terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Cadeiras de praia


Abriu a cadeira de praia.
Era verão e o final do dia era acompanhado pelo abrir de cadeiras de praia por toda a calçada da rua.
Era o subúrbio.

AVÓ: Senta aqui com a gente.

Fora à Abolição visitar a avó. Havia tempo que não fazia isso. Já tinha esquecido como eram as coisas.
Sentados lado a lado, os moradores iam formando pequenos grupos. Conversas irremediavelmente entrecortadas por expressões relacionadas à alta temperatura.

UMA SENHORINHA: Quente, né, minha filha?

Ela não conseguiu responder. Enquanto movia a cabeça e articulava as palavras para responder, a senhorinha, bastante idosa, continuou falando.

UMA SENHORINHA: Você não liga que eu te chame de minha filha, né?

Tentou dizer que não. Mas não foi rápida o suficiente.

UMA SENHORINHA: Que bom! Porque a sua avó é como uma irmã pra mim.

Restou a ela sorrir.
A avó seguia na conversa com o restante do grupo. Ela ali, ao lado da senhorinha, que a conhecia, mas de quem ela nem imaginava o nome.

UMA SENHORINHA: Você lembra do meu neto? Eduardo, lembra? Duduzinho?

Tentou dizer que não. Mas não era necessário.
Vez ou outra, a conversa era entre dois lados da rua, o que tornava tudo ainda mais interessante.
A senhorinha gritou pra outra mulher do outro lado da rua.

UMA SENHORINHA: Ô Mônica! Lembra quando o Duduzinho foi pajem no casamento da Rita?

A tal Mônica respondeu que sim do outro lado da rua. Fez um comentário sobre como o tempo passa rápido e a senhorinha balançou a cabeça concordando.

UMA SENHORINHA: Rita é minha afilhada. Rita Ferreira, filha de Seu Ciro Fonseca, da loja de doces que tinha ali na frente. O nome de solteira dela é Fonseca, o Ferreira é do marido. O marido dela é Paulo Ferreira. Ele é advogado. Ciro é meu irmão mais novo. O nome dele é Ciro, mas a gente chama de Cicica. Você não conhece, não?
ELA: Não.

Conseguiu responder. Quase não acreditou.
Depois, pensou que só havia conseguido porque a senhorinha tinha parado um pouco pra respirar.
Fôlego retomado, emendou.

UMA SENHORINHA: Sua avó conhece.

Dirigiu-se a avó.

UMA SENHORINHA: Lembra do Ciro, comadre?
AVÓ: Cicica?
UMA SENHORINHA: É.
AVÓ: Claro!

Voltou-se para ela.

UMA SENHORINHA: Não te disse. Pois é, eu estudei com seu avô no Grupo Escolar em 1944. Benito Ferreira, pai do marido da minha afilhada, que além de afilhada é sobrinha também, Benito Ferreira estudava com a gente também. O apelido dele era Benitinho. Tá prestando bem atenção, minha filha?

Balançou a cabeça. Sabia que não adiantaria tentar falar.

UMA SENHORINHA: O apelido dele era Benitinho porque o pai dele se chamava Benito também. Benito-pai fez fortuna vendendo frango. Ele e a mulher, Eulália. Eram muito trabalhadores. Ele morreu tem uns dois meses. Ela, já faz um tempão. Benitinho namorou a sua mãe antes do seu pai. Ele só casou com a Marinês porque a sua mãe largou ele pra casar com seu pai. Você podia ser filha do Benitinho, né?, olha só que coisa engraçada, gente...

A senhorinha parou para respirar de novo.
Ela pode respirar também. Desenterrou o corpo da cadeira e relaxou um pouco.
Pouco.

UMA SENHORINHA: Você sabia que o Duduzinho é um rapaz muito sensível? É, escreve até poesia! Já te contei da poesia que ele fez pra mim quando tava na 3a série?

Claro que não tinha contado. Estavam ali conversando e ela só falava da maldita família que vendia frangos. Ou doces. Ou sabe-se lá o que.
Respirou.
Não, não estava com raiva. Queria apenas participar da conversa.
Da respiração, nasceu um sorriso.

UMA SENHORINHA: Pois é uma coisa linda. Tenho guardada até hoje. Você precisa ver. Ver e ler. Quando você for lá em casa, vou te mostrar. É uma coisa linda. Eu chorei de tanta emoção quando li pela primeira vez. Pra falar a verdade, choro até hoje quando leio. Fala com sua avó pra levar você lá em casa. O Duduzinho tá sempre lá. O safado vai sempre lá pra comer meu bolo de coco. Vocês podem conversar, tem tudo a mesma idade. É a juventude!

