domingo, 29 de julho de 2012

Sobre a importância das boas lembranças


Depois de desenterrarmos o avô, procurei o relógio nos bolsos do seu paletó.
Era noite. Naquela tarde, havia sido o enterro.
Não conseguimos chegar a tempo: eu e meu irmão, únicos parentes vivos, e Ana Teixeira Soares, que não era da família, mas gostava de ir a enterros.
As tarefas do dia atrapalharam: tive que ir ao supermercado, meu irmão levou o cachorro pra passear e Ana Teixeira Soares teve um enterro mais cedo e acabou se atrasando.
Felizmente, considerando meu avô, o enterro estava cheio: havia duas pessoas, o coveiro e um bêbado. O padre se recusara a ir. Alguns pedreiros de uma obra próxima ajudaram a carregar o caixão.
Esperamos a noite para entrar no cemitério. Achávamos importante preservar alguma lembrança do meu avô: ao desenterrarmos, peguei o relógio; meu irmão, os anéis.
Enquanto isso, Ana Teixeira Soares cantava em lálálá a Ave Maria. Afinal, em poucos minutos haveria outro enterro.


* A partir da frase inicial proposta por Otto [falta o sobrenome],
numa experiência literária realizada sob a supervisão de Marcelino Freire.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Só o metrô faz o mesmo caminho sempre


- Qual é o trem?
- Não mude de assunto.
- Não, juro que não sei a direção... me diz, infeliz.
- Pegue a linha 1. Aqui os caminhos são descomplicados. É tudo em linha reta.

* Em parceria com Marcelino Freire, durante oficina.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Não foi por causa dos churros

Lembrava apenas de um fim de tarde: enquanto ele fumava com os amigos, ela comia churros recheados com doce de leite no carrinho parado à porta do colégio.
Sabia que tinham se falado depois. Chegaram a conversar. Mas aquele momento ficou congelado.
O ano acabou. O colégio acabou. Passou no vestibular.
Fez uma engenharia qualquer, não tinha nenhum interesse. Foi trabalhar num lugar qualquer, não interessava onde. Queria ganhar muito dinheiro. Foi pra longe. Bem longe. Longe, num tempo antes de redes sociais, tempo em que só se conseguia vigiar as pessoas que viviam perto. Longe, ganhou muito dinheiro. Longe, também casou e teve filhos. Casou com uma mulher sem graça e teve filhos mais sem graça ainda. Não lembrava dos nomes deles, às vezes.
E foi essa vida de satisfações que viveu por 30 anos depois daquele fim de tarde. Sem esquecer aquela imagem: ela, churros, doce de leite, carrinho, um vendedor sem hábitos de higiene confiáveis.
Todos os dias, repetia mentalmente o nome dela ao abrir os olhos. Esperava ver aquela menina, já crescida, ao seu lado. Nunca aconteceu. Todos os dias, procurava, onde quer que estivesse, um lugar que vendesse churros, ou uma variação. Nunca encontrou a menina nesses lugares.
Depois de 30 anos, alguém teria a ideia de organizar um encontro. 30 anos era uma data importante. Ficou feliz. Muito. Mas também surgiu um leve desespero.
Ela teria casado, tido filhos, marido bonito e importante? Quem sabe? Ele não sabia. Tinha pesadelos: sonhava que o carrinho de churros descia desgovernado uma ladeira atrás dele, que fugia gritando. Era como ter uma mariposa no estômago. Pensava que ela não o reconheceria. Ou fingiria não reconhecer. Que não lembraria da história. Poderia ter ficado viciada em churros. Comido tanto que engordara. Tanto que nem poderia mais sair de casa. Elevadores não aguentariam. Quem sabe estivesse presa, naquele instante, num quarto de casa, sem poder sair porque não passava pela porta. Quando morresse, bombeiros altamente treinados teriam que quebrar a parede pra retirar seu cadáver. E perdia o controle diante das possibilidades que se apresentavam tão reais. Era uma pena ter parado de fumar.
Numa terça, voltando do trabalho pra casa, percebeu a mariposa no estômago agitada. O braço doía, a boca seca. Os olhos ficaram pesados. O entorno girou. Caiu. Em meio ao metrô lotado, em plena terça-feira. Um disse que era falta de ar; outro, que era o calor; um mais religioso, que era santo.
Enfarte. Não sobreviveria. No caminho pro hospital, sussurrou “churros”. O paramédico, que até gostava de churros, sorriu. Não foi por causa do churros, senhor, fique tranquilo.
O que o paramédico nem ele sabiam, é que nunca haveria a festa. Nem o reencontro. Nem houve a menina. Tampouco a obesa mórbida viciada em churros.
Houve muitas cenas de fim de tarde. E havia o cigarro. E havia os churros.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

"Ela tinha razão" no Página Cultural


Ela olha para a televisão.

