sexta-feira, 27 de abril de 2012

A regra


Houve um dia em que as pessoas tiveram vergonha pela imbecilidade. Delas ou dos outros.

E, de repente, a imbecilidade virou regra.

E a defesa dela, diziam, era defesa da liberdade, como se aquilo não fosse uma imbecilidade.

E ninguém mais se envergonhou por ser imbecil.

E alguém lembrou que aquilo havia começado bem antes. Que alguns avisaram, apontaram a imbecilidade. Mas acharam que era brincadeira, exagero ou grosseria.

E alguém falou da meritocracia. Como se não fosse farsa.

E não havia ninguém constrangido com a situação. Ninguém.

Logo depois, alguém apagou a luz e fechou a porta.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

"Sobre joelhos e corações ralados" no Mundo Mundano

Duas meninas de cinco anos correm pelo jardim. Uma delas tropeça e cai, ralando o joelho.


UMA: Droga!
OUTRA: Puxa!
UMA: Tá sangrando.
OUTRA: Sorte a sua.
UMA: Por quê?
OUTRA: Minha mãe disse no telefone pra minha tia, noutro dia, que tava com o coração sangrando.
UMA: E como é que é isso?
OUTRA: Não sei. Mas deve ser ruim, né?

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O texto integral tá no Mundo Mundano. Vai lá conferir!

Também já foi um dos mais lidos daqui.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Fora do lugar


Abriu a porta com dificuldade. Estava delicadamente bêbada.

Entrou no quarto do hotel arrastando os dedos pela parede e bateu a porta. Depois de alguma insistência, conseguiu encaixar a chave no devido lugar e as luzes se acenderam.

Pôde enxergar. Seus olhos pararam na cama. Havia algo de estranho. Não estava louca. Bêbada, talvez. Mas não era efeito do álcool.

Era jovem. As coisas estavam meio bagunçadas. Só. Não era seu quarto de casa. Mas saberia.

Foi até o banheiro. Lentamente. Como que se escondendo, olhou da porta. Procurou alguém escondido lá. Não havia. Tudo no lugar. Não sabia ao certo. Tinha uma sensação.

Analisou a mesa. Atrás das cortinas. Sob a cama. Abriu o armário. Nada. Não achou nada fora do lugar. Nenhuma imprecisão.

Pegou um pijama e tirou o vestido delicado que usava. E deitou. Ainda pensando no que poderia estar fora do lugar.

Foi quando percebeu que havia um homem ali. Ao seu lado. Na cama. Nu. Completamente nu. Olhou pra ele um pouco.

E decidiu dormir.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Rua Odilon Amaral, 261

Era um amontoado de gente na rua Odilon Amaral, em frente ao 261. Mas antes era só ele.

Ou quase.

Ela era jovem. Viçosa. Atraía os olhares. Inclusive o dele. Insistiu. Todos riram. Já não era jovem. Nem viçoso. Mas ela se encantou.

Ou quase.

Casaram. Uma festa. Muita comida. Bebida. Todos convidados. Toda gente da rua. Quiçá do bairro. Riram. Mas ele estava encantado. Não viu.

Ou quase.

Agora eram dois. Passou o mês. E o outro. E outros. E o viço.

Ou quase.

Porque depois ressurgiu. Com um sorriso no canto da boca. Com uma ida ao mercado mais demorada. Ou um dia em que o jantar atrasou. Ainda eram os dois.

Ou quase.

E veio o que ele temia. E não controlou. E bateu. E bateu forte. E outra vez. E outras. Só de vez em quando.

Ou quase.

E ela fazia a comida. Todos os dias. Até quando apanhava. Principalmente, quando. E ele cada vez mais magro. Cada vez mais fraco. E ela fazendo a comida. Só isso.

Ou quase.

E um dia o 261 da rua Odilon Amaral amanheceu cheio de gente. De dentro, saiu o saco preto. A viúva na porta. Foi o coração, alguém disse.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"Amargo" no Diários Gastronômicos



"Ficar tomando café sem comer nada faz mal ao estômago, ela disse. Olhar perdido, ele teve vontade de aplaudir a visão empresarial daquela padaria ao colocar uma gastroenterologista para atender no balcão. Mas achou que poderia ser encarado como uma grosseria."


O texto integral está no Diários Gastronômicos.


