segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre o entendimento ou Como encontrar um retorno?

O carro está parado e desligado. Ela está sentada no lugar do motorista, ele no banco do carona.

ELE: Tenho que ir.
ELA: Tem certeza?
ELE: Acho que a gente tá num ponto sem volta.

Ele solta o cinto de segurança. Ela desvia o olhar. Tenta se ajeitar, mas o banco não ajuda. Tampouco o cinto. Encontra com o olhar o retrovisor e permanece olhando fixamente por ele. Tenta ver alguma coisa que não consegue enxergar.

ELA: Como eu faço pra sair daqui?
ELE: Segue em frente. No fim da rua, tem um retorno.

Ele não sai do carro. Ela não liga o carro. Parece um impasse.

ELE: Você consegue ver pra onde a gente vai?
ELA: Não sei.

Ela decide ir embora. Está sufocada, precisa sair daquele lugar. Tenta ligar o carro, mas o carro não liga. Ele ignora a tentativa dela de ligar o carro.

ELE: Pois é. Também não sei.
ELA: Não quero que acabe.
ELE: Nem eu. Mas acho que você não tá pra valer.
ELA: Como assim?
ELE: Acho que a gente podia ir adiante, mas não vejo você abrir mão de nada.
ELA: Como?
ELE: Desculpa, vou reformular. Acho que você podia abrir de algumas coisas.

Ela olha pra ele. Pensa o que ele deve estar sentindo. Tenta adivinhar. Sente que o esforço é em vão. Fala, bastante incisiva.

ELA: Mas eu já abro mão de muita coisa. Pode ter certeza.

Silêncio.

ELE: Não quis te ofender.
ELA: Sei que não.
ELE: Tô falando sério.
ELA: Eu sei.
ELE: Quero voltar.
ELA: Eu também.
ELE: Mas vai ter que ser diferente.
ELA: Eu sei.
ELE: Tudo. Completamente.
ELA: Completamente diferente é ódio. Não quero te odiar.

Silêncio.

ELE: Sabe que eu não falei isso.
ELA: Você disse completamente diferente.
ELE: Eu sei. Mas você sabe o que quero dizer.

Ela não sabe. Não faz a mais vaga ideia. Pensa consigo o que seria diferente. Amar mais parece impossível. Mais dedicação, também. Não sabe o que ele quer dizer. Nem o que sentir. Não sabe amar mais. Também não sabe amar menos.

ELE: Você entende o que quero te dizer?
ELA: Entendo.

Não, ela não entende.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Por uma boa higiene bucal


Ela abriu os olhos. Sem muitas imagens poéticas sobre o acordar e levantar da cama de uma mulher que habitasse as páginas da literatura, foi até o banheiro e, desviando do espelho, entrou no banho. Terminado, saiu do box desviando mais uma vez do espelho e foi em direção ao quarto, fugindo do outro também. Vestiu-se e foi comer alguma coisa. Como não havia nada que lhe interessasse na geladeira, tomou um gole da coca-cola aberta na porta. Voltou ao quarto, sempre tomando cuidado. Arrumou tudo. Estava quase pronta. Foi então escovar os dentes. Entrou no banheiro, cabeça baixa, sem levantar os olhos. Pegou a escova e passou a pasta. Foi só aí que, suavemente, ergueu o rosto e encarou o espelho ao mesmo tempo em que colocava a escova na boca. Mecanicamente começou o processo e a espuma se formou na boca. Os olhos travados. Corpo travado. Todo. Era aquilo que havia evitado até aquele momento: não queria ver o próprio rosto. Os olhos fundos indicavam sua tristeza. O vermelho não negava o choro óbvio. Não parava a escovação, mas começou a pensar em tudo, tudo que não queria pensar, que havia evitado pensar na noite anterior, que havia evitado pensar naquela manhã. Pensou nele e quase chorou. Mas não, permaneceu escovando. Lembrou do dia anterior, dele e da despedida. Lembrou que fins são sempre trágicos. Alguns dizem que pode ser cômico e ela até concordaria, não fosse com ela. Lembrou que sentira muita raiva no dia anterior e que sentia raiva naquele instante e que, ainda que não estivesse escovando os dentes, estaria com a boca cheia de espuma. Raiva: passou a escovar com força. Raiva dele, do fim. Não dava pra pensar muito com a escova na mão e a língua anestesiada pelo creme dental. Pensou nisso. E teve raiva outra vez. Dele, do fim, do creme dental, daquela rotina maldita. Levantar, tomar banho, comer, vestir uma roupa comportada, escovar os dentes e ir trabalhar. Trabalhar, comer de três em três horas, escovar os dentes após as refeições. Estava cansada. Antes e agora. Ele não tinha motivos pra ir. Mas disse que se sentia preso. Que a rotina o aprisionava. Não queria aquilo. Ela sentia a rotina, não gostava da rotina, mas gostava dele. Lutaria contra qualquer coisa. Ele não. Ela terminou de escovar os dentes. Cuspiu, enxaguou a boca, bochechou o liquido colorido que estava na estante, lavou a escova e guardou tudo no armário. Levantou a cabeça e olhou no espelho mais uma vez, encarando a si mesma. Estava pronta. Não completamente, é claro. Sentia raiva. Dele, do fim, do creme dental, da rotina, de tudo. Inclusive, da quebra da maldita rotina. No dia anterior, quando ele quis acabar com tudo, acabou com ela. Não, não estava pronta. Abriu o armário novamente, pegou a escova e o creme dental. E começou tudo outra vez.


