segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Sobre pesos, desenhos infantis, prumo e o Natal


O fim do ano é, para alguns de nós, uma época pesada. Mais do que todos os compromissos, é o peso. Os pesos que acumulamos não apenas ao longo do ano, mas ao longo dos anos.

Não é o peso das contas, das noites de sono perdidas, do excesso de trabalho, do salário que poderia ser maior. Também não é sobre o mês de dezembro e a sua predisposição ao caos e ao desastre, com a confraternização da firma, o amigo-oculto dos amigos, o amigo-oculto da família, o amigo-oculto da turma de 1997, a festa de Natal, a festa de ano novo, as compras, o shopping lotado, as férias, o planejamento das férias. Não é nada disso.

Não é o peso do ano. É o peso dos anos. É o peso de quem foi, do que não foi, do que poderia ser, de quem deveria estar e não está. A virada do calendário traz a renovação e, com ela, vem a análise. Com a análise, as lembranças. O que nos leva ao tal peso.

É nesse ponto que está a origem daquele sentimento de tristeza diante do fim do ano. É disso que os que não estão por aí saltitando felizes como se fossem figurantes de um musical nessa época de festas falam.

Na verdade, não é bem tristeza. É uma melancolia que a gente sente pesando, ainda que nem sempre saiba explicar na hora. Não é ódio ao Natal ou ao Réveillon. Não é trauma por causa de um presente não recebido. Também não é o arroubo de rebeldia do jovem que resolveu desafiar as convenções sociais e não estar feliz nesta época do ano. Esse poderia discutir a concepção de Maria na mesa do jantar ou colocar uma camisa preta no dia 31.

O peso é outra coisa. É o peso legítimo da piada que não foi feita na mesa de jantar, na hora da ceia e que jamais será feita outra vez. Ao menos, não da mesma forma, com o mesmo tom. É o peso dos encontros que sempre parecem despedidas. É o sonho com o rosto que vai se apagando lentamente.

Como borrões. Sim, borrões na memória, no olhar perdido sentado na mesa imensa, ou minúscula, na rede pendurada na varanda no início da noite quente na casa da infância. Borrões das fotos apagadas pelo tempo. Ou pela umidade. Do papel manchado pela água, pelas gotas, derramada, derramadas, ou simplesmente a marca do copo suado.

O peso do fim do ano, das festas, é o peso das lembranças, coisas com as quais nem sempre é possível lidar. Ou sequer se quer lidar.

Acontece que peso pode ser também prumo. E as lembranças uma espécie de quilha sentimental, própria, original. Como pequenos desenhos feitos com as canetinhas do cérebro, como os desenhos infantis, meio tortos, com sóis sorridentes e árvores flutuantes.

E, como os desenhos infantis, são lindos em um contexto muito específico. Depois, viram um envelope guardado na prateleira, um volume que não deixa fechar a gaveta do armário. Um peso.

Até que um dia, sempre chega um dia, se vai, não há mais espaço pra ele. Ao menos, não para todos. E se salva um. Dois, três. Que vão para outros lugares, que são redistribuídos, reordenados, até redescobertos, reorganizados em meio ao caos, não só do ano.

Que possa ser assim com outros envelopes, pastas, com outros pesos. E talvez uma boa hora pra esse dia de faxina possa ser em dezembro.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Textos de 2014: Página Cultural

Logo



O Página Cultural é um site que reúne muitos autores, dos mais diferentes tipos e estilos, e muita notícia sobre cultura e entretenimento. Meus textos sempre sobem lá no começo do mês, na primeira semana. As publicações deste ano estão aqui

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Textos de 2014: Ouro de Tolo


Começando uma espécie de retrospectiva dos meus posts por aí em 2014, partimos dos meus textos publicados no Ouro de Tolo.

Para ler meus posts por lá, basta clicar aqui. Tem texto sobre política, crise, Rio de Janeiro, preconceito, futebol, copa do mundo. Eles tão aqui no blog também.

sábado, 20 de dezembro de 2014

"Colcha de Retalhos": o audiolivro


Camaradas, com um pouco de atraso, segue um jabá muito bem intencionado: está no ar, disponível pra ouvir e pra downloads gratuitos, o audiolivro "Colcha de Retalhos", do Rodrigo Domit.