Chamou outra mulher do outro lado da rua. E repetiu.

UMA SENHORINHA: É a juventude! São jovens, né não?!

Foi respondida com uma enxurrada de “ééésss” por todos os lados. Assim mesmo, estendidos.

UMA SENHORINHA: Você sabe fazer bolo de coco? Ah, porque o Dudu adora bolo de coco. É o doce predileto dele. Quando ele era pequeno, eu fazia todo dia de tarde, pra ele poder comer quando saísse da escola. Ia pra lá depois da aula e ficava naquele bendito violão, tocava uns negócios bonitos. Ele adora violão. Quando ele tinha nove anos, o Augusto, meu marido, deu um pra ele. Eu lá, fazendo as coisas da casa, porque você sabe que não tem coisa mais linda do que uma mulher que toma conta do seu lar, né?, eu lá fazendo as coisas de casa e ele no violão, fazendo blom, blom, blom.
ELA: Que legal!

Conseguiu participar da conversa. Até ficou emocionada.

UMA SENHORINHA: E você sabe ou não sabe?
ELA: O quê?
UMA SENHORINHA: O bolo de coco. Você sabe fazer bolo de coco? Porque uma mulher que não sabe cuidar do lar... Meu Deus do céu! Uma mulher que não cuida do seu lar, não é uma mulher completa.

Era um campo minado. Não sabia esquentar água. Concordou mentindo.

UMA SENHORINHA: E você fuma?

Um maço por dia. Mentiu de novo, sacudindo a cabeça.

UMA SENHORINHA: Não, porque mulher que fuma... Se sabe, né? Se uma mulher fuma, minha filha, é porque já caiu na vida. E cigarro é a chupeta de satanás.

Precisava fugir dali. Olhou para a avó. Estava concentrada em outra conversa. Olhou para a senhorinha que parecia querer começar a falar de novo.

ELA: Tia, preciso ir entrar agora.
UMA SENHORINHA: Mas por que, minha filha?

Precisava de uma resposta rápida.

ELA: Tenho que ligar pra minha mãe. Sabe como é, ela fica preocupada se eu não ligo.

A senhorinha abriu um sorriso largo.
Ela deu um beijo e saiu de fininho, conseguindo, finalmente, fugir das cadeiras de praia abertas na calçada. Fazia muito calor.
Era o subúrbio.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

breve intervalo nos dramas cotidianos: "Muito além de um tapete voador"


Aproveitando a premiação do Oscar de ontem, reproduzo aqui "Muito além de um tapete voador", sobre o filme "A separação", vencedor na categoria melhor filme estrangeiro.
O texto foi publicado pelo Mundo Mundano em 3 de fevereiro.



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Muito além de um tapete voador

Tenho certos preconceitos cinematográficos. Acredito que todos têm. Alguns são bons em disfarçar, outros deixam claro quais são. Pertenço ao segundo grupo. Porém, meu desgosto por certos filmes não me impede de vê-los. Em cinema, poucas coisas me deixam tão felizes quanto descobrir que estava errado sobre determinado artista, seja cineasta, roteirista ou ator.

