segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A mulher de saia


Ela usava saia. Sempre. Não, não sou crente, dizia toda vez que alguém perguntava sobre a saia. Sou mulher, completava. E ria.

Abriu a porta e entrou na cafeteria. Todo mundo olhou. Foi até o balcão, pediu um chá preto, uma água e foi procurar um lugar pra sentar. Achou uma mesa discreta, atrás de uma das pilastras do salão da cafeteria. Colocou o chá e a água sobre a mesa, abriu a bolsa, tirou um maço de cigarros e um livro do Cortázar.

Olhou o relógio no pulso impaciente. Parecendo duvidar do que tinha visto, olhou para a parede, onde havia um relógio grande e preto. Estavam iguais. É, ele estava atrasado.

Bebeu um gole do chá e percebeu, incomodada, que o rapaz da mesa em frente a observava.

Acedeu o cigarro ainda mais impaciente. Conferiu de novo a hora. Vinte minutos, pode ser o trânsito, pensou. Da mesa em frente continuava partindo o olhar. Tossiu um pouco e aparentemente o rapaz entendeu o recado, pois baixou a cabeça meio desconcertado. Tragou fundo e olhou em volta. Vários olhares de reprovação ao seu cigarro.

Abriu o livro e mergulhou nas páginas. Minutos depois nova tragada e mais uma olhada no relógio: 33 minutos, estava realmente atrasado. Retornou à leitura.

Só desviou a atenção do livro algum tempo depois quando a garçonete deixou a bandeja cair no chão. Por sorte, vazia. Idiota, pensou. Se ele já tivesse chegado provavelmente diria que aquilo era normal, que acontecia. Fui garçonete por três anos e nunca aconteceu, ela responderia. Mas já havia se passado uma hora desde o horário combinado. Ele não viria e todo esse diálogo ficaria apenas na imaginação. Ou então havia acontecido alguma coisa. Talvez grave. Talvez ele tivesse morrido. Da mesma forma, ele não viria e da mesma forma o diálogo permaneceria na imaginação.

Ele não viria. Mais uma vez.

Ela, então, decidiu o que deveria ter decidido havia muito tempo. Fechou o livro e deixou sobre a mesa o dinheiro meio amassado para pagar pelo chá e pela água. Levantou-se e saiu pela porta. Ainda esbarrou numa menina de vestido florido que entrava.

Olhou pro jardim da casa em frente sorrindo. E não pensou mais nele.

Pensou na Macedônia. Quem sabe uma viagem?, pensou. Ou talvez uma mudança definitiva.

E riu mais uma vez.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Esperando #3: na fila do banco


Ele está dentro do banco, na fila. Olha pra uma mulher a sua frente. Tenta puxar assunto.

ELE: Você gosta de sorvete?

Ela não responde. Ele insiste.

ELE: Eu tenho um pouco de sorvete aqui na minha bolsa, quer?

Ela continua ignorando. Ninguém presta atenção.
Ele continua.

ELE: Pode pegar um pouco, não precisa ficar com vergonha. Pega um pouco, vai. Pode pegar.

Ela permanece em silêncio. Ele acha que é timidez.
Ninguém presta atenção nele, na conversa ou na mulher.
Há coisas mais importantes para todos ali.

ELE: Minha mãe que me ensinou a fazer. Ela ia gostar de você. Qualquer hora te apresento ela. Sua mãe é viva? A minha, morreu quando eu tinha 11 anos. Mas, guardei ela no freezer. Ela era pequenininha, sabe?, coube direitinho no espaço que tinha do lado do irmão. Pensei que um dia, quem sabe, dá até pra ressuscitar eles dois. Ou, pelo menos, um dos dois. Eu fico esperando, né? Esses cientistas sempre aparecem com coisas novas, de repente... E, além de tudo, eles nem ocupam tanto espaço. Só é um pouco chato quando tem que descongelar o freezer. Mas eu só faço isso de vez em quando mesmo.

Silêncio.
Ninguém tem nenhum tipo de reação.
Ele se vira e começa a conversar com a mulher que está atrás dele.