Aqui tá o link pra ouvir e pra baixar: https://soundcloud.com/r-domit/colchaderetalhos

O livro fez uma carreira muito legal no papel e ganhou, neste dezembro, uma versão em áudio, totalmente colaborativa e sem fins lucrativos, da qual tive o prazer de participar. São micro-contos lidos por um time grande de pessoas diferentes, de sotaques diferentes, de interpretações diferentes.

Quem conhecer e quiser indicar alguém ou alguma instituição pra receber a obra, agradeço e repasso pro Domit.

domingo, 16 de novembro de 2014

"Os intolerantes" no CCBB




Em tempos como o nosso, há que se expor os mais profundos traços da miséria humana: é uma forma de depuração, que se não cura, propicia um alívio momentâneo.

Os Intolerantes é, assim, tal qual um anti-ácido, um sal de frutas, ou mesmo um chá de boldo, uma eparema teatral. Amargo, estranho, necessário, aliviante.

Tomando como ponto de partida a história real do menino preso com uma tranca a um poste no Flamengo, o espetáculo aprofunda o olhar sobre a intolerância, a violência, o preconceito, a ausência de solidariedade. Um olhar preciso em tempos de tantos berros, defesas do indefensável e, talvez o pior dos males, interdição do debate.

Falando da peça, aproveito pra mandar um abraço pro casal querido, por quem tiver o prazer de ser orientado no I Núcleo de Dramaturgia do Sesi, Carla Faour e Henrique Tavares por esse ótimo trabalho (ele dirige, ela atua e os dois assinam a dramaturgia). E, representando o elenco inteiro, pro camarada Leandro Santanna, artista e militante da cultura, como um dos personagens mais marcantes do ano que passou: o "Batman das Manifestações". Um personagem, como todos os outros, com um pé bem cravado na realidade, diga-se.

Por isso, se você não foi ver, corre. Eles tão no CCBB, até 21 de dezembro, de quarta a domingo. E sabe como é por lá, né?, você pisca o olho e os ingressos da temporada inteira acabam.

Vida longa a Os Intolerates! À peça, que fique claro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"O quarto de Bianca" no II FETBONJA





No último fim de semana deste mês, dias 29 e 30 de novembro, "O quarto de Bianca" estará em Bom Jardim, no interior do Rio de Janeiro. As duas apresentações fazem parte da programação do II Festival de Teatro de Bom Jardim (FETBONJA). O espetáculo estreou em janeiro de 2013 e segue carreira, passando por festivais e temporadas, dentro e fora do Rio. 

"O quarto de Bianca" é uma realização da Interferência Teatral. Foi escrito e dirigido por Rafael Cal e tem, em cena, a atriz Renata Egger. Os figurinos são de Arielen Lefay e a trilha sonora original de Caio Rodrigues. Para conhecer o trabalho da Interferência, clique aqui.

A programação do II FETBONJA acontece durante todo o mês de novembro. Para saber mais, veja aqui.

domingo, 9 de novembro de 2014

"Antes do fim chegar" no Página Cultural




A verdade é que escrevi tudo isso pra falar as coisas de sempre, que a gente tá cansado de saber, que dói, às vezes, que a perda é foda, sempre. Então desculpa os clichês que estiverem soltos pelo caminho, mas escrevi pra falar, porque a gente precisa falar, precisa colocar pra fora essa coisa meio angustiante que toma a gente quando alguém morre. Não importa se próxima ou distante, tenho aprendido isso a cada dia, a morte de alguém querido, pra nós ou pros nossos queridos, é sempre uma força quase inconsolável que esmaga tudo por dentro.

Outra verdade, desculpem, não era só uma, é que escrevi pra lhes pedir o impossível. Amigos e amigas, não morram. Não, por favor, não morram. Vamos fazer o seguinte: vivemos todos até os 100 anos e, depois disso, começamos a evaporar devagarzinho.

E, se por acaso não for possível mesmo, que a gente possa se encontrar mais antes do fim chegar, porque a gente não sabe nunca quando ele vem, e ouvir mais músicas juntos e rir mais de tudo, de todos, dos outros, de nós, dos riscos. Da vida. Fazer as coisas que sempre fizemos, uma farofada mesmo, como sempre, essa mistura, essas grandes misturas que nos formaram.