Quase sempre, odeio filmes asiáticos, por exemplo. Não tenho a menor paciência para filmes japoneses e chineses, principalmente. Até gostava de ver uns samurais quando era criança, mas passou quando cresci. Porém, isso não me impede de assistir a cada novo filme do Zhang Yimou na tentativa de descobrir que sempre estive errado.
Outro alvo do meu desgosto sempre foram os filmes iranianos. Ao longo do tempo passado na faculdade e nas mostras de cinema, sempre tive a impressão de que todo filme iraniano tem um tapete voador ou uma criança que perdeu um sapato. Que fique claro: acho a cultura persa uma das coisas mais interessantes que existem, o farsi um idioma sonoramente agradável e o povo iraniano de uma beleza exótica. Meu problema sempre foi com a cinematografia iraniana. Acontece que tudo que pensava sobre o cinema iraniano foi por água abaixo assistindo ao excelente A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, no original), de Ashgar Farhadi.
A cartilha dos comentários sobre o Irã diz que deve se demonizar o país e tudo que vem de lá, dizer que as mulheres não tem liberdade, que as pessoas são oprimidas e miseráveis. Pra se ter uma ideia, recentemente, um professor brasileiro de Harvard defendeu publicamente o assassinato de cientistas iranianos como prevenção. Não vou seguir a cartilha. O Irã tem grandes problemas, a começar por um sujeito chamado Ahmadinejad. Mas dizer que só há problemas lá ou querer resolver os problemas do país não me parece uma boa coisa a fazer: sempre desconfio dos cruzados da liberdade.
Em seu filme, Farhadi fala de um Irã diferente. Na tela, não há tapetes voadores nem objetos perdidos. Há sim, a implosão das relações de afeto, dilemas morais e as diferentes possibilidades de construção de uma verdade. Tudo exposto a partir de uma família da classe média iraniana. E como toda família de classe média do mundo, cheia de problemas. Essa parece ser o grande talento da direção: uma história que poderia ser estranha ao espectador do ocidente, torna-se universal na medida em que fala sobre sentimentos, dúvidas, angústias universais.
Desde o principio, toda a narrativa é construída de maneira irretocável. É uma pancada atrás da outra no espectador. Em uma espécie de prólogo, o casal Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moaadi) fala olhando nos olhos da platéia. Nesse momento, já se constrói a ligação que durará toda a sessão, ao tornar todos testemunhas de um desmoronamento: trata-se de uma audiência de divorcio, em que se expõem os dilemas do casal e da família.
Divorciado, Nadir precisa contratar alguém para cuidar de seu pai com Alzheimer. A partir disso, com a contratação de Razieh (Sareh Bayat), a empregada grávida que ajudará a cuidar de seu pai, é que a história se desenrola.
É importante ressaltar que o resultado final deve muito às interpretações. O elenco confere a densidade exata ao filme, com destaque para Sarina Farhadi, que interpreta Termeh. A adolescente filha do casal é o elemento catalisador dos dramas do pai, da mãe e do avô, além dos seus próprios. Ela é, de certa forma, a porta de entrada do espectador para a história. É o olhar da platéia dentro do filme.
Não há duvidas de que A Separação é uma história muito bem contada. Não há uma câmera nervosa, tremendo o tempo atrás dos personagens. Nem é preciso: a delicadeza das imagens, a cada momento mais tristes e angustiantes, mantém o espectador em confronto com as emoções, as dos personagens e as suas próprias.
Sem tapetes voadores e sapatos perdidos, o cinema iraniano me surpreendeu e ganhou um defensor ardoroso, ainda que recém-convertido. A história da família de classe média iraniana poderia ser a história de uma família de classe média do Rio, de São Paulo, de um subúrbio de Nova Iorque ou de Berlim. Essa possibilidade ampla não diminui o valor da obra. É exatamente o oposto. Ao construir uma narrativa sobre a natureza humana, Farhadi faz um brilhante filme e mostra que entre Teerã e a Tijuca há muito mais em comum do que poderia supor qualquer filosofia barata.

O texto está disponível em:


sábado, 25 de fevereiro de 2012

A ressaca



Era domingo de Carnaval.
Levantou meio zonzo e foi até a cozinha. Na gaveta do armário, procurou um antiácido. Ou um anti-qualquer-coisa. Ou qualquer outro remédio. Talvez um que não existisse.
Mas insistia na procura.
Logo, tinha encontrado um envelope pequeno que rasgado sem muita perícia, foi despejado no copo com água. Olhou para a espuma. Quase numa contemplação.
Ele não estava feliz.
E não havia motivos para estar. Acordara com uma ressaca absurda. Mas não, não havia saído na noite anterior. Havia passado o sábado de carnaval em casa.
Sozinho.
Assistira ao desfile das escolas de samba de São Paulo. Junto, uma garrafa inteira. Sem misturas ou aperitivos.
Ou companhia.
Andara pelos blocos da cidade na sexta e no sábado. Bebera o dia inteiro. Voltou pra casa. Não pelos motivos que deveria.
Não, não estava doente. Era. Tentou, depois de tantos anos, brincar o carnaval. Não foi capaz.
O golpe derradeiro fora a noite anterior. Em frente à televisão, percebeu a total ausência de sentido da sua respiração. Queria ter um coquetel molotov para destruir suas alegorias.
Era um clichê ambulante. Saber disso não o fazia sentir melhor. Ignorar também nunca resolveu nada. Era ele, ali, sentado no sofá da sala, garrafa na mão, uma vez mais sem respostas.
Insistia.
Era forte. De um lado pro outro, pensava. Não que fosse solução. Foi ao quarto. Em frente à porta, olhou para dentro. Antes de entrar.
Encarou o ambiente.
Dentro, abriu o armário. Contemplou o interior por dez ou doze segundos. No cabideiro, estava a fantasia de Super Homem. Ao lado dela, os ternos que usava nos outros 360 dias do ano. Nas gavetas, mágoas.
Separadas por cor e tamanho. Tudo aquilo havia sido acumulado ao longo de muitos anos. Sem fechar a parte em que mexia, abriu a porta ao lado.
Vazio.
Pegou a fantasia. Vestiu-se com o que restava de dignidade e foi para o terraço do prédio.
Não retornou mais ao apartamento.