ELE: Já te contei a história da minha mãe?

Ela também não responde. Mas ele não precisa de respostas.
Ao menos, não das dela.

ELE: O pai dela queria que ela fosse advogada. Aí, ela foi estudar economia. O pai dela, meu avô, não era um cara muito legal. Ele batia na minha avó. Um dia, minha mãe colocou veneno na comida dele. Minha avó encontrou ele morto no chão da cozinha. Disseram que foi infarte. A sua mãe é legal?

Silêncio.

ELE: Eu me dava muito bem com a minha. Mas, aí, ela resolver começar a namorar um cara. Eu não gostava dele. Imagina: querendo roubar minha mãe de mim. Cortei a cabeça dele com um machado. Minha mãe ficou chorando muito, brigou comigo, aí eu me irritei e cortei a cabeça dela também. Não queria fazer isso, mas ela praticamente me obrigou. Mas, tudo bem. Depois a gente fez as pazes. Sabe como é, né? No fundo a gente é sangue do mesmo sangue.

O caixa chama o próximo. Não é ele.
A vez dele nunca chega.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Queda livre


Ele e ela estão saltando de paraquedas.

ELA: Meu Deus!
ELE: Isso é tão maravilhoso!

Ela não responde.
Ele insiste.

ELE: Não é maravilhoso?
ELA: Um pouco.

Ela não parece achar maravilhoso.
Ele percebe.

ELE: O que foi?
ELA: Acho que eu vou vomitar.
ELE: Fica calma.

Ela ri um riso nervoso.

ELA: É uma tarefa bem simples, considerando que eu tô despencando de sei lá quantos metros de altura...

Ele interrompe.

ELE: São...

Ela interrompe.

ELA: Não! Não diz! Não quero saber a altura.

Ele desconversa.

ELE: Não parece que somos grandes? Olha pra baixo.
ELA: Não posso, senão eu vomito.

Ele insiste.

ELE: Olha pra baixo.

Ela olha.

ELE: Olhando tudo daqui não parece que somos grandes?
ELA: Parece.
ELE: Mas, ao mesmo tempo, não dá uma certeza de que não somos nada?
ELA: Como assim?
ELE: Ao mesmo tempo em que eu acho que sou enorme, porque tudo me parece tão pequeno, eu me sinto um nada, porque tenho certeza de que sou só mais uma pequena parte daquilo tudo que tá lá embaixo. Entendeu?
ELA: Entendi.
ELE: E aí?
ELA: Não sei. Nunca tinha pensado nisso antes. Nunca tinha saltado de paraquedas.
ELE: A gente salta de paraquedas todos os dias e nem percebe.

Ela não entende.

ELE: Como agora, por exemplo.

Está na hora de abrir o paraquedas.

ELE: Eu te amo.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

"Sobre conhaque e morte" no Diários Gastronômicos


Dois homens estão em um boteco, sentados em uma mesa na calçada. Um deles pede um conhaque.

UM: Sabe de que é feito isso aqui?
OUTRO: Deveria ser a base de destilado de vinho.
UM: Não é?
OUTRO: É destilado de aguardente e gengibre.
UM: Nada de alcatrão?
OUTRO: Não. Alcatrão tá no seu cigarro.
UM: Entendi.
OUTRO: Por que o assunto?

O texto integral tá lá no Diários Gastronômicos.