domingo, 20 de novembro de 2011

Vinho e cebolas


ELE e ELA estão na cozinha. Sobre o balcão, duas taças de vinho e um prato vazio.
ELE está cortando uma cebola.

ELE: Corta a cebola ao meio. Depois, vai cortando em fatias bem finas. Muito finas mesmo.
ELA: Tô vendo.
ELE: Aí, você coloca no forno com as outras coisas.
ELA: Ingredientes.
ELE: Isso.

ELA ri.

ELE: Não sou apresentador de tv. Eles é que chamam comida de ingrediente.
ELA: Não importa. Gostei do prato.
ELE: Pega mais vinho?

ELA faz que sim com a cabeça.
Enquanto ELE fala, ELA vai até a garrafa e enche as duas taças.

ELE: O tomate vai por último. Por cima, sal, pimenta e azeite. Três horas no forno.
ELA: Isso tudo?
ELE: Pra cozinhar a batata.
ELA: Entendi.

Silêncio.

ELA: Vi você cortando aquele monte de cebola...
ELE: E?
ELA: Você não chora, né?
ELE: Nunca.
ELA: Queria ser assim.
ELE: Eu não.

Silêncio.

ELA: Gosto de você.
ELE: Eu sei.

Silêncio.
ELA bebe num gole só seu vinho. Depois, enche a taça outra vez.

ELA: Eu sei... Legal...
ELE: Não fica chateada, tá?
ELA: Por que ficaria?

Silêncio.
ELA toma seu vinho num gole só, de novo.

ELE: Não sei lidar com isso. Corto cebola com a mesma destreza com que parto corações. Gosto de beber bons vinhos e sair com mulheres bonitas, como você. Sei tocar violão e fazer comida, nada muito distante disso.
ELA: Só queria que você soubesse que me importo com você.
ELE: Não. Você queria que eu tivesse algum tipo de dívida com você.

ELA joga a taça nele, mas não acerta. A taça bate no chão e quebra.

ELA: Você é um idiota.
ELE: Sorte que você tava servindo o vinho, não cortando cebolas. Podia ser uma faca.
ELA: Sorte eu não estar removendo minas terrestres.
ELE: O que eu queria que você entendesse é que não quero e não preciso de nada disso. Trouxe você pela companhia. Mais do que isso, prefiro a solidão. Pra roubar meu tempo, tenho o trabalho; pra sugar minha alma, tenho família.
ELA: Eu só disse que gostava de você.
ELE: E eu disse que sabia. Você que se ofendeu com isso.
ELA: Queria partilhar o que tô sentindo.
ELE: Não. Queria marcar um território e ter certeza que alguém gosta de você.
ELA: É sempre bom.
ELE: Aí é que tá: esse problema é seu, não meu. Você me culpa por coisas que não tem nada a ver comigo.
ELA: Não. Tô te culpando porque você é um idiota.


"Vinho e cebolas" foi publicado em  Diários Gastronômicos . 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O almoço


PAI e FILHO estão na sala de jantar.