ELA: Isso não é futebol.
ELE: É futebol americano.
ELA: Futebol americano?
ELE: É, amor.
ELA: E você entende isso?
ELE: Que isso, amorzinho?
ELA: Você me odeia.
_________________________________________


"Ela tinha razão" já foi o texto mais popular daqui e agora foi publicado no Página Cultural.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Você não quer saber


Cumprimentaram-se como se tudo fosse de açúcar.
Ela perguntou como estava.
Não houve resposta imediata.
Ela engoliu a pergunta. Ele soltou o ar.
Olhou pro lado. Contemplou o rosto dela por alguns segundos. Ela esboçou um sorriso.
Era frágil.
O rosto.
Ela.
Ele.
O todo.
Eram frágeis.
Você não quer saber, pode ter certeza, ele respondeu.
Silêncio.
Pensou que ela jamais desejaria ouvir. Nem uma parte. Nem uma parte minúscula do todo. Não queria saber do choro. Ou do incômodo. Dos incômodos. Ou das angústias. Centenas. Melhor, milhares. De todas as feridas. Abertas. Em cicatrização. As que nunca cicatrizariam. Não queria saber de nada daquilo.
Você quer saber alguma coisa boa, disse. Quer um sorriso, quer que eu diga que vai ficar tudo bem, quer um futuro bonito, completou. E poderia seguir dizendo outras coisas. Sabia o que ela gostaria de ouvir. No entanto, saber não é garantia de que as coisas vão dar certo, pensou sem querer.
Era isso.
Ela ficou em silêncio. Ele estava certo. E, certo, também ficou em silêncio.
Queria a ausência de problemas, que tudo desse certo. Seja lá o significado de dar certo. Queria um pouco de prazer. Ainda que passageiro. Mas um prazer passageiro que se fingisse de eterno. Preferiria mil vezes uma mentira que a pudesse fazer feliz. Ainda que tudo fosse provisório, ainda que a felicidade fosse provisória, ainda que a felicidade fosse falsa. Felicidade falsa é o quê?, não conseguia entender, não é felicidade?, não é um tipo de felicidade?, seguia adiante. Apenas no raciocínio. A verdade é boa pra quem sabe lidar com ela, costumava pensar. A vida já havia sido muito dura. Tantas frustrações. Centenas, milhares. Era incapaz de dizer. Mas eram muitas. Mais do que achava normal. Mais do que achava suportável. Mais do que podia ser. Tinha feridas abertas. Muitas. E incômodos. E angústias. A alma em carne viva sem que houvesse um mertiolate mágico.
Não posso te dar isso, ele se desculpou. Ou ela. Ninguém saberia precisar.
E se despediram.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Breve intervalo nos dramas cotidianos: Deus da Carnificina


Crianças brigam na rua. Pais ficam sabendo. Pais se metem. A briga, que possivelmente seria esquecida, torna-se um problema de grandes proporções. Pais contra pais, numa defesa ferrenha de seus filhos. Bem-vindos de volta à infância. E bem bem-vindos a “Deus da Carnificina” (Carnage, no original), de Roman Polanski.
Dessa forma começa o filme do diretor polonês, baseado na peça Le Dieu Du Carnage, escrita por Yasmine Reza: com um episódio familiar ao espectador, com crianças, brigas e pais. Afinal, quase todo mundo lembra de uma intervenção desastrada dos pais em um assunto que não precisava de intervenção. Não é?
No filme, os pais se encontram para resolver a situação: de um lado, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), pais do menino que bateu; do outro, Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), pais do garoto que apanhou. O encontro se dá no apartamento do menino que sofreu o ataque, cenário em que se passa quase a totalidade das ações. No entanto, não há a presença dos envolvidos. O que acontece é uma reunião entre os pais, uma conversa entre adultos, para solucionar o caso da melhor e mais civilizada maneira possível.
É nesse ponto que a mão de Polanski aparece para mostrar que quando gente civilizada senta a mesa pra decidir como resolver problemas causados pelos ditos não-civilizados, o problema fica maior ainda. A partir do confinamento proposto, o diretor usa a câmera de maneira a oferecer pontos de vistas variados e tensionar ainda mais as relações que se dão no microcosmo do apartamento, apontando ao espectador um comportamento cada vez mais instintivo dos personagens. Com isso, os gestos e discursos programados caem, dando lugar a reações mais primitivas, e o trabalho espetacular do elenco serve como mecanismo para a direção explorar as distorções dos limites éticos e das relações.
O filme tem enfrentado alguma resistência. As principais críticas consideram o filme inferior ao espetáculo teatral ou acham pouco cinematográfico. A necessidade de criar rótulos para a arte sempre me pareceu muito chata. E não se trata do discurso batido de que “rótulo é pra remédio”, mas sim de pensar em cada obra de uma maneira única, sem tentar enquadrá-la em uma classificação qualquer a priori. Em alguns momentos, parece que quem escreve sobre arte precisa classificar pra entender e só depois falar sobre. Pode ser clichê (dos grandes!), mas arte independe de compreensão objetiva.
Todavia, não parece ser o caso de se pensar em dificuldade de compreensão objetiva da obra. Parece mais uma implicância com a forma. É inegável que, apesar do papel fundamental do texto no filme, a direção imprime uma marca ao trabalho, jogando com os limites impostos pelas paredes do ambiente, com a câmera e com a inclusão de cenas inexistentes na versão teatral. O filme, como um todo, fica ainda mais interessante se lembrarmos que o projeto foi elaborado durante a prisão domiciliar a que Polanski foi submetido em 2009.
Cabe ressaltar, por fim, que meu ponto de vista é carregado de comprometimento. Não assisti a versão no teatro, sucesso nos EUA, na Europa e também aqui no Brasil, dirigida por Emílio de Mello. Vi apenas o filme, definitivo pra mim, que trouxe à lembrança uma citação feita com frequência por minha avó: meus netos são ótimos, o problema é quando se misturam. E foi misturando gente, e extraindo delas seu pior, que Polanski acertou em cheio nesse Deus da Carnificina, tornando sua investigação sobre o comportamento humano uma obra forte, ácida e engraçada. A briga é de criança, mas os problemas são de adulto.