sábado, 21 de janeiro de 2012

A árvore

Metáforas elaboradas não explicam sentimentos complexos, pensava.
Era quente. O dia estava claro e o sol rebatia nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Era novidade. Quente, claro, sol e desconforto sucediam a queda. Antes, ainda que fosse quente e claro, havia uma sombra delicada e o sol que rebatia nos carros na rua era barrado, entrando pela janela um balançar cadenciado.
Havia, em frente à janela, uma árvore. Com o tempo aprendera que era um flamboyant. Não que isso interessasse. Era uma árvore, isso bastava. Se era um ipê ou uma macieira era irrelevante. Sempre fora sua árvore.
Sempre esteve ali, oferecendo sombra como em um poema escrito sobre infância e nostalgia. Não que gostasse de sentar aos pés da árvore, recostar em seu tronco e receber a brisa suave no rosto, olhando pro céu entre a copa do flamboyant. Isso era poesia. Gostava de estar na sala e não ter os olhos desconfortáveis enquanto lia Tchecov no sofá.
Não ser poesia não significou, em nenhum momento, desamor. Vivia uma intensa relação amorosa com aquele flamboyant. Todos os dias, chegava da rua e, ao entrar em casa, olhava pro alto, em direção à copa da árvore. Quando era criança, carregava alguns galhos. De manhãzinha, juntava os bonecos e construía fortes e trincheiras nas raízes, que levantavam um pouco a calçada. Mais tarde, pegava algumas sementes pelo chão e juntava em uma caixa, sem muito sentido. Achava engraçada a sujeira que a árvore fazia e podia ver o céu entre as folhas. É, talvez de alguma maneira, fosse poesia.
De certa forma, aquela quase poesia era também um prenuncio de tragédia. As raízes fortes iam aos poucos estourando a calçada e os canos em busca de água. As sementes ficavam espalhadas pela rua, assim como as flores. As cigarras sumiram. Havia cupins.
Um dia chegou o botânico. Nunca havia visto um botânico e nunca viu um depois disso. Se fosse teatro, diria que era uma solução dramatúrgica fraca do autor, colocar um botânico ali para explicar o inexplicável, como a empregada doméstica da novela das oito que faz uma pergunta à patroa, protagonista da história, pra que ela possa fazer uma cena tocante, que sirva de gancho para o capítulo seguinte e mantenha a atenção do espectador. Não era preciso verbalizar a morte. Fez-se o silêncio.
Dias depois, acordou com a trilha sonora do corte. Foi até a janela e contemplou a coreografia. A luz do sol banhava o cenário e lá em baixo havia uma espécie de diretor. Não conseguiu pensar em nada.
Os dias seguiram angustiados. Era, sim, preciso verbalizar a morte, pensou. Pegou um caderninho que tinha guardado para essas ocasiões angustiadas. Começou a escrever, nada que achasse gostável. Mas não estava interessado em ser lido, mas em botar pra fora a angústia. Ele sabia, ou achava que sabia, que escrever era uma forma de superar.
O que ele não sabia era que nada que escrevesse seria capaz de cobrir aquele buraco aberto. Que nada voltaria, ainda que inconscientemente achasse possível que tudo voltasse, em breve, a ser como era antes. O que não sabia é que há coisas que não se superam. Há coisas que não voltam. Não pelo que foram, mas pelo que deixaram de ser. Brincar com seus bonecos na raiz aparente do flamboyant foi banal, mas foi. Não haveria mais aquela raiz para servir de trincheira na guerra imaginária. Não haveria sementes, galhos ou flores. Não haveria.
O acordar seria diferente, assim como a sesta. As tardes e os cafés-da-manhã também. Não haveria escaladas, podas, arte naturalista. Não poderia se casar embaixo da árvore. As folhas pequenas, não poderiam ser postas pra secar, trituradas, enroladas em um guardanapo de bar e posteriormente fumadas, em busca de algum estado alterado de consciência, numa tentativa juvenil de fazer haver alguma coisa. Não poderia construir uma casa na árvore, não naquela, pelo menos, e, se não naquela, em qual mais?, não importa, não poderia construir uma casa com a sua madeira nem tirar uma muda. Não seria possível, um dia, quando fosse avô, retirar um galho e fabricar uma espada de brinquedo para seus netos. Tampouco construir um arco e flecha. Não haveria a sombra e a poesia de olhar pro céu entre as folhas da árvore.
Os dias seriam claros e o sol rebateria nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Tchecov nunca mais seria o mesmo. Nem ele.
Metáforas simples também não explicam nada, pensou

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Do oitavo andar ou Amanhã a gente se fala

