mantendo uma estranha inquietação de deslocamento no olhar. Embora haja um trecho da metade para o fim que talvez provoque certa estagnação dessa tensão, a atriz apresenta bem o texto de Rafael Cal, que é pleno de vigor, ousado nos riscos iniciais de sua proposição cênica, e que aos poucos vai se estabelecendo para além do clichê inicial, culminando com uma frase de grande força poética, síntese de toda a cena: “E tudo o que me resta são esses momentos vazios, com uma janela aberta pro infinito.”


Texto originalmente publicado pelo crítico Leonardo Simões no site do festival Niterói EmCena.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

Linus Pauling no Blogs do Além



"O fato, porém, é que esse tipo de incentivo científico, de certa maneira, pode ser verificado há mais tempo. O próprio mercado de consumo impõe seus próprios critérios de prioridade. Deve haver mais dinheiro investido no desenvolvimento de tacos de golfe do que em pesquisa sobre doenças tropicais. Nem todo mundo tem a coragem e o desprendimento de ter na biografia uma obra intitulada A Vitamina C e o Cancro. Certamente, ter sido o inventor do protetor para copo quente do Starbucks dá mais status e gera menos olhares constrangidos."


Texto meu e do Vitor Knijnik para o Blogs do Além. Tá na Carta Capital desta semana e no site do Blogs do Além.

domingo, 13 de abril de 2014

Blog do Pauling

Foto: Linus Pauling, para os Blogs do Além!



"Leio no New York Times que está em curso uma profunda mudança na maneira como a ciência é praticada e financiada. Basicamente, o artigo chama atenção para o fato de a ciência estar cada vez mais se tornando um investimento privado. Os muito ricos estão abrindo a carteira para financiar pesquisas em diversos campos. Os geeks estavam na moda. Agora é a vez da filantropia científica. Anote aí: em breve, teremos a São Paulo Cientific Week, ui."

O texto é meu e do Vitor Knijnik e a ilustração é do José Luiz Tahan. Para ler o  texto integral, clique aqui.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Blog do Sylvio Frota no Blogs do Além



"E qual não foi minha surpresa ao perceber que nosso grandioso trabalho de construção de um país melhor, iniciado em 1964, teve efeitos bastante positivos na sociedade atual? Eu que achava que o mundo estava perdido depois da lei da anistia, me empolguei e já saí compartilhando montagens falando mal do programa assistêncio-lulo-bolchevique Bolsa Família, denunciando a ditadura gay e a comunização do Brasil, que parte nessa marcha tresloucada em direção à inexorável sovietização. Só faltou encontrar uma foto do Costa e Silva com seu bigodinho hipster, já provando ser um homem muito à frente de seu tempo."


Blog do General Sylvio Frota no Blogs do Além. Texto meu e do Vitor Knijnik e ilustração do José Luiz Tahan. O Blogs do Além sai toda sexta-feira na Carta Capital. Para conhecer outros blogs, clique aqui ou aqui e curta a página do Facebook.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Blog do Sylvio Frota



"General brasileiro, chefe do Estado-Maior e ministro do Exército. Também escrevi um livro, mas não vou me apresentar aqui como escritor para vocês ficarem achando que sou um desses comunas vagabundos."


Blog do General Sylvio Frota no Blogs do Além. Texto meu e do Vitor Knijnik e ilustração do José Luiz Tahan. 


O Blogs do Além sai toda sexta-feira na Carta Capital. Para conhecer outros blogs, clique aqui ou aqui e curta a página do Facebook.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

BLOGS DO ALÉM: Sylvio Frota





Blog do Sylvio Frota comentando os 50 anos do Golpe de 1964. O texto é meu e do Vitor Knijnik, a ilustração é do José Luiz Tahan e tá disponível pra leitura aqui.


"Encontrei compartilhamentos de discursos contundentes numa ode a 1964, historiador dizendo que a ditadura não foi bem uma ditadura, só faltou capa exaltando a gloriosa Revolução Democrática. Bom, não faltou porque já o fizeram há 50 anos, né?, mas chegamos bem perto de ver de novo, me parece. E assim, eu que sempre me considerei um homem de direita, diante da atuação dos companheiros de rede social, passei a me sentir à esquerda deles. Estão vendo, já até chamei de “companheiros”, já estou usando os jargões da esquerda. Certamente foi a má influência daquele criptocomunista alemão maldito. Não o Marx, o Geisel."

sábado, 5 de abril de 2014

Republicação: A árvore

O texto deste post, "A árvore", me é muito caro. Assim como este dia, 5/4, é muito especial pra mim. Cresci vivendo este quinto dia de abril como um dia de alegria. Hoje, não é um dia triste. Mas é, certamente, de saudade imensa. Foi publicado aqui no Fazendo um Drama em janeiro de 2012. Clique aqui pra ler a publicação original.