"Antes do fim" foi publicado na semana passada no Página Cultural. Para ler a versão completa, clique aqui.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

"Os desenhos de Sofia" no 7º Niterói Em Cena



Os desenhos de Sofia
Uma realização da Interferência Teatral
Escrito e dirigido por Rafael Cal
Com Renata Egger

A estreia é no próximo sábado! Vai ser no Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói, às 16hs, abrindo o 7º Niterói Em Cena.

 A entrada é franca e estão todos convidados! 

Nos vemos lá!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Reta final: "Peças" no Catarse



Como disse por aqui há algumas semanas, "Peças" é o projeto do camarada Thiago Cascabulho e da Aline Paes que tá lá no Catarse, esperando a sua participação num projeto de financiamento coletivo.

"Peças" é uma graphic novel, realizada numa parceria com o Instituto Aromeiazero, que conta a história de "M.", um manequim de loja aficionado por pedalar. Quando sua amada bicicleta é roubada, ele é obrigado a percorrer a surreal cidade em busca das peças perdidas de sua companheira, deixando um pouco de si pelo caminho.





quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Rafael Cal no Página Cultural


Logo

Já de cara vou me desculpar pelo título, parece que tô falando em terceira pessoa, parece, não, né?, tô, mas é que faltou alguma opção melhor pra colocar ali. 

O fato é que este post é pra falar que todo começo de mês, sem uma data muito fixa, desculpem outra vez, tem post meu lá no Página Cultural. O Página é um site muito interessante pra quem trabalha ou se interessa por arte e cultura, com informações sobre editais, concursos, apresentações, exposições, festivais. 

Além disso, tem um conjunto de colunistas muito diversificado, publicando ao longo do mês inteiro. Os meus, como disse, tão sempre lá no comecinho do mês. Pra ler os textos que já publiquei, basta clicar aqui pra ler

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"O quarto de Bianca" no FetBonJa em novembro



"O quarto de Bianca" vai se apresentar nos dias 29 e 30 de novembro, na cidade de Bom Jardim, aqui no estado do Rio de Janeiro. As apresentações fazem parte da programação do 2º Festival de Teatro de Bom Jardim.

Para conhecer mais sobre o festival, clique aqui. Se quiser saber mais sobre o espetáculo "O quarto de Bianca", da Interferência Teatral, veja aqui.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

"Vestido de noiva" no Teatro Armando Gonzaga



Os colegas queridos da Grutta Teatral estarão em cartaz no próximo sábado (25), no Teatro Armando Gonzaga, às 20hs. Em cena, a peça "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues.

A atriz Renata Egger, minha parceira da Interferência Teatral, estará lá com eles e a direção é do talentoso Julio Cesar Ferreira.

A apresentação é única, não percam!

Merda!

Serviço
Vestido de Noiva
Uma realização da Grutta Teatral
Única apresentação, dia 25/10
Às 20hs, no Teatro Armando Gonzaga (Av. Gen. Osvaldo Cordeiro de Farias, 511, Marechal Hermes)
Informações: 2161-0480

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"O quarto de Bianca" em Rio Bonito


No próximo domingo, 26, tem "O quarto de Bianca" em Rio Bonito. Vai ser no Espaço Cultural Lona na Lua, às 20:30.

Bianca é uma pessoa comum, dessas que se encontram por aí. Tem quase trinta anos, uma mala e sapatos sem salto. Gosta de chocolate, bala de leite e rivotril. De vez em quando, curte água mineral com gás, creme antienvelhecimento e só toma banho a cada três dias. Estudou direito, filosofia, história e biologia marinha. Largou todas. Largou tudo. Pensa quase todos os dias nas coisas que fez e, mais ainda, nas que não fez.
Bianca é a filha mais velha que volta à casa onde cresceu em “O quarto de Bianca”, novo espetáculo da Interferência Teatral. Observando o cenário de sua infância, Bianca reconta e remonta suas histórias, alterando os caminhos e construindo suas próprias novas verdades.


O quarto de Bianca
Uma realização da Interferência Teatral
Escrito e dirigido por Rafael Cal  
Com Renata Egger
Figurino e visagismo de Arielen Lefay
Trilha sonora de Caio Rodrigues



terça-feira, 21 de outubro de 2014

Não precisamos e nem devemos reduzir a maioridade penal *


Desde que escrevi sobre o sistema carcerário brasileiro (E se o sistema prisional fosse um reality show?), queria falar aqui a respeito da redução da maioridade penal. É tanta bobagem, tanto discurso repressivo, tanta demagogia , que dá até preguiça de começar o assunto. Mas, diante do avanço conservador que temos vivido, seja olhando pro resultado eleitoral do início de outubro, seja prestando atenção no convívio do dia a dia, parece necessário insistir em algumas coisas.

