quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Martelando


Doía. Mas continuava a bater com o martelo nos dedos da mão esquerda.
O prazer se esvaiu. Entre os dedos. Antes do prazo.
O martelo comprado à vista num hipermercado qualquer. Pra bater um prego na parede. Pro prego segurar uma moldura. Pra moldura guardar uma foto. Pra foto.
Colocou a mão sobre a mesa.
Bateu a primeira.
Teve vontade de gritar. Mas não gritou.
De novo.
As pernas tremeram.
A terceira.
E a dor não passou. E continuava a bater pra ver se a dor passava. E não passava. E o martelo descia mais forte. E a dor. E o martelo. E a dor.
A carne sangrando. Como antes. Agora, a mão.
E a lágrima. No mesmo lugar.
O anel sobre a mesa, do lado da mão espalmada.
Doía.
E o braço fraquejou e o martelo desceu e errou a mão e acertou o anel.
Não teve vontade de gritar. Mas gritou.
E as pernas tremeram. De novo.
E continuou a bater pra ver se a dor passava. E o martelo descia mais forte. E a dor. E o martelo. E o anel.
E a carne sangrando. Como sempre.
E a lágrima. Em todos os lugares.
Deitou o martelo sobre a mesa. Como na gôndola do hipermercado.
Teve vontade de gritar. E gritou.
Doía.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A loja de doces


Mastigava o bolo de nozes com candura.
Até que, gentilmente, cravou o garfo na mão dele sobre a mesa.
E despediu-se com uma voz delicada.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O copo e as metáforas

Olhou para o copo sobre a mesa.

Poderia usar mais uma vez a metáfora do copo. Mas só estava colocando uma dose.

Poderia encarar a garrafa. Também sobre a mesa. Até preferiria. Vazia depois da dose nova. A eterna renovação. Poderia ser outra metáfora.

Sentiu o cheiro por uns segundos. Não era sommelier ou qualquer coisa do gênero. Mas poderia extrair da cena outro par de metáforas.

Bebeu um gole longo. Colocou o copo sobre a mesa de novo. E respirou. Melhor, suspirou.

Olhou mais uma vez para o copo sobre a mesa.

Havia bebido uma parte. O conteúdo havia sido alterado. Estava meio cheio. Ou meio vazio. E.

Poderia utilizar outra vez a metáfora do copo. Mas, a usar mais uma metáfora gasta, preferiu beber.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Estava claro

A sala estava clara. No sofá, ela.
Ele não tinha espelhos em casa. Não gostava de se ver. Nem de vê-la. Eram feios os dois.
Estava claro.
Sem saber o que fazer, ele olhava pela janela. O sol se escondia atrás do prédio da frente.
A luz fica bonita assim, pensou.
Pensou, então, em se esconder com ela atrás do prédio. Quem sabe ficassem bonitos também.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Direto do Blogs do Além: Dona Maria I comenta "Avenida Brasil"



Aproveitando o clima de despedida de "Avenida Brasil", que acaba na próxima sexta-feira, tá aqui minha colaboração para o Blogs do Além, do Vitor Knijnik. Pra quem ficava tentando achar as referências utilizadas pelo João Emanuel Carneiro, Dona Maria aponta as ligações com a história dos Bragança e de Portugal. Mas pode ser só coisa da cabeça dela, né?

Pra ler o post original:
A página do Blogs do Além no facebook:
https://www.facebook.com/blogsdoalem?fref=ts

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Sobre mim
A Louca ou a Piedosa. Sou bipolar.

Sobre o blog
Um lugar seguro. Longe da Inglaterra e do Napoleão. Não posso nem pensar em outra viagem daquelas.