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Metáforas elaboradas não explicam sentimentos complexos, pensava.
Era quente. O dia estava claro e o sol rebatia nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Era novidade. Quente, claro, sol e desconforto sucediam a queda. Antes, ainda que fosse quente e claro, havia uma sombra delicada e o sol que rebatia nos carros na rua era barrado, entrando pela janela um balançar cadenciado.
Havia, em frente à janela, uma árvore. Com o tempo aprendera que era um flamboyant. Não que isso interessasse. Era uma árvore, isso bastava. Se era um ipê ou uma macieira era irrelevante. Sempre fora sua árvore.
Sempre esteve ali, oferecendo sombra como em um poema escrito sobre infância e nostalgia. Não que gostasse de sentar aos pés da árvore, recostar em seu tronco e receber a brisa suave no rosto, olhando pro céu entre a copa do flamboyant. Isso era poesia. Gostava de estar na sala e não ter os olhos desconfortáveis enquanto lia Tchecov no sofá.
Não ser poesia não significou, em nenhum momento, desamor. Vivia uma intensa relação amorosa com aquele flamboyant. Todos os dias, chegava da rua e, ao entrar em casa, olhava pro alto, em direção à copa da árvore. Quando era criança, carregava alguns galhos. De manhãzinha, juntava os bonecos e construía fortes e trincheiras nas raízes, que levantavam um pouco a calçada. Mais tarde, pegava algumas sementes pelo chão e juntava em uma caixa, sem muito sentido. Achava engraçada a sujeira que a árvore fazia e podia ver o céu entre as folhas. É, talvez de alguma maneira, fosse poesia.
De certa forma, aquela quase poesia era também um prenuncio de tragédia. As raízes fortes iam aos poucos estourando a calçada e os canos em busca de água. As sementes ficavam espalhadas pela rua, assim como as flores. As cigarras sumiram. Havia cupins.
Um dia chegou o botânico. Nunca havia visto um botânico e nunca viu um depois disso. Se fosse teatro, diria que era uma solução dramatúrgica fraca do autor, colocar um botânico ali para explicar o inexplicável, como a empregada doméstica da novela das oito que faz uma pergunta à patroa, protagonista da história, pra que ela possa fazer uma cena tocante, que sirva de gancho para o capítulo seguinte e mantenha a atenção do espectador. Não era preciso verbalizar a morte. Fez-se o silêncio.
Dias depois, acordou com a trilha sonora do corte. Foi até a janela e contemplou a coreografia. A luz do sol banhava o cenário e lá em baixo havia uma espécie de diretor. Não conseguiu pensar em nada.
Os dias seguiram angustiados. Era, sim, preciso verbalizar a morte, pensou. Pegou um caderninho que tinha guardado para essas ocasiões angustiadas. Começou a escrever, nada que achasse gostável. Mas não estava interessado em ser lido, mas em botar pra fora a angústia. Ele sabia, ou achava que sabia, que escrever era uma forma de superar.
O que ele não sabia era que nada que escrevesse seria capaz de cobrir aquele buraco aberto. Que nada voltaria, ainda que inconscientemente achasse possível que tudo voltasse, em breve, a ser como era antes. O que não sabia é que há coisas que não se superam. Há coisas que não voltam. Não pelo que foram, mas pelo que deixaram de ser. Brincar com seus bonecos na raiz aparente do flamboyant foi banal, mas foi. Não haveria mais aquela raiz para servir de trincheira na guerra imaginária. Não haveria sementes, galhos ou flores. Não haveria.
O acordar seria diferente, assim como a sesta. As tardes e os cafés-da-manhã também. Não haveria escaladas, podas, arte naturalista. Não poderia se casar embaixo da árvore. As folhas pequenas, não poderiam ser postas pra secar, trituradas, enroladas em um guardanapo de bar e posteriormente fumadas, em busca de algum estado alterado de consciência, numa tentativa juvenil de fazer haver alguma coisa. Não poderia construir uma casa na árvore, não naquela, pelo menos, e, se não naquela, em qual mais?, não importa, não poderia construir uma casa com a sua madeira nem tirar uma muda. Não seria possível, um dia, quando fosse avô, retirar um galho e fabricar uma espada de brinquedo para seus netos. Tampouco construir um arco e flecha. Não haveria a sombra e a poesia de olhar pro céu entre as folhas da árvore.
Os dias seriam claros e o sol rebateria nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Tchecov nunca mais seria o mesmo. Nem ele.
Metáforas simples também não explicam nada, pensou.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

BLOGS DO ALÉM: Houdini

"Mágico e ilusionista de sucesso internacional, fiz fama escapando de caixas, correntes, cadeados e algemas. Fosse hoje, seria assessor especial das secretarias de Comunicação pelo país."