terça-feira, 17 de julho de 2012

"Queda livre" no Mundo Mundano


"Ele e ela estão saltando de paraquedas.

ELA: Meu Deus!
ELE: Isso é tão maravilhoso!

Ela não responde.
Ele insiste.

ELE: Não é maravilhoso?"

(...)

__________________________________________


O texto integral tá hoje no Mundo Mundano.

domingo, 15 de julho de 2012

"Noite de lua cheia" no Manufatura


É uma noite de lua cheia.
Ele e ela caminham pela rua.

ELA: Cheia.
ELE: Linda, né?


---------------------


O texto foi publicado hoje no Manufatura.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Blogs do Além: Blog do Rinus Michels






Sobre mim
Eu sou o cara do Carrossel. O holandês, não o do SBT.

Sobre o blog
Como em meus times, nesse campo, a gente se comunica com passes rápidos: eu toco, você devolve; texto e comentário.

FUTEBOL É GUERRA

Uma vez disse que futebol era guerra. Indo ao Corinthians X Boca Juniors, pude comprovar que as pessoas vêm levando a sério essa máxima: Riquelme parecia um diplomata dos EUA, falando sem parar e tentando convencer o árbitro a fazer o que ele queria, enquanto seus companheiros desferiam golpes por todo o campo.

---------------------------------------------




Vai lá ver o , no Blogs do Além.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Gosto


Tinha um gosto peculiar.
Gostava de se desculpar. Por isso, fazia as maiores barbaridades.
No jardim de infância, pediu um biscoito ao colega de mesa. Não, foi a resposta. Foi quando ele pegou pacote da mão do menino e enfiou dentro de sua boca. A professora repreendeu.
Desculpa, ele disse.
Um pouco mais velho, durante uma festa de família, chutou a bola na tia-avó que só dava meias de presente no Natal.
Desculpa, tia.
Cresceu. E continuou se desculpando. De fato, gostava.
Deixou a mão esbarrar no peito da menina da mesma sala. Prendeu um sinalizador na pata gato. Colou a porta dos armários. Comeu o último pedaço do doce. Colocou as garrafas debaixo da roda do carro estacionado. Dedurou as notas do irmão. Encheu o aquário de comida pro peixe, misturou rivotril na do cachorro e anfetaminas na da mãe. Cortou o cabelo da irmã enquanto ela dormia. Amarrou uma linha na asa do passarinho pra brincar de soltar pipa. Trocou os remédios do avô. Atropelou um mendigo.
Me desculpe, foi sem querer.
Foram suas últimas palavras. Me desculpe, foi sem querer. Repetiu. Me desculpe, foi sem querer. Outras vezes. Me desculpe, foi sem querer. Cada vez mais alto. Me desculpe, foi sem querer. Gritando. Me desculpe, foi sem querer. Havia deixado o carro bater no da frente.
E não adiantaram os pedidos.
Disparou uma única vez.
Foi suficiente.
E foi embora sem pedir desculpas.

domingo, 8 de julho de 2012

"Por uma boa higiene bucal" no Página Cultural


"Ela abriu os olhos.
Sem muitas imagens poéticas sobre o acordar e levantar da cama de uma mulher que habitasse as páginas da literatura, foi até o banheiro e, desviando do espelho, entrou no banho. Terminado, saiu do box desviando mais uma vez do espelho e foi em direção ao quarto, fugindo do outro também."

O texto foi publicado no Página Cultural. Vai lá ler!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Não sabiam o que pedir ou Conversa


Não sabiam o que pedir.
- Vou pedir um espresso.
- Bati hoje de manhã.
- O que você vai querer?
- Torta. A roda dianteira esquerda tá meio torta.
- Não vai comer nada?
- Tô com fome. Não comi nada o dia todo.
- Pois é. Vou pedir o meu com creme.
- Fiquei estressada com o acidente.
- Não sei se como alguma coisa.
- Não tá com fome?
- Tava olhando o carro, tá com a lataria raspada. Aconteceu alguma coisa?
- Acho que vou querer um café. Por que você não pede um com creme pra você?
- Tô meio cheio. Almocei tarde hoje. Você comeu?
- Não sei. Não sei o que peço pra mim.
E coversaram durante duas horas.
Depois, o caminho de casa. O porteiro eletrônico, o elevador, a caixa de entrada, as redes sociais, a hora de desligar.
E seu próprio silêncio.
Não sabiam o que pedir.