Se preferir, tem também a publicação aqui no fazendo um drama.

domingo, 22 de abril de 2012

"Três crianças" no Página Cultural


"O menino declarou seu amor pela menina de laço rosa, mas não percebeu que acabara de partir o coração de sua amiga de sete ou oito anos.


Ela não conseguia responder.


Tinha vontade de chorar. Achava que ia ser pedida em casamento, que ficaria junto com o menino para sempre, com um casal de filhos, uma casa na praia e um cocker spaniel feliz correndo no quintal de uma casa no subúrbio."




O texto integral tá no Página Cultural. Vai lá ler e dá uma olhada nos outros autores também.

Se quiser, o texto também está AQUI.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Blog do Kepler



Sobre o blog
Aqui vou falar sobre minhas novas descobertas no mundo contemporâneo. Para aulas particulares de física, favor entrar em contato com kepler@fisicanaoeencosto.com. Há desconto para grupos.

Sobre mim
Matemático, físico, astrônomo e astrólogo. Criei o Telescópio de Kepler e provei que os planetas se moviam em órbitas elípticas. Sabe quando Isaac Newton disse que se “enxergou mais longe, foi porque se apoiou nos ombros de gigantes”? Eu sou o gigante.



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Na página do Blogs do Além no facebook tem  Órbitas elípticas na tevê por assinatura, por Johannes Kepler. O matemático, físico e astrônomo quer encontrar novos desafios e resolver entrar de cabeça no século XXI.

Para ir direto pro texto: .

E tem muitos outros Blogs do Além, criados pelo Vitor Knijnik. De alguma coisa você vai gostar por lá.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Xingu

Texto publicado originalmente no Mundo Mundano (11/4).