Avenida Bragança
por Dona Maria I

Dizem que a internet é um lugar cheio de malucos. Pois, cansada do marasmo do além, vim parar aqui. Ando de um lado pro outro, mudando de humor repentinamente, como qualquer celebridade do twitter. Mas é só ouvir um oi-oi-oi que um sorriso se abre no meu rosto.
Como boa portuguesa, sempre gostei das novelas brasileiras. No entanto, criei uma identificação imediata com Avenida Brasil ao descobrir que a Família Tufão era baseada na minha família, os Bragança.
Pra começo de conversa, o Divino é um Portugal made in Projac. A vida do bairro gira em torno da Família Tufão, como em Portugal girava em torno de nós. Reparem: uma gente sofrida, que trabalha muito, fala, se veste e se comporta diferente de todo o resto da cidade. É o caso de Portugal na Europa.
Aos que não se convenceram, sugiro que prestem mais atenção. O Tufão não é a cara de meu filho, o Dom João VI? Chefe da família, um parvo, com sobrepeso e traído pela mulher. Se colocassem uma coxa de frango no bolso do Murilo Benício, ninguém duvidaria de mim. Minha nora, a megera Carlota Joaquina é, obviamente, a Carminha: sempre acima do tom, dando chiliques, odeia todo mundo e tá sempre armando um golpe. Carlota foi a Carminha da vida real, sem dúvida.
Não apenas eles estão representados em Avenida Brasil. A Ágata me faz pensar em minha bisneta Maria da Glória, desde pequena perturbando. Justiça seja feita, a menina só come, enquanto a minha bisneta foi motivo de uma guerra civil. Outro exemplo: Leleco é cópia fiel de meu marido e tio Pedro III. É, marido e tio. E não vamos falar disso, fico meio agitada. Pois bem, meu marido, tal qual o Leleco, era bem mais velho que eu e gostava de desfilar com as mocinhas pela Corte.
Além deles, posso falar de Jorginho e Ivana que são, respectivamente, meu neto Pedro e a minha filha Mariana Vitória. Pra ela, arrumei um marido rápido e despachei pra Espanha. Não é que a menina arrumou vida própria, que nem a Ivana? Já meu neto, vocês conhecem bem: o garoto foi Imperador de vocês. Jovem e bonito, mas inconstante, ligeiramente destemperado e sempre arrumando problemas. Não é o Jorginho?
E o Max? Ah, esse foi inspirado no inglês Almirante Smith. O cara foi parceiro de Carlota em tentativa de golpe na região do Prata e, segundo as más línguas, também em atividades mais íntimas. Notem que Smith foi uma espécie de Max com umas comendas penduradas no ombro. A diferença é que o barco dele era da Marinha inglesa, não foi a Nina que deu.
Sobre a Nina/Rita, não creio que haja dúvidas. Quem mais poderia ser o Napoleão, criando conflitos, acabando com a paz de um reino chamado Divino?
E eu? Bem, não fui representada exatamente dentro da Família Tufão. Na verdade, eu ia dizer que era uma mistura de Tessália, Murici e Suellen. Mas vocês iam dizer que estou louca. Tudo bem, vou manter o mistério. Só não achem que sou piedosa e venham me chamar de Mãe Lucinda. Ou o mesmo fim de Tiradentes os aguardará.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Sobre a tolerância" no Manufatura

Desde ontem, tem "Sobre a tolerância" lá no Manufatura.

Vai ler!

"Enxugou o rosto e pensou naquilo tudo mais uma vez. Não acreditava ser possível alguém se vestir e se comportar daquele jeito. Ela apenas queria ir ao médico. Andava nervosa, queria se consultar com um especialista. Mas e aquilo ali, agora? Como agir? Precisava de uma sessão de meditação urgente. Ou da instrutora de ioga, quem sabe."

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cítrico


Chuveiro aberto. O barulho da água batendo no chão. Quente. Fumaça.

Ela numa espécie de transe. Lavou os cabelos. Não era possível ir além.

O cheiro do xampu dominava o ambiente. Cítrico. Misturado ao vapor da água quente, dava um certo barato. Riu daquilo. Mas parou subitamente.

Os olhos ardiam.

Não apenas eles. A boca, o nariz, a garganta. O peito.

A lembrança.

Os olhos ardiam mais e mais.

A água caindo não era suficiente para lavar. Não o que desejaria lavar. Não o que achava que deveria ser lavado. Precisava ir além. Mas não era possível ir. Ou lavar. Ou levar.

No chão, a água seguia para o ralo. Limpa. Ou era levada, não saberia responder. Sequer pensara sobre.

Pegou a embalagem de xampu.

No rosto, as narinas incharam mais uma vez com o cheiro cítrico do xampu. Fechou olhos. Como sempre fazia. Puxava o ar ao mesmo tempo em que fechava os olhos.

Como num ritual.

A água quente batendo na nuca, enquanto o vapor cítrico entrava pelas narinas. Lembrou dela. Do cheiro do cabelo. Do cheiro da roupa. Do cheiro da pele. Do cheiro dos dois juntos. Dos corpos. Dois corpos. Levados por si.

Era necessário lavar.

Encontrar a necessária limpeza.

Para o coração.

Sentia saudade. E o peitou ardia e a garganta ardia e o nariz ardia e a boca ardia e os olhos ardiam e se abriram.

E gritou.

Agachou sob a água. Caindo ainda sobre a nuca. Os olhos, ardidos, fechados. Tentou ser levado pela água. Mas não aconteceu. Tentou levantar. Também não.

E chorou um pouco.

Aproximou a embalagem vermelha que segurava do nariz. Inspirou com força. Era quente o vapor. Era preciso lavar.

Abriu os olhos. Vermelhos. Ardidos. Negros. Doces. E tristes.

Bebeu o xampu.

sábado, 13 de outubro de 2012

"A ressaca" no Bar do Escritor

"Levantou meio zonzo e foi até a cozinha. Na gaveta do armário, procurou um antiácido. Ou um anti-qualquer-coisa. Ou qualquer outro remédio. Talvez um que não existisse."

"A Ressaca" tá hoje no Bar do Escritor.