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NE:
Existe uma versão anterior desse texto (Domingo de Carnaval), parte dos cinco posts de carnaval. O tempo, também na literatura, faz a gente avaliar as coisas. Achei que devia voltar a trabalhar nele. Assim, transformei a reforma em uma publicação de sábado das campeãs. Ficou do jeito que está aí.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Girava

Olhou para a jovem que segurava a bandeira.

Estava sentado na frisa havia três horas. Assistia a tudo aquilo meio sem paciência. Três horas. Muito tempo para ele. Não gostava nenhum um pouco de samba. Tampouco de carnaval.

Acontece que ganhara os ingressos. O chefe havia feito o convite. Ele achou que não ficaria bem recusar.

E foi. Os quinze primeiros minutos correram tranquilamente. Depois, tudo se tornou insuportável. As fantasias, o som e a bateria. A cerveja quente e as filas. Tudo.

Até aquela terceira hora. Resolveu prestar atenção no que acontecia ali a sua frente. E viu uma jovem deslizando na pista com a bandeira na mão.

Fixou o olhar nela. Que girava e girava e girava. Até reparou no rapaz ao lado dela, mas não interessava muito. Manteve a concentração nela, nos giros e na bandeira. Pavilhão esticado. Sorriso aberto. Olhos brilhando.

E entendeu aquilo tudo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A encruzilhada


Estava em êxtase.

Naquela velha encruzilhada havia sentido o pulsar. Não, não era religioso. Mas na reformada encruzilhada o surdo falou com ele.

Devidamente fantasiado, emocionado por estar ali, olhou para o lado. Havia uma mulher. Bonita, parecia rezar. Ela logo percebeu que alguém observava e retribuiu o olhar.

E feito um ritual os dois seguiram lado a lado. Soltos, brincando e cantando alto. Vez em quando, os olhares se esbarravam e sorriam, cantando com ainda mais devoção.

Cruzado o espaço, ao olhar pra trás, havia um mar de cores. Muitos sorrisos e olhares se cruzando, igualmente emocionados. Olharam-se mais uma vez. Abraçaram-se ainda vibrando. Não conseguiam parar.

Choravam, suados, extasiados. A alegria misturava-se ao suor e às lágrimas. Sorriram e olharam-se mais uma vez. Ela seguiu para o portão de acesso à arquibancada. Ele pelo portão da dispersão.

A velha encruzilhada devolvera o pulsar esquecido. Estavam renovados. E de alma lavada. Aquela hora e pouca de tantas lembranças chegara ao final.

Estavam em êxtase.


"O pedido" n'O Bule



"O pedido" está disponível n'O Bule.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Super Homem



Era domingo de Carnaval. E ele estava deprimido.

Não havia motivos para estar feliz. Acordara com uma ressaca absurda. Mas não, não havia saído na noite anterior. Havia passado o sábado de carnaval em casa.

Sozinho.

Assistira ao desfile das escolas de samba de São Paulo. Começou cedo. E bebendo. Uma garrafa de cachaça. Sozinho. Sem misturas ou aperitivos. Ou companhia

Andara pelos blocos da cidade na sexta e no sábado. Bebera o dia inteiro. Não se sentiu bem, voltou pra casa. Não pelos motivos que deveria.

Não, não estava doente. Era. Tentou, depois de tantos anos, brincar o carnaval. Não foi capaz.

O golpe derradeiro fora a noite anterior. Em frente à televisão, percebeu a total ausência de sentido em sua vida. Precisava de uma solução para aquela sensação.

Foi quando abriu o armário e pegou a fantasia de Super Homem. Vestiu-se com o que restava de dignidade e foi para o terraço do prédio. Não retornou mais ao apartamento.