É difícil imaginar alguém nascido nos anos 1980 que não goste de Cao Hamburger. Crescer na década seguinte assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum significou a conservação da sanidade de toda uma geração. O diretor e o pessoal da TV Cultura impediram o surgimento de uma massa ainda maior de crianças babando e cantando ilarilariê por aí.
Filho do ano de 1985 e fã do Castelo Rá-Tim-Bum, fui ao cinema assistir a Xingu, novo filme de Cao Hamburger. Há alguns anos, já tinha ido assistir a O ano em que meus pais saíram de férias, primeiro dessa nova fase: agora ele faz filmes para adultos, muitos dos quais foram seus fãs na infância.
Xingu conta a história dos irmãos Villas-Bôas e da fundação do Parque Nacional do Xingu. No início, ainda nos anos 1940, assistimos a caminhada rumo ao oeste brasileiro, com a Expedição Roncador-Xingu. O grupo de vanguarda, liderado pelos irmãos Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) Villas-Bôas, segue abrindo caminho em áreas não ocupadas pelo Estado até então. Constroem-se postos de abastecimento, campos de pouso, bases militares: consolida-se a ideia de integração nacional. Ao mesmo tempo, é uma ação sobre terras ocupadas tradicionalmente pelos indígenas.
A relação Estado-indígena-sociedade sempre foi bastante delicada. E, de certa forma, permanece assim até hoje. Desde massacres de grupos inteiros empreendidos ao longo dos últimos 500 anos, se não pelo próprio aparelho estatal, contando com a inoperância dele, até uma simples conversa num almoço de domingo, quando o seu avô fala que “índio é preguiçoso, quer mais é vida boa”.
O ideal de desenvolvimento, desde a colonização, levou a ocupação de extensas áreas habitadas por indígenas. Esse processo não se deu de maneira pacífica nem com respeito à alteridade. No período retratado em Xingu, entre os anos 1940 e 1970, existiam ainda outras questões. No primeiro momento, o modelo varguista e seu projeto de nação, que incluía o índio como parte importante da formação do povo brasileiro, mas, ao mesmo tempo, desejava expandir a fronteira produtiva e garantir a presença do Estado por todo o território, avançando a oeste. Já nos anos 1960/70, havia a ideia do Brasil Grande da ditadura civil-militar instalada em 1964: era preciso espalhar o progresso. Ainda que a noção de progresso fosse (e seja) algo bastante discutível.
Dentro dessa perspectiva, a conquista de uma área, como o Parque Nacional do Xingu, em 1961, foi uma grande vitória dos Villas-Bôas e dos índios (ativos no processo), mas também da nação brasileira. A luta dos deles foi fundamental e seu trabalho, reconhecido pela comunidade internacional, tem uma grande oportunidade de se popularizar entre os mais jovens, a partir do cinema.
Na tela, há um filme cujo grande mérito é a dedicação. Não deve ser fácil filmar nas condições em que tudo foi feito. E toda dedicação resulta em uma história muito bem contada: é um épico feito em grande estilo.
O filme é belíssimo visualmente. A direção de Cao Hamburger deixa a sua marca, sobretudo nas sequências de entradas em regiões desconhecidas. Com a câmera fixa no olhar dos viajantes e não na paisagem, a expectativa de quem vê é ainda maior, diante das reações dos personagens na tela. Se alguém tinha dúvidas a respeito de seu talento ou de sua capacidade de fazer a transição linguagem-público, imagino que não as tenha mais depois de assistir a Xingu.
O elenco tem uma atuação afinada, com destaque para João Miguel (Cláudio Villas-Bôas), compondo o personagem com a dose exata do idealismo e da consciência cruel de seu papel naquele processo. Em certo momento do filme, Cláudio diz que eles são “o antídoto e o veneno”. Estava coberto de razão.
Entretanto, algumas opções parecem questionáveis. Como a relativa insignificância atribuída ao Marechal Rondon e a Darcy Ribeiro. Não é possível falar em índio, nas relações do homem e do Estado com o índio, sem falar deles.
Além disso, em alguns momentos, o maniqueísmo ganha força e os Villas-Bôas são apresentados como o bem e os fazendeiros e militares como o mal. Não custa lembrar que a posição dos irmãos durante a ditadura civil-militar brasileira sempre foi bastante ambígua, numa aparente tentativa de serem apolíticos. Pode se entender tal atitude como uma estratégia, uma forma de luta. O que, no entanto, não foi suficiente para fazer a esquerda da época, decepcionada, entender. Em Xingu, essa posição não aparece. Quando se tenta insinuar, acaba sendo muito mais uma posição do Orlando, criticada por Claudio, e não a prática constante.
A despeito disso, o filme é grande. No bom sentido. Merece ser visto: é cinema brasileiro de qualidade. E sua grandeza está em não ser um panfleto eco-chato, apesar de ser um libelo pela preservação ambiental e defesa dos povos indígenas. Não se trata de um retrato idealizado do índio, apesar de dar voz ao oprimido. Também não é sobre o brasileiro-aventureiro-gente-boa, ainda que exalte a figura os irmãos Villas-Bôas e omita algumas outras opiniões, não tão positivas, sobre a atuação deles.
Assim, Xingu é uma obra que ultrapassa a sala de exibição. É a defesa do valor das diferenças e de uma ideia de desenvolvimento mais preocupada com as pessoas. Merece ser discutido, ao levantar questões sobre os limites do progresso e seus efeitos e sobre as possibilidades de preservação da região e das raízes culturais brasileiras, e deixar uma pergunta latente: qual a dose exata que diferencia o veneno do antídoto? Mas se por acaso nada disso interessa a você, veja também, porque o filme é excelente como diversão. E, no mínimo, você vai poder lembrar do cara que salvou você das apresentadoras infantis e descobrir que ele faz cinema de gente grande.

Para ver a publicação original no Mundo Mundano:

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Desculpas e cartas de amor


Era de uma geração cheia de vontades. Pais culpados, sempre, sempre cedem.
E cheio de vontades, tinha chiliques. E manias. E raiva. Mas escrevia cartas de amor para ela.
Ela também: cheia de vontades, chiliques e raivas e pais culpados.
E tinham brigado.
Feio.
Uma briga feia. Os dois foram embora.
Em casa, pensava no erro. Nos. Tanto tempo juntos. Ela tão perto. Uma família tão perto.
Estava nervoso. E escrevia as cartas de amor como uma desculpa.
Queria falar com ela. Queria conversar. Era hora de resolver todos os problemas. Era hora de acabar com a existência de qualquer possível aresta. Aparar as arestas, pensou.
Ansioso. Estava muito ansioso. Precisava falar naquela hora.
Abandonou as cartas. Juntou os pedaços de papel amassados, largados na mesa, olhou a hora e foi em direção à porta. Queria encontrá-la. Entregar aqueles pedaços do coração, escritos com tanto amor. Queria pedi-la em casamento. Formar uma família. Não queria mais esperar.
E foi.
Correndo pela escada, tropeçou.
Desceu rolando.
Cinco andares.
No térreo, estava morto.
Não haveria desculpas, cartas de amor ou casamento.
Culpa da família: pais ausentes, nunca aprendeu a amarrar o cadarço.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O brinco



MÃE: Meu amor, gostou do meu vestido?
FILHA: É lindo, mãe.
MÃE: Também achei. E desse?