Uma das faces desse discurso conservador é a insistência na necessidade da redução da maioridade penal. Não, nós não precisamos e nem devemos reduzir a idade pra punir mais pessoas. Porque é isso, é disso que estamos falando, punir mais pessoas. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo e isso não parece estar resolvendo as coisas. As cadeias do país, em situação trágica, como Pedrinhas, também não são os melhores lugares para o cumprimento das penas impostas.

Depois do parágrafo anterior, talvez você esperasse uma sucessão de números pra provar meu ponto de vista. Mesmo porque, as pessoas adoram estatísticas e, mais que isso, se convencem facilmente por elas. Basta aparecer com uns numerozinhos quaisquer pra ver um balançar vertical de cabeças concordando com o que se diz.

Mas, não, este texto não é só sobre estatísticas. Até tenho umas estatísticas boas aqui sobre o tema. Sim, jovens menores de 18 anos cometem, proporcionalmente, poucos crimes. Se compararmos aos índices de violência contra essa faixa etária, é quase assustador pensarmos que cometem tão poucos crimes. Os jovens são as principais vítimas de violência no país, não os principais atores.

Por exemplo, o relatório da Unicef publicado em setembro deste ano mostrou o Brasil como o segundo colocado em mortes de crianças e adolescentes, em termos absolutos, em 2012. Proporcionalmente, há 17 mortes pra cada 100 mil habitantes entre zero e 19 anos no país. A BBC publicou alguns artigos sobre o assunto, mas parece que não houve muita empolgação pra se tratar dele.

Por outro lado, há estatísticas muito assustadoras. Como exemplo, podemos lembrar que, em 2013, uma pesquisa da CNT/MDA apontou que quase 93% dos brasileiros eram favoráveis a redução da maioridade penal. Assustador, não surpreendente. Afinal, o sentimento fica ali represado e a cada episódio violento envolvendo um menor, aparece algum instituto pra fazer uma pesquisa sobre o assunto.

Além disso, sabemos que a sociedade tem sempre uma resposta pro assunto crime: leis mais duras e colocar gente na cadeia. Todos sabem que não funciona, tá na cara que não funciona, mas não é fácil convencer. Ao contrário, o discurso punitivista encontra forte eco na sociedade. Basta pensar em quantos candidatos defenderam abertamente essa plataforma nas últimas eleições entre deputados, senadores e até candidatos à presidência da República.

Gritem o quanto quiserem, as punições que existem são, sim, severas. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê punições variadas, totalizando até nove anos em medidas socioeducativas. Os adolescentes brasileiros passam até três anos internados, o que na prática já é prisão. A internação é um eufemismo jurídico. E as condições são extremamente degradantes. Em São Paulo, por exemplo, a Fundação Casa tem sido alvo de ação do Ministério Público.

medio

Desde o ano passado, há aparentemente na imprensa uma campanha forte em defesa da redução da maioridade penal. A exposição de crimes praticados por adolescentes cresceu muito na TV. Não que os crimes tenham aumentado, necessariamente. Mas o discurso raivoso dos especialistas de segurança engravatados sentados na bancada ou dos jornalistas de programas de assassinato, barbárie & sangue cresce.

Ao mesmo tempo em que isso acontece, iniciativas legais, criativas e solidárias de jovens são deixadas em segundo plano. Saem como uma notinha na coluna social. Ou como uma matéria no site. Não estão na TV, no jornal da hora do almoço, na boca dos comentaristas de estúdio, na fala do apresentador histriônico do fim de tarde.

Recentemente, no Rio de Janeiro, tivemos duas ações das mais bonitas em escolas da cidade protagonizadas por adolescentes. No Colégio Pedro II, uma aluna transgênero foi proibida de usar uniforme feminino. Segundo o colégio, o código de ética dos alunos não permite. A resposta? 15 alunos e alunas foram de saia pra escola num desagravo à colega.

Diante da questão, eles poderiam ter ficado quietos. O protesto certamente gerou algum problema na entrada, no pátio, na sala. Podiam ter se calado, mas escolheram agir, tomar partido, dar um sinal claro a instituição que ela precisa se adaptar e construir um espaço em que todos possam conviver com suas diferenças. Você viu isso na TV?

