quarta-feira, 18 de abril de 2012

Desculpas e cartas de amor


Era de uma geração cheia de vontades. Pais culpados, sempre, sempre cedem.
E cheio de vontades, tinha chiliques. E manias. E raiva. Mas escrevia cartas de amor para ela.
Ela também: cheia de vontades, chiliques e raivas e pais culpados.
E tinham brigado.
Feio.
Uma briga feia. Os dois foram embora.
Em casa, pensava no erro. Nos. Tanto tempo juntos. Ela tão perto. Uma família tão perto.
Estava nervoso. E escrevia as cartas de amor como uma desculpa.
Queria falar com ela. Queria conversar. Era hora de resolver todos os problemas. Era hora de acabar com a existência de qualquer possível aresta. Aparar as arestas, pensou.
Ansioso. Estava muito ansioso. Precisava falar naquela hora.
Abandonou as cartas. Juntou os pedaços de papel amassados, largados na mesa, olhou a hora e foi em direção à porta. Queria encontrá-la. Entregar aqueles pedaços do coração, escritos com tanto amor. Queria pedi-la em casamento. Formar uma família. Não queria mais esperar.
E foi.
Correndo pela escada, tropeçou.
Desceu rolando.
Cinco andares.
No térreo, estava morto.
Não haveria desculpas, cartas de amor ou casamento.
Culpa da família: pais ausentes, nunca aprendeu a amarrar o cadarço.

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