Janeiro é foda, pensou.
Foi até a varanda. Estava quente. Muito quente. Mas não era só janeiro.
Olhou atentamente para baixo. Madrugada, não havia ninguém. Um gramado, parte do estacionamento, um corredor.
E se eu pulasse?, pensou.
Não estava deprimido, nada disso. Tinha sido abandonado, mas abandonos sempre foram constantes em sua vida. Dessa vez, a única diferença é que havia um motivo. Ainda assim, queria pular.
Pegou uma cadeira e colocou perto do parapeito. Subiu na cadeira e olhou de novo.
Alto, foi o pensamento acompanhado por um sopro leve entre os lábios meio abertos. Suava um pouco. Não havia nenhum vento. Estava tudo parado. E pensou em sua vida.
Ninguém vai perceber se eu pular, sussurrou sozinho.
Desceu da cadeira e foi até a sala. Olhou para o telefone sobre a mesa e parou por uns segundos, até que decidiu fazer uma ligação.
Uma voz feminina atendeu do outro lado. Sonolenta. Estava tarde. Era tarde.
O que você quer? Queria falar com você, tá tudo bem? Tá meio tarde. Eu sei, como você tá? Tá tudo bem.
Silêncio.
Era só isso? Era.
Não era. Tinha muita coisa a dizer. Não sabia como começar.
Mas era tarde.
Então, tá, boa noite. Boa noite.
Ela desligou. Ele mandou um beijo, que ela não ouviu.
Ela chorou por toda a noite.
Ele retornou a varanda e enviou uma mensagem de texto para ela.
Amanhã a gente se fala.
Não houve resposta.
Com as mãos deu impulso no parapeito, ignorando a cadeira, e pulou.
Do oitavo andar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