Alunos 'carecas' assistem a aula da professora Norma, que teve câncer diagnosticado há um mês (Foto: Gabriel Barreira/G1)
(foto: G1/reprodução)

Em outra escola do Rio, o Colégio Carolina Patrício, em São Conrado, uma professora descobriu estar com câncer. Os alunos, mais ou menos 20 meninos, rasparam a cabeça em homenagem à professora, sabendo que ela precisaria passar por sessões de quimioterapia e que o cabelo provavelmente cairia. As meninas cortaram o cabelo e doaram a instituições que cuidam de pacientes oncológicos.

E as cinco medalhas de prata, duas de bronze e três menções honrosas que os estudantes brasileiros de Ensino Médio ganharam na Romênia no mês passado, você tá sabendo? O jornalista que desqualifica os jovens e sugere aumento da repressão falou deles?

A questão fundamental é que os jovens são mais vezes bons que maus. Ainda que a sociedade, em geral, resolva sempre atribuir características como instabilidade, inconsequência. Em um país marcado pela desigualdade como o Brasil, os problemas se agravam.

Com isso, o que a sociedade vem fazendo é pegar um monte de jovens, um grande potencial criativo e produtivo, e condenar ao crime. Não é preciso desenhar pra que fique clara a situação: a potência tá ali, é preciso explorá-la, não castrá-la. E não esqueçam: cada menino jogado na cadeia é mais um soldado pro crime, mais um membro pra alguma facção criminosa.

Em tempos de avanço do conservadorismo, há que se defender direitos básicos e garantir as bases do estado democrático de direito. Inclusive os direitos dos adolescentes e crianças. Criminalizar pura e simplesmente, empurrando esses grupos para a marginalidade com a redução da maioridade penal, não parece e não é o que precisamos.

* Texto originalmente publicado no Ouro de Tolo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

"Não precisamos e nem devemos reduzir a maioridade penal" no Ouro de Tolo

O meu texto do mês de outubro pro Ouro de Tolo já tá no ar. Desde que escrevi sobre o sistema carcerário brasileiro (E se o sistema prisional fosse um reality show?), queria falar a respeito da redução da maioridade penal. É tanta bobagem, tanto discurso repressivo, tanta demagogia , que dá até preguiça de começar o assunto. Mas, diante do avanço conservador que temos vivido, seja olhando pro resultado eleitoral do início de outubro, seja prestando atenção no convívio do dia a dia, parece necessário insistir em algumas coisas.



Para ler o "Não precisamos e nem devemos reduzir a maioridade penal",clique aqui. Todo mês, sem uma data muito definida, sobe um texto meu lá na 457, no Ouro de Tolo

domingo, 19 de outubro de 2014

457 no Ouro de Tolo


Desde o começo deste ano, tenho publicado uns negocinhos lá no Ouro de Tolo. O convite veio no ano passado, demorei, vacilei um pouco, confesso, mas acabei aceitando quando voltei das minhas férias.

O site, comandado pelo camarada Pedro Migão, tem uma mistura de articulistas muito interessante. Confesso que alguns são conservadores demais pro meu gosto, mas talvez a existência deles garanta um ambiente realmente plural por lá, que permite ao leitor visitante contrapor opiniões diferentes num mesmo espaço. Para acompanhar os textos publicados diariamente no Ouro de Tolo, você pode dar uma olhada aqui ou aqui.

Mais ou menos uma vez por mês, sem uma data fixa, prum certo desespero do editor, os meus textos sobem na coluna 457. Em geral, o olhar está nas nossas ações políticas cotidianas, individuais e coletivas, pequenas e grandes, e no papel da imprensa e da sociedade civil na construção de um verdadeiro estado democrático de direito. 

Falando assim, parece meio mala, eu sei. Garanto, porém, que é interessante, tem umas comparações meio absurdas, um pouco de mau-humor e uma dose de nostalgia. Esta semana, vai ser publicado um texto novo, sobre a discussão a respeito da redução da maioridade penal. Enquanto ele não entra no ar, você pode ler minhas outras publicações por lá.

sábado, 18 de outubro de 2014

Breve intervalo nos dramas cotidianos: "Vestido de Noiva" no Teatro Armando Gonzaga

Foto: VESTIDO DE NOIVA DE NELSON RODRIGUES
UNICA APRESENTAÇÃO DIA 25/10 ÀS 20 H
Local: Teatro Armando Gonzaga. Endereço: Av. Gen. Osvaldo Cordeiro de Farias, 511 – Mal. Hermes, Rio de Janeiro. Telefone: 2161-0480.