PAI: Olha o que eu trouxe de você!
FILHO: O que é?
PAI: Adivinha.
FILHO: Não sei.
PAI: Adivinha.
FILHO: Não sei, pai.
PAI: Chuta, então.

O filho pensa o quanto seria divertido, prato na mesa, dar um belo chute naquilo tudo. Imagina uma coxa de frango voando em câmera lenta, enquanto grãos de arroz se espalham pela mesa, envoltos no caldo do feijão.

FILHO: Frango.
PAI: Com...
FILHO: Não sei, pai. Dá logo a comida.
PAI: Poxa... estragando a brincadeira, hein? É arroz, feijão, frango e purê.

Silêncio.
O filho não aparenta nenhum sinal de empolgação.

PAI: Sua comida favorita, não?
FILHO: É.

O filho responde sem muita firmeza. Apenas concorda, como querendo encerrar definitivamente aquele assunto.

PAI: Sua mãe sempre fazia.

Silêncio.

PAI: Come pra não esfriar.

Após o pai quebrar o silêncio, o filho pega o garfo. Mas não começa a comer imediatamente. Ele observa os talheres por um tempo. Inclina-os para ver o reflexo da luz que vem do teto da sala de jantar. Depois de algum tempo, leva a primeira garfada a boca.

FILHO: Está ótimo.

O pai sorri. Mas o filho não está comendo.

PAI: Gostou mesmo?
FILHO: Tá ótimo, pai.

O filho, porém, não consegue engolir. Nem sentir gosto de nada. Mastiga. Nada. Mastiga, mastiga, mastiga e nada. Não desce. Tenta colocar mais uma garfada, mas a comida não desce. Bebe um pouco de água e coloca mais uma garfada na boca. Nada. O pai olha. O filho está numa espécie de transe, mastigando. A comida não desce. Ele olha pro pedaço de frango, é uma coxa, e imagina o frango perneta voando. Sente vontade de rir, mas a boca está cheia de comida. Mas fala.

FILHO: Pai, como pode um frango perneta voar?

O pai não entende, o filho ri. A boca está cheia de comida, nada desce, mas ele insiste na combinação água e nova garfada. E ri. O pai, observando aquilo tudo, ri também.

FILHO: A falta de uma coxa afeta o vôo do frango?

O pai ri mais uma vez. O filho coloca mais comida dentro da boca. Mais água. E mais comida.

FILHO: Mas, afinal, o frango, mesmo com todas as suas coxas, pode voar?

O pai já não acha muita graça. Mantém apenas o sorriso armado. O filho leva mais uma vez o garfo a boca. Esta cada vez mais cheia. Não consegue engolir nada, desde o início da refeição. Tenta mais um pouco de água. Não funciona.

FILHO: Aliás, essa coxa é de frango ou de galinha?

O maxilar dói. Há muita comida dentro da boca. Não há mais água. O pai não consegue mais reagir. O silêncio só não é completo pelo barulho da mastigação. O filho não aguenta mais: cospe toda aquela massa disforme sobre a mesa.

FILHO: Por que a mamãe não está mais aqui?


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ela tinha razão


ELE está no sofá.
ELA chega.

ELA: Vamos dormir?
ELE: Daqui a pouco, tá? Tô terminando de ver o jogo.
ELA: Mas você já não viu?
ELE: É outro.
ELA: Outro?
ELE: É.

ELA olha para a televisão.

ELA: Isso não é futebol.
ELE: É futebol americano.
ELA: Futebol americano?
ELE: É, amor.
ELA: E você entende isso?
ELE: Que isso, amorzinho?
ELA: Você me odeia.
ELE: Oi?
ELA: É, odeia, tenho certeza. Prefere qualquer coisa a mim. Prefere assistir a esse jogo esquisito. Você me odeia!
ELE: Para com isso, minha linda...
ELA: E tá me achando gorda.
ELE: Não tô, princesa.
ELA: Claro que tá. Você preferia que eu dormisse aqui no sofá, né? Tô cada dia mais gorda, não é isso que você acha? Aquela cama de solteiro, eu desse tamanho, você todo espremido, me odiando o tempo todo...
ELE: Meu amor...
ELA: Odeia quando eu venho pra cá, porque eu invado seu espaço, porque não paro de comer, porque eu fico falando o tempo todo, porque eu pergunto tudo e não deixo você prestar atenção em outras coisas, porque só falo na hora dos programas e fico quieta no intervalo. Você me odeia. Sua vida ia ser muito melhor sem mim.