Blog do Houdini no Blogs do Além. O texto é meu e do Vitor Knijnik, com ilustração do José Luiz Tahan. O texto integral tá no http://blogsdoalem.com.br/holdini/.

terça-feira, 1 de abril de 2014

E se o sistema prisional fosse um reality show? *

De tempos em tempos, o debate sobre o sistema prisional brasileiro vem à tona. Quase sempre, é uma sucessão de lugares-comuns à respeito do estado das coisas: ouve-se que as prisões são medievais, que são universidades do crime. Ao mesmo tempo, tem bastante gente dizendo que o Brasil é o país da impunidade, cobrando mais prisões, mais repressão. É apresentador berrando “cadeia neles!”, dizendo que presos têm mordomia ou que ser condenado a 30 anos é pouco (?!). Mas, aí, o outro jornal mostra um presídio botando gente pelo ladrão. Desculpem o trocadilho infame, mas tem alguma coisa errada, né?
Um dos grandes problemas sobre o tema, é que essas reflexões acabando caindo na ideologização vulgar. Como se a defesa do estado de direito, da legalidade das ações e das garantias individuais devessem pertencer a um grupo específico ou corrente de pensamento. Boa parte das pessoas, voluntária ou involuntariamente, permanece alheia a esse debate, ignorando a realidade do ambiente carcerário brasileiro e os problemas da justiça, que existem e são graves.
Pense no sistema prisional brasileiro como um reality show. No BBB, você já sabe como funciona: um grupo de pessoas fica confinado em uma casa por três meses e tem a vida vigiada por 24 horas. Até no banheiro. Durante esse tempo, você sabe, há uma série de restrições. Ligações, e-mails, televisão, jornais, tudo proibido. Também não pode mexer no Facebook ou publicar um selfie no Instagram. Imagina que o sistema prisional brasileiro é um reality show desse tipo. A base é o confinamento de pessoas. Precisamos, então, de um lugar para essas pessoas.
Para isso, constroem-se casas pra elas, os presídios. Ao invés de chamar Casa BBB ou Casa dos Artistas, a gente pode chamar de Casa de Correção; ao invés de Fazenda, de Colônia Agrícola. O discurso é o mesmo do programa: os presídios passam então a receber pessoas de todos os tipos. Porém, sabemos que negros e pobres são mais atingidos pelo rigor das leis. Afinal, a justiça é feita por homens e vivemos num país estruturalmente racista, em que não há defensores suficientes pra atender à demanda e em que contratar um advogado custo caro.
A cada semana, ao invés de alguém ser eliminado via internet, telefone ou mensagem de texto e abandonar a casa, são escolhidas mais pessoas para entrar. A casa não aumenta de tamanho, mas as pessoas passam a querer que mais pessoas entrem, lembre-se da campanha para redução da maioridade penal que volta e meia é levantada pelos setores mais conservadores. Os critérios para a entrada vão diminuindo e, de repente, passa a ser muito fácil entrar. Aí, querem que se construam mais presídios.
Atualmente, o Brasil possui 1.478 instituições prisionais, com capacidade para comportar 318.739 presos. Um problema: são 548.003 presos no país. Faltam, mais ou menos, 230 mil vagas. Esquece os números. Pensa no seu carro. Cabem cinco pessoas na parte interna dele. Coloca mais duas. “Ah, mas já andei com o carro cheio, gente no colo e tal”. Ok. Pensa no ônibus que você pega todo dia. Ele foi feito pra levar, em geral, 60 pessoas, 40 sentadas e a metade disso em pé. Agora, imagina colocar mais 24 pessoas ali dentro. Fica ruim? “Ah, mas pego ônibus lotado todo dia, tem dia que é muito pior que isso, uma vez...”. Tá, tá certo. Só que é como se você tivesse que passar 1, 2, 5, 10, 20, 30 anos desse jeito. Não é uma viagem entre a casa da tia Rosemary e a sua no Uno Mille da sua irmã. Voltando ao BBB, o começo, sempre cheio de gente, fica sempre meio caótico, não é mesmo? Pensando como uma “casa”, já imaginou a fila pro banheiro de manhã?