Ingresso: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)


Renata Egger, atriz da Interferência Teatral, estará em cartaz no próximo sábado (25), no Teatro Armando Gonzaga. Em cena, a peça "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues, com os colegas da Grutta Teatral.

No elenco do espetáculo dirigido por Julio Cesar Ferreira, além da Renata, estão Linn FalcãoMarina OhlavracMarcus MüllerAlan Castilho e Raphael Moura.

Única apresentação, não percam!

Merda!


Serviço
Vestido de Noiva
Única apresentação, dia 25/10
Às 20hs, no Teatro Armando Gonzaga (Av. Gen. Osvaldo Cordeiro de Farias, 511, Marechal Hermes)
Informações: 2161-0480

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

"Antes do fim chegar" no Manufatura

Outra verdade, desculpem, não era só uma, é que escrevi pra lhes pedir o impossível. Amigos e amigas, não morram. Não, por favor, não morram. Vamos fazer o seguinte: vivemos todos até os 100 anos e, depois disso, começamos a evaporar devagarzinho.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Teatro e outras coisas por aí




Muitos dos que leem as coisas por aqui já sabem, mas nunca é demais lembrar: além de professor e de escrever umas coisinhas por aqui, tenho uma vida paralela no mundo do teatro. A foto que ilustra o post, por exemplo, é de um dos meus espetáculos, "O quarto de Bianca", uma realização da Interferência Teatral.

Pra quem quiser conhecer os meus textos teatrais, tem uma lista aqui. Basta entrar em contato por aqui ou por e-mail que te mando pra ler.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Peças" no Catarse




"Peças" é o projeto do camarada Thiago Cascabulho que tá lá no Catarse. 

Trata-se de uma graphic novel assinada por ele e pela Aline Paes (que desenha lindamente), realizada numa parceria com o Instituto Aromeiazero, que conta a história de "M.", um manequim de loja aficionado por pedalar. Quando sua amada bicicleta é roubada, ele é obrigado a percorrer a surreal cidade em busca das peças perdidas de sua companheira, deixando um pouco de si pelo caminho.

Pra quem não conhece o Catarse, é um site que promove financiamento coletivo. Digo sempre que, pra quem apoia, é uma boa maneira de ajudar uma obra a surgir, ser parte da coisa toda, simplesmente comprando seu exemplar antes. Há diversos valores pra escolher, de R$10 a R$5000, e, além do livro, muitas recompensas interessantes, feitas com o mesma identidade visual do projeto.


Não, o projeto não é meu nem tenho ligação nenhuma com ele. Mas gostaria muito que o financiamento rolasse por lá. Tá tudo muito bonito mesmo. 

Em primeiro lugar, porque o traço da Aline é muito legal. Em tempos de discussão sobre o espaço público, o uso de meios de transporte alternativos ao carro, as ciclovias e, agora, as tachinhas nas ciclovias, a ideia pra graphic novel com um personagem ciclista é muito boa. 

Além disso, o Cascabulho tá há tempos produzindo coisas interessantes em literatura. Foi por intermédio dele, por exemplo, que publiquei meu primeiro texto na internet, na época do finado Diários Gastronômicos, do Dé Comber, um site de dicas gastronômicas que publicava textos literários também. E "Peças" segue uma linha de juntar literatura e sustentabilidade, coisa que o Cascabulho começou com o livro "Amigo Lata, Amigo Rio", que já teve mais de 60 mil cópias distribuídas gratuitamente em escolas.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"Antes do fim chegar" no Bar do Escritor

Mas é maior que isso. Fico pensando em quantas vezes na vida, nos próximos anos, vou ter, teremos nós, que nos deparar com situações, se não iguais, parecidas. E como em todas as vezes que penso sobre isso, reforço a certeza de que não estou preparado pra lidar com a morte.


Nem sei se alguém está. Só que a gente perde as pessoas sem estar mesmo. A gente recebe o soco, empurra o soco de volta e tenta transformá-lo em lágrimas e lembranças. Às vezes, literatura ou música.