Mostra outro.

MÃE: Gostou? E esse?

Mostra mais um.
Mostra mais doze.

FILHA: É lindo, mãe. São lindos. Todos.

A mãe sorri.

MÃE: Comprei uma coisinha pra você.

Estende uma caixinha de presente.

FILHA: O que é?
MÃE: Abre.

Silêncio.

FILHA: Um brinco?
MÃE: Gostou?

Era um. Apenas um. Não um par.

FILHA: Gostei.

Silêncio.

MÃE: O outro mamãe traz depois, tá?


domingo, 15 de abril de 2012

"Através do para-brisa" no Manufatura




ELE: Como você tá?

Ele quer ouvir que está tudo ruim. Quer ouvir sobre sua ausência. Quer saber da angústia daqueles dias. Quer a narração do calvário.

ELA: Bem.


O texto integral tá lá no Manufatura.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Xingu" no Mundo Mundano

É difícil imaginar alguém nascido nos anos 1980 que não goste de Cao Hamburger. Crescer na década seguinte assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum significou a conservação da sanidade de toda uma geração. O diretor e o pessoal da TV Cultura impediram o surgimento de uma massa ainda maior de crianças babando e cantando ilarilariê por aí.


O texto integral foi publicado no Mundo Mundano.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Muito perto



Pode falar?, ela disse, voz meio abafada, como que segurando um choro.

Ele não ouviu a resposta do outro lado da linha, mas a situação já foi suficiente pra que abandonasse um dos fones de ouvido.

Estavam num ônibus. Cheio. Fim de tarde. Todos muito perto uns dos outros. Fatalmente a conversa seria ouvida por todos. Só queria estar atento.

O começo não pareceu muito promissor.

Tudo bem?, eu tô bem, tem feito calor, né?, encontrei sua irmã noutro dia, e toda a tradicional conversa sem objetivo que antecede uma informação devastadora.

Apesar de habituado a ouvir conversas alheias na rua, não atentou para isso. Imaginou um erro de análise ao ver uma história interessante no que era só mais um fruto da política de concessão de bônus das operadoras de telefonia celular. Já estava pronto para recolocar o fone no ouvido quando parou.

Hoje fomos à igreja conversar sobre o casamento, ela disse, deixando algo suspenso no ar.


Provavelmente, houve um comentário do outro lado. Mas ele se interessou mais pela forma do discurso. Não havia muita empolgação nela. Nenhuma. Sentiu que ali havia uma história.

Enquanto fingia procurar alguma coisa na agenda do celular, pôde ouvir que os noivos em questão eram virgens. Que estavam juntos, entre idas e vindas, havia quase dois anos. E que ele decidira casar. Estavam noivos. Ela já sonhara muito com aquilo, mas havia desistido.

A conversa começou novamente a entedia-lo.

Olhou discretamente pra ela. Era quase bonita. Com olhos tristes e claros. Poderia dizer que não sabia se eram verdes ou azuis. Mas aí seria uma música do Elton John. O que não era o caso. Eram claros. E muito tristes.

Cogitou, outra vez, recolocar o fone. Mas o discurso dela impediu. Mais uma vez.

Ele me contou umas coisas que sei lá..., ela disse.

Estava visivelmente constrangida.

Ah, umas coisas que acho que ele não devia ter me dito, continuou.

Parecia procurar as palavras, talvez pensando que muitos ali poderiam ouvir o que dizia.

Eu fiquei muito mexida, decepcionada, sei lá, com um certo nojo, definiu.

Ele se ajeitou no banco. Mexida, decepcionada, com nojo. O que ele teria feito?, ou, ainda, o que ele contou a ela que fez?, pensava.