Acontece que esse é o menor dos problemas. Imagina dormir nesse espaço? Não tem quarto do líder com bombom e prossecco. Em alguns lugares, os presos têm que passar a noite inteira em pé. Não há um carro e a liderança esperando pela manhã, é uma questão de espaço. Mas, com sorte, ele vai conseguir deitar depois que os que estavam dormindo levantarem. Se desmaiar, não adianta muito gritar “produção!, produção!”, não.
E não para por aí. Falta acesso a coisas básicas, como comida e remédios. Acreditem, falta acesso a atendimento legal. Entendeu? O cara tá dentro de uma instituição do Estado e tem dificuldades de conseguir o atendimento de um defensor. Hoje em dia, 42% dos presos não possuem condenação definitiva. Ou seja, poderiam, desde que não oferecessem riscos, estar aguardando o julgamento em liberdade, mas parece que é uma “questão de afinidade”. Além disso, já imaginou a reação das pessoas a essa informação? Pois é.
Se falta de tudo, por outro lado, sobram situações concretas de violência, entre os próprios presos e entre presos e agentes. Quer dizer, já tá tudo bem ruim. Mas não há nada que não possa piorar. E você quer que esse cara, quando saia de lá, seja um “brother”?
Os “paredões”, nome que a produção deu a disputa pra continuar no programa, no sistema prisional, são diários. Fica todo mundo numa sala, só que de audiência, os participantes reclamam da edição, só que do processo e, no final, tem o juiz proferindo a sentença, sem que o réu entenda nada, uma espécie de Pedro Bial jurídico.
E qual seria o grande prêmio? Imagina que, diante do confinamento, você merece algum prêmio. O prêmio seria alguém ir lá te buscar. Um advogado, um defensor público, um alvará de soltura emitido. Ao contrário do programa da TV, poderiam ser muitos ganhadores. Acontece que é como se o programa passasse na TV Gazeta e ninguém dá atenção. Mas continuam, talvez por isso, gritando “cadeia!” e preenchendo de absurdos as caixas de comentários dos grandes portais.
“Isso é um jogo”. Sim, com certeza. Um jogo muito maior do que se pode imaginar. Os índices violência brasileiros tem que ser analisados dentro das especificidades locais e a situação nacional, não utilizados como tem sido, ao sabor dos acontecimentos políticos e de interesses econômicos e eleitoreiros. Cadeia não é depósito de pessoas e não pode ser tratada como peça de propaganda. Tem gente que lucra muito com essa situação, seja do ponto de vista político, há candidatos que se elegem em todos os pleitos com base na defesa da força como resposta; seja do ponto de vista econômico, com aumento dos gastos com segurança, tanto do setor privado, quanto do público.
Basicamente, o que temos hoje é um modelo que desconsidera direitos básicos e brutaliza os encarcerados. Ainda que a setores da sociedade acreditem que é merecido, não podemos esquecer que são cidadãos brasileiros que, um dia, deverão ser reintegrados a sociedade. Num ambiente como o que existe no Brasil, é impossível exigir ou acreditar em recuperação e reintegração. E no estado democrático, processo judicial e prisão não podem ser encarados como vingança, mas como parte de um conjunto maior. Entretanto, há muitos interesses em jogo.
Assim, ao se discutir cada vez mais índices de violência, privatização dos presídios e aumento da repressão e das penas no país, é urgente pensar e repensar o sistema prisional brasileiro. É necessário que se garanta a execução do devido processo judicial, que se estimule a adoção de penas alternativas e que se respeite a proporcionalidade e a progressão das penas. Hoje, o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo. Essa estatística tem que parar de aumentar. A seguir o ritmo de crescimento atual, 30% nos últimos 15 anos, mais que a média mundial, haverá um quadro cada vez mais insustentável nas próximas décadas. Como num reality show, é dever do público decidir os rumos dessa história.


* O texto "E se o sistema prisional fosse um reality show?" foi publicado originalmente no site Ouro de Tolo, no dia 28/03/2014. Tem muita coisa legal na página e, claro, texto meu por lá uma vez por mês. Se quiser ler meus outros textos publicados no site, clique aqui. Visite!