Para ler a versão completa do texto, você pode acessar o Bar do Escritor ou dar uma olhadinha no post original aqui no Fazendo um Drama.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sejamos mais parciais, camaradas *

Não queria escrever sobre as eleições. Tentei, me esforcei, pensei noutras coisas. Mas o tema tava rondando, pedindo pra ser escrito aqui. Afinal, salta aos olhos nessas horas o nosso espírito democrático. E, dentro dele, uma busca odisseica pela imparcialidade.

Que fique claro, não se trata de uma análise sobre as campanhas ou pesquisas. Já tem bastante gente por aqui escrevendo sobre isso nestas eleições. Este aqui tá mais pra uma análise do discurso, um exercício, um olhar sobre as coisas que vejo pululando nas redes sociais e nos textos que esbarro pelo caminho. Não sou ombudsman do Ouro de Tolo. A respeito dos colunistas daqui, há dos mais diferentes tipos, acredito que você possa tirar suas próprias conclusões.

O fato é que é muito curioso pra mim como as pessoas acreditam na imparcialidade. Eu sinto como se fosse uma espécie de credo. Se tivesse um pouco mais de coragem, fundaria uma seita baseada na crença na imparcialidade e, tenho certeza, atrairia milhares, talvez milhões, de seguidores fiéis.

Em geral, as pessoas tendem a associar a ideia de democracia à imparcialidade. E como todo mundo quer ser muito democrático, precisam ser imparciais, muito imparciais. Não sei por que isso deveria fazer sentido, mas acho que é meio por aí que as coisas têm funcionado.

Só que não somos assim. Ou a maioria de nós mortais, a grande maioria, pelo menos. A gente tem lado, uma história, um passado, coisas que ajudam a construir a maneira como a gente vê o mundo. Ou deveríamos ter.

E ter lado não é demérito algum: ao contrário, é situar o leitor/ouvinte sobre quem somos, o que defendemos, qual o nosso ponto de vista. Porque lembremos sempre que a neutralidade, a pretensa neutralidade é ótima pra perpetuar as desigualdades e pra proteger os mais fortes.

Essa questão é, ou deveria ser, alvo de uma discussão mais profunda no jornalismo. A maior parte das pessoas ainda enxerga a produção de veículos de imprensa como se não houvesse interesses envolvidos. Sempre há, camaradas. Sempre.

Não se trata de implicância pura e simples, é uma provocação no âmbito das ideias. Não merece uma reflexão profunda o modo como o jornalismo tem tratado a notícia, como se tornou uma máquina de publicação de boatos, de o sujeito A disse que o sujeito B fez, de bolinhas de papel no horário nobre? Sem contar a desqualificação da participação popular nas decisões fundamentais com coisas como bolivarianismo, chavismo, populismo, sovietes e que tais.

Quando a Carta Capital ou o New York Times publicam editoriais explicando porque apoiam Dilma ou Obama, estão se posicionando. E isso é muito bom. Só que as reações são muito diferentes: aqui no Brasil é quase desmoralizante fazer isso. Poucos conseguem enxergar nisso um gesto significativo dos avanços da democracia.

E isso acaba se refletindo na maneira como nos relacionamos com a política. Eu, ao contrário de muitos colegas, acredito que o brasileiro gosta de política. Pratica, faz, exerce, todo dia. Talvez não tenha a exata noção disso, mas gosta e tem aumentado a sua participação gradativamente, ao descobrir, ainda que de maneira lenta, que ela não se restringe ao voto a cada dois anos. Não sei se melhoramos o nível, confesso que nem saberia especificar o que é melhorar o nível, mas a quantidade cresceu e isso é importante.

Essa mudança de comportamento, me parece, tem um pouco a ver com as redes sociais. Aí moram dois perigos claros. E não estou falando do fluxo constante de opiniões, mas do compartilhamento de qualquer coisa e os comentários aleatórios.

Honestamente, as opiniões de todos sobre tudo não me incomodam. Por outro lado, incomoda a tentativa de fazer as opiniões políticas parecerem fruto de uma postura completamente racional, de um saber superior, e dotada de total imparcialidade simplesmente impossíveis de existir.

Se observarmos bem, a quantidade de gente pelas timelines da vida compartilhando páginas falsas, notícias duvidosas, páginas preconceituosas é muito preocupante. Porque dão visibilidade a discursos mentirosos, preconceituosos ou cretinos. Às vezes, tudo ao mesmo tempo.