fim de tarde

Três crianças

Eram três crianças no elevador. Sete ou oito anos, no máximo.
Antes, no playground, algumas crianças brincavam. Elas três e outras. Não era possível saber quantas: eram muitas e corriam e gritavam, o que tiraria a concentração de qualquer observador.
Naquela correria toda, o menino chamou a menina. Sua amiga. A melhor.
Queria te pedir uma coisa, disse baixinho, com a boca meio fechada, olhando pra baixo.
A menina tremeu: era apaixonada por ele. Ele pediria um beijo? A boca secou. Suava um pouco. Tentou disfarçar o nervosismo, olhou pros lados.
Mas você tem que prometer que vai guardar segredo, ele seguiu. Não notou nada de diferente nela. Não percebeu a boca seca, a testa suada e nem os movimentos esquisitos da perna esquerda, que só poderiam ser fruto do nervosismo da situação ou de algum distúrbio neurológico.
Ai, tô curiosa!, ela falou olhando pra cima. Ainda suava, tinha a boca seca e a perna descontrolada.
Promete que jura?, ele tentou construir um compromisso altamente sigiloso.
Ela prometeu, fala o que é!, insistiu, ele tenso, ela quase fechando os olhos e abrindo levemente a boca esperando pelo beijo, esperava pelo beijo, esperava por ele, esperava por ele e seus sete ou oito anos bem vividos.
Mas quando a respiração dele não se aproximou, quando viu ele parado, paralisado, olhos no chão, boca meio fechada. O silêncio, grande, grande demais para seus sete ou oito anos. Foi num rompante, enfrentando aquele silêncio que o menino ergueu os olhos, abriu a boca e despejou tudo. Ela teve vontade de chorar.
Sabe ela?, disse e apontou pra uma menina de sete ou oito anos em pé sobre um banco de madeira que tinha um laço rosa na cabeça, gosto dela, mas não consigo falar, você fala pra ela que eu quero casar com ela?
Teve mais vontade de chorar. Ou cometer um homicídio. Ainda que, aos sete ou oito anos, o significado exato da palavra homicídio não estivesse muito claro pra ela.
A menina do laço rosa ia embora no dia seguinte. As férias tinham acabado e o tempo na casa da avó também. Era hora de partir e o menino de sete ou oito anos estava completamente apaixonado.
Sua pergunta tinha ficado sem resposta. Insistiu, como se não fosse nada, como se ela não estivesse ali, suada, com a boca seca, os lábios quase rachando, a perna descontrolada. Ela não conseguia responder.
Queria chorar. Achava que ia ser pedida em casamento, que ficaria junto com o menino para sempre, com um casal de filhos, uma casa na praia e um cocker spaniel feliz correndo no quintal de uma casa no subúrbio. Mas não chorou.
Falo.
Saiu rápido pra ele não perceber a lágrima brotando no olho. Foi em direção à menina de laço rosa e cochichou alguma coisa no ouvido dela. Nada sobre o menino.
E voltou.
Pronto.
Ela disse o que?
Nada. Ela não tinha dito mesmo.
Nada?, quase frustrado.
Nada!, repetiu já deixando o aperto naquele coração de sete ou anos escapar um pouco.
Mesmo?, insistiu, não acreditava.
Ela não disse nada, tá?
Ele estava frustrado. Achou que faria um pedido de casamento naquele dia, que ela não precisaria voltar pra casa, que eles ficariam juntos para sempre, com uma família grande, muitos filhos, uma casa na praia e um basset feliz correndo no quintal.
Só o que houve foi a continuação da brincadeira e a gritaria no playground. Até as seis e o toque do sino da igreja na esquina. Eram, então, três crianças de sete ou oito anos no elevador. Em silêncio.
Quarto andar.
Saiu a menina com seu coração partido. Olhou para o menino no elevador, seu amigo, e acenou antes de correr pra que ninguém visse seu choro.
Quinto, sexto e sétimo andares. O menino de cabeça baixa. A menina meio triste pelo fim das férias. Em silêncio.
Ela gostava dele. Mas não tinha coragem de contar. Achava que, naquele último dia de férias, ele ia pedir sua mão, que ela não precisaria voltar, que eles ficariam juntos para sempre. Teriam três filhos, um gato siamês, um sítio com piscina e churrasqueira e morariam num apartamento perto da praia.
Talvez fosse diferente se soubesse que ele gostava dela. Mas não sabia.
Oitavo andar.
Os dois saíram. A menina queria um beijo e um abraço de despedida. Ganhou dele um tchau rápido, numa tentativa de esconder o choro preso. Triste, abriu a porta da casa da avó e foi lavar as mãos para o jantar. Quase não mexeu na comida.
No apartamento da frente, o menino olhava pela janela pras nuvens escuras no céu. No quarto andar, a amiga dos dois chorava deitada nas almofadas de bichinhos de pelúcia.
Eram três crianças de sete ou oito anos. Sofrendo por amor.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Tem sempre uma pipa no céu do subúrbio

A fantasia

Ela não tolerava o abandono. E havia sido abandonada.

ELA: Boa tarde.
ATENDENTE: Em que posso ajudar?
ELA: Queria deixar pra fazer uns ajustes.

Ela entregou a atendente uma fantasia. Junto, um papel com as medidas para os ajustes.

ELA: Tá aqui.

A atendente observou, um pouco em choque. Era uma roupa de mulher maravilha num cabide. Olhou para o papel e viu os ajustes pedidos.

ELA: Muito cuidado que o tecido é delicado. E o meu chefe não quer de jeito nenhum que estrague. É um presente.

Ele havia partido há muito. Não queria mais nada.
Ela não era capaz de entender.

ELA: Tem que apertar a cintura. Dá pra fazer?
ATENDENTE: Dá... dá pra fazer...

A atendente gaguejou um pouco.
Ela sorriu.

ELA: Ótimo. Aqui tem um endereço de entrega.

Ela nunca havia digerido a separação.
Ele apenas fora embora. Relacionamentos acabam, as coisas sempre tem um fim. Gente faz coisa errada. Gente magoa gente. Era o que dizia.
Mas pra ela, não. Era necessária culpa. E vingança. 

ELA: E um cartão.

Ela abriu o cartão e pegou o celular. Fingiu ligar para alguém, mas não fez.