Não, aquele Super Homem não sabia voar.


sábado, 18 de fevereiro de 2012

A bailarina


Amanheceu o sábado.
Ela levantou cedo. Não queria perder um segundo: o banho foi rápido, o café, ainda de toalha, igualmente.
Foi ao armário. Lá estava a fantasia.
A bailarina.
Dançou dos três aos 12. Parou: o quadril cresceu mais do que a professora de balé poderia aceitar. A fantasia era uma lembrança.
E uma frustração, poderia ter dito.
Tirou-a do armário e, depois, do cabide. Estendeu sobre a cama e observou por alguns segundos. Os segundos viraram minutos de contemplação. Era muito bonita a roupa da bailarina. Lembrou da infância e uma lágrima escorreu discretamente.
Tirou a toalha e começou a colocar a fantasia. Mas a roupa da bailarina parecia ter alguma coisa errada. Não entrava. Não cabia na roupa da bailarina. Tentou mais uma vez.
As lembranças vinham sem parar. A professora do balé. As outras bailarinas. Tutu, sapatilha, cabelo bem preso. Ia sempre assistir. Gostava de balé, era apaixonada. Mas odiava um pouco as bailarinas. Pensava que a professora talvez tivesse razão, definitivamente, não tinha jeito para bailarina.
Foi então que rasgou a roupa da bailarina. 
Inteira. 
Desfiou algumas partes, costurou outras. 
Em pouco mais de uma hora, tinha outra fantasia.
Odalisca.
A odalisca é uma bailarina gostosa, pensou.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sexta-feira de Carnaval


É sexta-feira. O sol ainda não se pôs, mas o surdo ecoa pelas ruas do centro. A confusão de pessoas saindo do trabalho se mistura às batidas.
Ele está com a gravata frouxa quando a vê.

ELE: Psiu!

Ela não olha. Está com uma tiara colorida na cabeça. No corpo, a roupa do trabalho.

ELE: Psiu!

Ele insiste.
Ela insiste na recusa.

ELE: Vou te dar duas opções.

Ela não acredita. Olha pra ele. Finalmente.

ELE: Oi, gata.

Odeia ser chamada de gata.
Volta a atenção para as amigas.

ELE: Fala comigo, gata. Olha pra mim.

Ela segue ignorando.
Ele repete o discurso anterior.

ELE: Então, vou te dar duas opções.

Nunca viu ele antes. Não acredita no ultimato.

ELE: Gata, é o seguinte: ou você me beija ou dá uma cambalhota.

Ela não acredita.
Ele não deixa dúvidas.

ELE: Ou me beija ou dá uma cambalhota.

Ela encara. Ele, sério.
As amigas dela observam a cena.

ELA: Prefiro rolar até a Barra da Tijuca.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"O ovo" no Manufatura



Sentia que estava sendo cozido.

ELE: Tô com fome.

Ele disse alto, pra ela ouvir.
Abriu a geladeira e pegou um ovo na porta.

ELA: Vai comer agora?
ELE: Vou.

Ele respondeu com uma certa rispidez. Era uma reação. Não tinha certeza, era apenas uma sensação, mas achava que estava sendo cozido.

O texto tá no MANUFATURA!


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Diante da janela


Estava sentado diante da janela.

Às vezes, é só o tempo, pensou, não há nada, é só o tempo, é só a ausência, é só o cansaço. Estava cansado.

Da cadeira, podia ver. A vida existia. Lá embaixo. Apenas. A vida inteira existia apenas lá embaixo. Ali, só a cadeira, ele e a televisão sem som.

Através da janela, podia ver pessoas e carros. Os outros prédios. Altos e sujos. Até outras janelas. Com televisões ligadas. E, como não podia ouvir o som delas, imaginava estarem sem som também. Pensando nisso, ria. Um riso débil.

Vez em quando, alguém entrava no quarto. Falava alguma coisa sobre o tempo ou a tv. Ele respondia. Qualquer resposta genérica ou um leve balançar da cabeça. A verdade é que independia da pergunta ou do comentário. Sua reação era automática: ao ouvir a porta, o corpo já se preparava.

Não queria ouvir. Ninguém. Não queria conversa. Nenhuma. Estava interessado no que podia ver pela janela. As palavras dentro do quarto só atrapalhavam. Por isso, a televisão sem som. E a cadeira virada para a janela.

Os que entravam, saíam e comentavam não ficavam muito tempo. Ele gostava. Do pouco tempo que permaneciam. Faltava paciência. Não queria responder perguntas. De nenhum tipo.

Ele sorria da cadeira. Eles iam mais rápido assim, pensava. E, depois de sorrir, estava sozinho. Olhos fixos na janela.