Vai lá ler!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"Do oitavo andar" no Página Cultural

"Pegou uma cadeira e colocou perto do parapeito. Subiu na cadeira e olhou de novo.
Alto, foi o pensamento acompanhado por um sopro leve entre os lábios meio abertos. Suava um pouco. Não havia nenhum vento. Estava tudo parado. E pensou em sua vida.
Ninguém vai perceber se eu pular, sussurrou sozinho. [continua]"


O texto tá no Página Cultural.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dramaturgias Urgentes: textos disponíveis


Maço de Cigarros
Escrito por Rafael Cal

Uma mulher, bem velha, está sentada em uma cadeira velha na varanda de uma casa velha cercada por um muro de pedra. Ao mesmo tempo, um carteiro entrega cartas nas casas próximas.
Depois de entregar as cartas em outras casas, o CARTEIRO para na calçada, em frente à varanda da casa da VELHA.

CARTEIRO: Oi.
VELHA: Olá.
CARTEIRO: Tudo bem?
VELHA: Cartas?

Pequena pausa.

CARTEIRO: Cartas?
VELHA: Aqueles envelopes que as pessoas ou instituições enviam umas pras outras pelo correio.
CARTEIRO: Pelo correio?
VELHA: Isso, aquela instituição responsável pelo envio e distribuição de correspondências, encomendas. Cartas, popularmente falando.

Pequena pausa.

VELHA: O senhor entende que é o carteiro, não?
CARTEIRO: Ah, sim. Sim, senhora.
VELHA: Então, tentemos mais uma vez. Agora, de maneira mais didática: o senhor, enquanto carteiro, homem responsável pelas entregas dos correios, tem alguma carta pra mim?

[continua]

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Os textos selecionados no segundo módulo do projeto Dramaturgias Urgentes já estão disponíveis. Entre eles, está o meu "Maço de cigarros". 

Vai lá ler!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A pele enrugada sob o chuveiro elétrico ligado


Ela olha para a água que cai do chuveiro.

Dizem que um chuveiro elétrico aberto durante quinze minutos gasta 145 litros de água. É o tempo que estou aqui tentando decidir o que fazer. Já se foram 145. 145 é o que no jogo do bicho? Não faço ideia. Nunca joguei. Até tenho curiosidade. Mas sempre me faltou coragem. Contravenção, né? Esse nome me assusta.

Olha fixamente para o registro. No caminho, seu olhar corta a água.

Uma vez sonhei com um chuveiro aberto. Como esse aqui, agora. Disseram pra mim que era um bom presságio. Mandaram jogar no bicho. Pavão. Nunca joguei no bicho. Morro de medo de bicho. De jogo do bicho. E de pavão. Tenho medo de aves em geral. Se eu ganhasse alguma coisa jogando numa ave, não sei como continuaria vivendo. Se uma ave trouxesse bom presságio, talvez o mundo deixasse de fazer sentido pra mim. Como esse chuveiro aberto.

Estica o braço. Recua.

Já tentei desligar. Não consigo. Foram três tentativas até agora. Nenhuma funcionou. Três é o que no jogo do bicho? Não, não. Preciso me concentrar. E desligar o chuveiro. Se alguém chegar, como vou explicar a situação? Não vou explicar. Não vai chegar ninguém. Nem o apontador que fica sentado aqui na frente do prédio. Ninguém. Moro sozinha. Talvez só me reste esperar a água acabar.

Desvia o olhar. Girando o rosto, vê o céu escurecendo por uma fresta do basculante.

Mas não vai. Moro num prédio. Acho muito improvável que acabe a água só por causa de um chuveiro ligado. E acho que nunca mais vou consegui sair daqui. Nem pra ir fazer um último jogo.

Vê um pouco da sua imagem refletida.

A pele enrugou. Já lavei meu cabelo três vezes, o braço esquerdo mais vezes que o direito e meu rosto tá ligeiramente ressecado. O que é três no jogo do bicho? E o chuveiro tá aqui. Aberto. Queria um psicanalista ouvindo isso. Quem sabe pudesse me ajudar. Ou me indicar um número pro jogo. Ou um animal. Animal não, bicho. Talvez fosse uma ajuda. Já sei, já sei. Deve ter a ver com minha infância. Ou com alguma frustração sexual. Ou deve ser uma compulsão. Devo ser aquela parte das estatísticas propensa à compulsão. Olha eu fazendo apontamentos sobre mim. Apontamentos. Jogo do bicho. Como sou clichê. Devo precisar muito de análise.

Fixa o olhar por alguns segundos num azulejo trincado.

Bobagem. Não, não preciso de um terapeuta. Posso fingir que presto atenção em mim sozinha. E até escolher meus números.

Não pode. Mas não sabe. E o chuveiro elétrico permanece aberto. E o basculante também. E o céu escurece aos poucos. E a pele já assusta um pouco. E ninguém aparece. Nem aparecerá. Nunca.

Então, resta a ela se conformar com o azulejo trincado, escolher números pro jogo que não vai fazer, ter medo de aves e esperar. A pele ficará ainda mais enrugada. E a água não vai parar de cair.