quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A geladeira desligada


As janelas fechadas deixavam entrar a luz difusa do fim da tarde. Não havia ninguém vivendo ali. Os móveis também já não estavam.

A casa vazia se percebe pela geladeira desligada, pensou. Olhou por uns segundos antes de abrir. Aberta, contemplou as prateleiras vazias. Nenhum sinal de vida.

Fechou os olhos e tentou sentir o cheiro da comida no fogão. Não havia cheiro ou fogão. Só um espaço vazio.

Insistia na procura. Procurava por alguma coisa esquecida. Havia muitas.

Pequena, puxou o banco e subiu. Abriu o armário: pratos, copos, um escorredor. Tudo empoeirado. Pensou que o armário não impedia a poeira do tempo. Concentrando-se de novo na busca, não achou nenhum eletrodoméstico.

Não estava lá.

Desceu do banco e procurou embaixo da pia.

Um liquidificador. Pegou, organizou as coisas sobre a pia e ligou na tomada. Apertou o pulsar.

Pulsava.

Pensou em colocar gelo, cachaça e suco de frutas. Mas a geladeira estava desligada, não havia gelo. Cachaça, só no bar da esquina. E suco de frutas nunca havia entrado naquele apartamento.

Imaginou um milk-shake. Mas lembrou da geladeira desligada. E leite, se houvesse, estaria azedo.

Melhor seria colocar ali a geladeira desligada, que parecia tão diferente iluminada por aquela luz difusa. Ou todas as suas mágoas. Sem escolher muito, decidiu pelas mágoas: a geladeira não caberia. Teve medo de transbordar. Apesar disso, ligou o liquidificador.

Mas não aconteceu nada.

As mágoas não poderiam ser trituradas. Até tentou.

Então, decidiu enfiar a mão na lâmina que girava.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Descafeinado


- Comprei um café.
- Nossa!, que original.
- Quer?
- Ah, sim. Adoro creme.
- Mas não tem creme.
- Então, quero. Adoro açúcar.
- Também não tem açúcar.
- Ok. Gosto de xícaras.
- Tá no copo.
Pensou no quão original era alguém comprar um café. Sem creme, açúcar e no copo. Possivelmente, descartável.
- De vidro?
- Descartável.
Sabia.
- Não tem problema. Preciso de cafeína.
- É descafeinado.
Não tinha cafeína.
Nem tinham nada em comum.
E talvez isso fosse a única coisa que explicasse aquele relacionamento. A total falta de sentido naquilo tudo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"Não foi por causa dos churros" no Página Cultural

"Lembrava apenas de um fim de tarde: enquanto ele fumava com os amigos, ela comia churros recheados com doce de leite no carrinho parado à porta do colégio."

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Breve intervalo nos dramas cotidianos: O dia em que descobri o Vasco



Aproveitando o aniversário, um texto sobre o dia em que me descobri vascaíno.

__________________________________________________________

O dia em que descobri o Vasco

Todo mundo gosta de dizer que viu seu time ser campeão ou que lembra de um jogo espetacular. O problema começa quando o cara quer que você acredite que ele lembra com detalhes de um jogo do time dele quando tinha três anos. Ou que aos quatro sofreu profundamente com a eliminação da seleção de alguma Copa do Mundo. Num mundo em que existe Youtube e Wikipédia qualquer um constrói a memória que desejar. É só uma questão de pesquisar bem.
Quando penso na minha primeira lembrança do Vasco, gostaria de dizer que foi o gol do Sorato contra o São Paulo, no Morumbi, e a conquista do bicampeonato brasileiro, em 1989. Mas eu só tinha quatro anos e, se fosse lembrar de alguma coisa, provavelmente seria do nome dos meus bonecos do Comandos em Ação. Futebol era bater bola no quintal com as crianças da família, usando a camisa com a cruz de malta e dizendo que era o Dinamite. Mesmo que nada fosse racionalizado. Quem gostava de colar o ouvido no rádio e reclamar de todos os jogadores era meu pai. No quintal, era apenas uma criança. Uma criança vascaína, claro. Sem, no entanto, a devida tomada de consciência.
Mas, com o tempo, as crianças vão crescendo. E mesmo crianças, começam a entender um pouco aquele mundo dos adultos. A paixão começa a fazer sentido, ainda que, de fato, ele não exista nela. Todos os palavrões dirigidos ao cara que deveria cuidar do bom andamento da partida, passam a fazer sentido ao passo que as ligações de alguém com o mundo crescem. A brincadeira no quintal vira a pelada na rua ou no recreio com os amigos. Essa passagem de tempo e a mudança de impressões sobre o mundo transformam duas horas ouvindo o rádio ou em frente à televisão em um tempo extremamente prazeroso. Antropólogos e psicanalistas, essa parte é com vocês.
A verdade é que o primeiro jogo que me lembro de torcer foi um Vasco X Flamengo. O ano era 1992, eu já tinha completado meus sete anos, já sabia ler e escrever, escalava tranquilamente o time e, pela primeira vez, parei para acompanhar um jogo com prazer. O jogo era o último do campeonato carioca, disputado em São Januário (o Maracanã estava fechado depois da queda da arquibancada no brasileiro), não valia nada além da invencibilidade: o Vasco já era campeão antecipado, vencera a Taça Guanabara e a Taça Rio.
Acontece que a invencibilidade era a maior questão em jogo ali. O campeonato estava decidido, mas se ao Flamengo cabia o papel de carrasco, impedindo o título invicto de seu grande rival; ao Vasco surgia a possibilidade de ser campeão invicto sobre o rival, esfregando a faixa nele. E foi essa a tônica do jogo.
Ouvindo pelo rádio, minha memória não se construiu em imagens, mas nos gritos do narrador e da torcida. Obviamente vi as imagens depois: o programa de qualquer criança dos anos 1990 era chegar da escola e almoçar assistindo ao Globo Esporte. Algumas carrego até hoje vivas, como o Luisinho baixando a porrada em qualquer jogador de vermelho e preto no meio-campo, o Júnior descontrolado e o Edmundo voando em campo. Era um Vasco com pregos nas chuteiras. Mas aquela primeira lembrança, sonora, da torcida gritando, dos trepidantes descrevendo o jogo, do grito de gol, do Animal, da tensão no empate, nunca me abandonou. O Vasco empatou (1 X 1) e foi campeão carioca invicto.
Naquele dia, no distante dezembro de 1992, o Vasco da Gama chegou a minha alma. Isso deve ser um clichê enorme, mas aquela criança correndo enlouquecida pela rua com a bandeira amarrada como capa pode confirmar minha história. Ela existe até hoje. E aparece toda vez que um certo time carioca entra em campo com a cruz de malta no peito.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O velho e a estrada