Além disso, os comentários aleatórios, supostamente feitos a título de livre expressão de ideias, e que supostamente manteriam o debate das ideias, criam um clima ruim. Não entendo a necessidade, por exemplo, de alguém fazer um comentário apresentando um ponto de vista divergente e polêmico, só por fazer. Um exemplo recorrente que encontro é: sujeito 1 posta texto defendo alguma política pública do governos Lula/Dilma/PT; sujeito 2 vai lá é comenta “FORA CORRUPTOS LULA DILMA PETRALHAS”, tudo em caps lock mesmo.

Não sei se isso tem a ver com democracia, especificamente, como você pode estar argumentando mentalmente. Claro, a democracia está no fato dele poder fazer isso. Mas, ele fazer, pra mim, é só chatice mesmo. “Ah, mas você tem que aceitar uma opinião contrária”. Não, não tenho. A única obrigação que tenho é de não te impedir de falar, mas continuo podendo, legitimamente, te considerar, de maneira respeitosa, bobo, idiota ou apenas alguém com uma visão de mundo diferente da minha.

Leio sempre umas coisas por aí que acho, pra dizer o mínimo, risíveis. E me seguro, porque ninguém deve ser imparcial. Mas me choca quando as pessoas acham que estão sendo. Já li de um secretário municipal de uma cidade do interior do estado, num tom professoral quase, que ele não gostava do PT porque o partido “inventou a luta de classes”. Essa me marcou especialmente, fiquei com vontade de imprimir e emoldurar.

Em um discurso disfarçado de imparcialidade também, tem se falado sobre alternância de poder e corrupção. Sobre a primeira, sinto como se o PT fosse uma espécie de PRI, que estivesse ocupando o poder por 70 anos. Já sobre a corrupção, é problema cultural, não só dos políticos. Afinal, não são 594 extraterrestres, ainda que o History Channel possa discordar de mim, ocupando o parlamento em Brasília.

Diria mais: não resolveremos a questão da corrupção pelas próximas gerações. Aquela malandragem combatida nos anos 1930/40 se transfigurou num levar vantagem a qualquer custo instalada na mentalidade nacional. Nem se tem vergonha. Ao mesmo tempo, é atacada no outro se ele ocupar um cargo público, eletivo ou não.

Pra ilustrar: já ouvi, ao vivo, na mesa do bar, por exemplo, de um estudante de medicina, rapaz bem nascido, que o fato dele praticar pequenos atos de corrupção no dia a dia não o impede em nada de criticar a corrupção de determinado partido. Fica claro que estamos falando de uma instituição nacional, um patrimônio imaterial da cultura brasileira. Se tivéssemos um pouco mais de cara de pau, seria tombada pelo Iphan.

Noutra oportunidade mágica, dessa vez proporcionada pelas redes sociais, pude ler um professor postando uma notícia falsa atribuindo uma declaração a uma pessoa pública. Como sabia que se tratava de uma notícia falsa e conhecia o dono do perfil, avisei. A resposta foi: não importa se é falsa, porque diz coisas importantes pra levantar a discussão. O sujeito se disse neutro e eu, sinceramente, não soube o que fazer.

Além disso, ainda tem um purismo anticríticas meio insuportável. Fica parecendo que a gente tinha que receber um livro de regras de como se comportar na eleição, de como criticar os candidatos. Principalmente, no caso da candidata do PSB, já que os do PT e do PSDB tomam porrada nas redes sociais o tempo inteiro.

No fundo, acho que a razão maior de escrever este texto é dizer que ninguém é assim tão democrata, caras. A força feita por analistas por aí pra parecerem imparciais é quase comovente. Não fosse tão chato e irreal.


Por isso, por favor, esqueçam, se puderem, a imparcialidade. Ela não existe. Eu já coloquei um camaradas no título, já postei umas fotos da Dilma no texto, já ficou claro que não pretendo ser imparcial, né? Dependendo da situação, a gente até pode e deve controlar as paixões. Mas vamos descer do muro mais vezes, tomar partido e confrontar ideias respeitosamente porque a vida é assim mesmo. Só vamos tentar ser menos chatos. E, por favor, mais parciais. Porque isso é bom também.

* Texto originalmente publicado no Ouro de Tolo.