Absorto, organizou as opções.

Poderia ser um colecionador de bonecas. Ou gostar de sexo com animais. Ou com animais em decomposição. Ou com bonecos de animais em decomposição. Ou ter uma micose de estimação. Ou apenas criar gatos. As opções aumentavam a cada segundo. Todas muito díspares.

Estava ansioso. Era quase o local de descer do ônibus, e ela não dizia o que o noivo havia feito. A conversa retomou o padrão morno e ele se resignou.

Ia descer. Sem um desfecho.

Enquanto levantava e se preparava pra sair, percebeu que ela parecia ouvir algum conselho pelo telefone. Quando apertou a campainha, ela respirou fundo e disse, com a mesma voz de quase choro do início: a questão é que eu acho que não posso mais esperar por alguém melhor.

Ela pôs a mão no rosto. Ele desceu.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Salgado




Fazia sol.

Tão forte, que ele mantinha os olhos ligeiramente fechados. Estava sentado em um banco no calçadão, em frente à praia. Os olhos fixos no mar. Tranquilo. No movimento das ondas. Ligeiramente fechados.

Pensou em Fernando Pessoa. Não porque fizesse sentido, mas porque achou que combinava. Quis declamar um poema dele. Mas não havia clima para. Também não conhecia nenhum de cor, o que impediria qualquer gesto.

Desviou o olhar do mar, observando o que havia em volta. Nada interessante. Voltou e ficou pensando no tranquilo movimento ligeiramente fechado das ondas. E naquele eterno ir e vir.

Horas antes, ouvira muito sobre o ciclo da vida. Ir e vir. Começo e fim. Tranquilo. Que as coisas acabam. Que foi melhor. Que a única certeza da vida é.

Ao final de todo aquele discurso previamente idealizado, pôde sentir, de fato, o peso. Com a mão esquerda numa das alças.

Não tinha chovido. O sol forte. Desde cedo. Os olhares parados. Desde cedo. Não choveria. Não do lado de fora.

Olhou em volta de novo. Mas não encontrou ninguém. E pensou que peso não é só o resultado da ação da gravidade sobre os corpos. E pensou que pesava. E que talvez um gerúndio se adequasse melhor aquela sensação. E resolveu parar de pensar um pouco. E respirar.

Mas não conseguiu. Angustiou-se um pouco. Havia um peso. Passou a mão no rosto e olhou pro mar. Procurando uma resposta. Tantas perguntas. Mas só uma, justo a sem resposta, era a única que interessava.

Durou alguns minutos. Talvez horas. Não saberia precisar.

Não houve resposta. Nem haveria.

Foi quando sentiu os olhos arderem um pouco e o gosto salgado da lágrima na boca. E mesmo sem a resposta pôde respirar.


terça-feira, 3 de abril de 2012

"A fantasia" no Página Cultural



Ela não tolerava o abandono. E havia sido abandonada.
ELA: Boa tarde.
Saiu de casa e atravessou a cidade determinada.
Entrou na loja de costura ainda mais.
ATENDENTE: Em que posso ajudar?
ELA: Queria deixar pra fazer uns ajustes.
Entregou a atendente uma fantasia. Junto, um papel com as medidas para os ajustes.
ELA: Tá aqui.
A atendente observou, um pouco em choque. Era uma roupa de mulher maravilha num cabide.

O texto tá no Página Cultural.


domingo, 1 de abril de 2012

Esse mundo anda muito esquisito


Primeiro: um homem.

Jovem, 20 e poucos anos. Grupo de amigos em volta, falando alto, rindo, celular como caixa de som. Em frente a padaria, todos esperavam o ônibus para ir pra noitada.

O que o jovem bebia?

a) Whisky com energético.
b) Qualquer-vodka-barata Ice.
c) Toddynho.


Segundo: uma mulher.

Jovem. No máximo, 20 anos. Também com um grupo de amigos. Vestido curto. Curto mesmo. Completamente colado ao corpo. Como se tivesse sido embalada a vácuo. Salto alto. Esperando, como todos ali, o ônibus para ir pra noitada.

O que a jovem tinha em suas mãos?

a) Um maço de cigarros.
b) Uma embalagem de preservativos.
c) Um pacote de Passatempo recheado.





Respostas corretas:
1º - c
2º - c