A chuva batia no vidro diante dos meus olhos.
A estrada molhada era a mesma. De sempre.
O velho numa das pontas do caminho.
Na outra, meu lugar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"A ressaca" no Manufatura

"Levantou meio zonzo e foi até a cozinha. Na gaveta do armário, procurou um antiácido. Ou um anti-qualquer-coisa. Ou qualquer outro remédio. Talvez um que não existisse."


____________________________


"A ressaca" tá no Manufatura hoje!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Insossa" no Bar do Escritor

"Ele e ela estão em um restaurante. A decoração é moderninha. A iluminação deixa um clima meio embaçado no salão. Eles comem uma comida qualquer.

ELA: A comida tá ótima.
ELE: Bom.

Não era verdade. Estava insossa."

(...)



___________________________________

O texto continua lá no  Bar do Escritor.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

"Para Roma com amor" no Mundo Mundano

"Andam dizendo por aí que o Woody Allen não é mais o mesmo. A cada novo filme, é a mesma conversa: está esgotado, não é faz mais filmes como antes e toda uma variedade de coisas do gênero.
A verdade é que depois de Meia-noite em Paris a vida de Allen ficou difícil: se fizesse um filme inferior, seria chamado de decadente; se fizesse um filme como o anterior, seria taxado de repetitivo. Mas ainda acho que qualquer filme do Woody Allen é melhor que a maioria dos filmes produzidos em um ano inteiro."

Pra ler o texto integral: 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Doce" no Mundo Mundano


"Tinha as mãos meladas pelo chocolate derretido. 
Havia alguns minutos, segurava aquele pedaço de chocolate, sem saber o que fazer. De certa forma, encarava-o. Não que aquilo possuísse algum sentido. Mas pensava em como tudo chegara até aquele ponto. 
Dois dias antes, a briga."

_________________________________


"Doce" no Mundo Mundano.

O link é: http://www.mundomundano.com.br/doce/

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A garota da mesa em frente


Usava sandálias.
Mas não deveria, ele pensou.
Era um café. As mesas marrons ficavam na calçada, debaixo de um toldo verde. O céu era cinza e as paredes vermelhas.
Havia uma garota sentada na mesa em frente a dele. Vestido florido, ela rabiscava em um papel branco sobre a mesa. Não dava pra ver o que fazia exatamente.
Se estivesse preocupado com o tempo, não teria sentado do lado de fora. Parecia que ia chover. O ar estava pesado. Ou talvez fosse só uma impressão.
Ele, sentado, olhou ao lado do jornal que lia e pôde ver os pés dela sob a mesa. Desviou os olhos. Não deveria usar sandálias. Eram bonitas. Mas não deveria.
Ao desviar o olhar, pouso seus olhos sobre um casal, sentado na mais longe da porta do café. Contemplou o amor dos dois por alguns segundos. Depois, teve vontade de vomitar. Eram feios. Feios demais. E entrelaçados nas carícias românticas ficavam ainda mais feios. Desviou o olhar de novo.
Foram parar no toldo, onde se fixaram rapidamente. O toldo era verde, um verde meio ressecado. A existência dele, naquele momento, não exercia função alguma, visto que não havia sol. Olhou para o céu. O dia era escuro. Não de uma cor exatamente. Talvez chovesse. O dia tinha uma cara de chuva. O que, de certa forma, era bom. Quem sabe, assim, o toldo servisse. Ou talvez fosse só uma impressão. Sobre toldos ressecados, sóis e cores.
A garçonete passou por ele. Pensou em chamá-la. Mas não sabia como se dirigir. Mocinha, garçonete, atendente, querida. Vestia uma roupa branca. Um branco bastante encardido, na verdade. Esperava que ela olhasse e entendesse o desejo de ser atendido. Mas ela não olhou. O que também não era ruim, já que era bem feia. Não olhar pra ela certamente poupou-lhe a esperança em dias melhores.
E tentou voltar ao jornal. Mas não conseguiu. Muitas emoções, pensou.
Olhou, mais uma vez, pra garota da mesa em frente. E, como numa revelação, encarou-os.
Eram pés bonitos.
Inexplicavelmente bonitos. Pequenos, unhas feitas, pintadas de branco. Tão bonitos que o tornaram incapaz de se concentrar no jornal ou em qualquer outra coisa. Que tornaram todo o resto suportável.
O dia era tão feio.
O café era tão feio.
O toldo era tão feio.
O casal era tão feio.
A garçonete era tão feia.
E os pés daquela garota eram tão bonitos.
Entendeu que havia, na natureza, compensações. E se deu por satisfeito.