ELA: Oi, tudo bem?... Coloco o que no cartão?... Aham...

Enquanto fingia falar ao telefone, começou a escrever. A atendente pôde ler o escrito.
Para aquele que é a minha verdadeira mulher maravilha, a única pessoa capaz de fazer o avião invisível subir. Beijos, do seu.
Não sabia exatamente como agir. Tentou disfarçar. Fingiu que não estava prestando atenção.
Ela desligou o celular e entregou o cartão a atendente.

ELA: O endereço tá certo. Meu chefe disse que talvez ele resista um pouco a receber. Sabe como é, né? Mas insistam. É um presente muito importante. Eles brigaram. É uma tentativa de fazer as pazes.

E foi embora.
Sorria. Estava satisfeita. Era sua vingança.
Mas durou pouco.
Morreu uma semana depois. Atropelada.
As investigações se transformaram em lenda. As testemunhas disseram que o carro era dirigido pela mulher maravilha.

domingo, 15 de janeiro de 2012

"Ela tinha razão" no Manufatura

ELE está no sofá.

ELA chega.

ELA: Vamos dormir?
ELE: Daqui a pouco, tá? Tô terminando de ver o jogo.
ELA: Mas você já não viu?
ELE: É outro.
ELA: Outro?
ELE: É.


O texto integral tá lá no Manufatura.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"Como encontrar um retorno?" ou "Sobre o entendimento" no Bar do Escritor



O carro está parado e desligado.
Ela está sentada no lugar do motorista, ele no banco do carona.

ELE: Tenho que ir.
ELA: Tem certeza?
ELE: Acho que a gente tá num ponto sem volta.


Sexta-feira 13 é dia de estreia no Bar do Escritor. O texto integral tá lá.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Não há títulos para Ivens Machado" no Aguarrás


Imagine que seu dia começou cedo. Sem sono, você levantou junto com o sol e ligou a televisão. Estava passando um desenho animado qualquer e resolveu assistir. Sentado diante da tela, você viu uma cachoeira e um personagem tentando fazer o outro despencar lá de cima. Para isso, usava um monte de toras de madeira. O alvo do ataque mantinha-se vivo correndo sobre as toras, como se estivesse em uma esteira.

O texto integral tá no Aguarrás.





terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"Sobre o entendimento" no Mundo Mundano


CARRO.
Ela está sentada no lugar do motorista, ele no banco do carona.

ELE: Tenho que ir.
ELA: Tem certeza?
ELE: Acho que a gente tá num ponto sem volta.

O texto integral tá lá no Mundo Mundano.






segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Noite de lua cheia


É uma noite de lua cheia.
Ele e ela caminham pela rua.

ELA: Cheia.
ELE: Linda, né?

Ele diz, apontando a lua.
Ela não tinha visto.
E não aguenta mais.

ELA: De você.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Estavam perdidos

A porta aberta deixava entrar um facho de luz.
Era pouco.
Era possível ver duas sombras entrando no quarto.
Apenas isso.

ELA: Não se perca ao entrar.

Servia para a vida.
Era um labirinto. Ela.
Elas.
E servia para o quarto também.
Ela tentava alertar. Mas ele ignorava. E insistia. E pisava corajosamente pelo chão.
No escuro.

ELA: Achei que tinha queimado na semana passada. Troquei, mas continuou sem acender.

Um estalo.

ELE: Desculpa.
ELA: Sem problemas.

Ela abriu a janela. A luz da rua e da lua iluminaram o quarto.
Sentou com as costas no armário, de frente pra janela.
Era bonita. Só não sabia disso.

ELE: Tem alguma bebida aí?
ELA: Na cozinha. Vou lá pegar.

Ele impediu com um gesto.

ELE: Não precisa.

Ela sorriu.
Outro estalo.
Agora vinha do corpo dos dois. Juntos.
A luz que entrava pela janela iluminava os dois corpos sobre a cama.
Estava escuro. Não era possível enxergar o caminho.
Nenhum deles.
Não era possível ser preciso. Nem preciso.
Estavam perdidos.