Estava sentado diante da janela. Na cadeira.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"O pedido" no Bar do Escritor


Ele está em um bar.
Ela chega.

ELE: Tava preocupado.
ELA: Desculpa o atraso.
ELE: Não tem problema. Acabei de chegar.
ELA: Trouxe os papéis?
ELE: Tão aqui.

O texto integral tá lá no Bar do Escritor.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Uma experiência nada óbvia no Centro do Rio" no Aguarrás


Um passeio ao centro da cidade é sempre interessante. Não, não se concentre nos camelôs, operadores de trânsito apitando ou entregadores de propaganda. Concentre-se na cidade e, perdoem o clichê, no seu coração: o Centro. Se a cidade tem vida própria, o centro tem vida própria dentro da vida própria. Outro clichê: ele tem uma pulsação diferente.

Todos os dias você passa ali, com pressa, calor e cansaço. Toda a sensibilidade que se possa ter desaparece ao avistar um termômetro de rua e descobrir que ele marca trinta e muitos graus. Um pensamento gritando é mentira, tá muito mais! invade sua mente e ganha a atenção de todas as células do seu corpo. Em todos eles, buzinas, apitos e motores compõem a trilha sonora que preenche seus ouvidos e tomam conta das últimas partes ociosas que você possa ter.

É nesse mesmo Centro que está em cartaz a exposição Sinestesia, de Leonardo Miranda. Cinco galerias do 2º andar do Centro Cultural da Justiça Federal são ocupadas pelo trabalho realizado pelo artista nos últimos cinco anos.


O texto integral tá no Aguarrás.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A dança



Ela chega em casa; ele, esperando, sentado em frente à porta.

Que horas são?

Tinha saído. Sozinha.

Vê no relógio.
Eu te perguntei.
E eu te respondi.

Ele não quer saber as horas, só quer explodir. Não entende como ela pode estar feliz sem que ele esteja perto o tempo todo.
Ela não sabe das horas, não quer saber e nem quer saber dele, daquele jeito inquisidor, atrás dela. Foge, ou tenta, na verdade. Porque não tem sucesso.

Tava onde?
Dançando.

Ele está no limite. Vai atrás dela, num balé virulento pela sala do apartamento pequeno.

Não perguntei o que você tava fazendo. Perguntei onde tava.

Ela também está no limite. Ou talvez além dele.

Então você faz o seguinte: vai pra puta-que-pariu! E lá você pergunta e responde o que bem entender.

Uma pausa curta naquela dança mal ensaiada. E, após um pequeno respiro, a retomada do movimento.

Tava preocupado, a cidade desse jeito.

Ela não diz nada. Anda pela casa, tenta fugir dele: não consegue.
Está cansada. Da noite, da dança, do caminho de volta pra casa, das escadas pro quarto andar do prédio antigo, daquela conversa, dele. Dele, principalmente, dele.

Você nem pra dar um telefonema. A gente só vê desgraça na televisão. Fiquei muito preocupado. Você não pode fazer isso... Foram onde?
Para!
Você não pode fazer isso!
Para, por favor.
Você não pode fazer isso.
Quem você acha que é? Você ficou louco?

Ele não sabe, ela não sabe, ninguém sabe, ou sabem, quando ele segura ela pelo braço e ela se solta irada.

Você não pode fazer isso comigo!
Olha bem, você não é meu dono. Eu não tenho que te dar satisfação dos meus passos. Eu te falo o que eu quiser. E quando eu achar que devo. E nunca mais me segura desse jeito.

Silêncio.

Onde você tava?

Recomeça a coreografia pela sala. Ele atrás dela; ela em fuga.

Dançando.
Com quem?
Com os meus amigos.
Que amigos?

Ele intercepta ela numa quebra de movimento.

Que amigos?
Os meus.
Eu conheço?
Não sei.
Quem são?
É bastante gente.
São amigos ou amigas?
São amigos e amigas.
Nomes.

Retomam, como se a orquestra retomasse junto o movimento daquela canção em forma de disputa.

Quem são?

Nada, não há resposta.

Foram onde?
Para!
Você não pode fazer isso!
Para, por favor.

Não para, não param.

Que horas são?
Vê no relógio.
Eu te perguntei.
E eu te respondi.
Tava onde?
Dançando.
Não perguntei o que você tava fazendo. Perguntei onde tava.

Então você faz o seguinte: vai pra puta-que-pariu! E lá você pergunta e responde o que bem entender.