Silêncio.

ELA: Não vai falar nada?
ELE: Vou: você tem razão. Em tudo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fale somente o indispensável


Dentro de um ônibus, ela está sentada em um banco. Não importa qual. Ele entra e, ao passar pela roleta, vê uma mulher sentada. Sente um frio na espinha. Quando ela percebe a entrada dele, congela. Desvia o olhar, esperando que ele não perceba sua presença ali. Tarde demais: ele vai em direção ao banco onde ela está, fazendo-a olhar pela janela, numa tentativa de ignorar a aproximação dele.
- Oi.
- Oi...
- Queria te dizer algumas coisas.
Ele senta ao lado dela. Ela tenta resistir.
- Mas não quero que você me interrompa. É só um pedido.
Silêncio.
- Quero te pedir hoje pra me deixar sair da sua vida. É, normalmente, espera-se que alguém peça pra não ser abandonado. Eu quero que você me deixe sair da sua vida. Eu só sei viver sem você. Você me consumiu, sugou minha alma durante a nossa relação. Hoje, vivo muito feliz. E, ainda que eu esteja triste, sempre estou mais feliz do que quando estávamos juntos. Não tem um dia em que eu não pense nisso. Sou muito mais feliz sem você. E você acha que fazer esse tipo barato de terrorismo psicológico faz de você uma vingadora das mulheres oprimidas. Desculpa, não faz. Isso só te faz idiota. Não, não te faz infantil. É realmente idiota. As mulheres oprimidas deveriam se envergonhar de você. Das suas ações e dos papeis aos quais você se presta. Mas, convenhamos, isso é um problema seu, não é? Seu e das mulheres oprimidas. Você nunca foi genial. Não vai ser agora, em meio a esse surto, que vai se tornar. Concorda comigo? Só acho que você devia procurar ajuda. Mas isso é só a minha opinião. Deixa eu ficar completamente fora da sua vida. Arruma alguém que te aguente, que suporte esses seus problemas. Sua vida vai ser muito melhor. Isso, sem parar pra pensar na minha. Lá atrás, quando tudo isso começou, ou deveria ter acabado, você disse que eu não prestava, que estava te abandonando, quando, na verdade, você quis acabar com tudo. Acabou e você resolveu me transformar em um monstro. Tá certo, aceito o papel. Mas, porra, por que você não me ignora, esquece de mim, sei lá, qualquer coisa? Me joga no esquecimento. Vou te pedir, em nome da sua sanidade, antes que você fique completamente louca, antes que você precise de internação, porque acho que já precisa de remédios, deixa eu sair da sua vida. Você quis que eu saísse. Deixa eu cumprir sua vontade. Em paz.
Ela abaixa a cabeça. Todos ao redor observam a cena, incrédulos. Faz-se um silêncio profundo. É quando um sinal sonoro o faz despertar. A cobradora pede que ele passe logo pela roleta. Ele olha para a cobradora, passa e olha novamente pelo corredor.
Ela está lá, sentada no banco. Ele caminha até um banco ao lado dela e senta. A partir daí, tem início mais um silêncio interminável. Ela tenta manter os olhos na janela, enquanto ele olha fixamente na direção dela, como em uma provocação. É quando percebe seu destino. 
Ele levanta e toca a campainha. O ônibus para e ele desce. Sem olhar para trás.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sobre joelhos e corações ralados


Duas meninas de cinco anos correm pelo jardim. Uma delas tropeça e cai, ralando o joelho.

UMA: Droga!
OUTRA: Puxa!
UMA: Tá sangrando.
OUTRA: Sorte a sua.
UMA: Por quê?
OUTRA: Minha mãe disse no telefone pra minha tia, noutro dia, que tava com o coração sangrando.
UMA: E como é que é isso?
OUTRA: Não sei. Mas deve ser ruim, né?
UMA: Ah, mas no joelho é bem ruim. Olha como tá.
OUTRA: Tá bem feio mesmo.
UMA: Não consigo nem dobrar direito.
OUTRA: Mas, pelo menos, é no joelho.
UMA: Como assim?
OUTRA: No coração não dá pra ver. Pode ser bem pior.
UMA: Pior que isso?
OUTRA: Sei lá. Não dá pra ver. Você não fica angustiada?

Silêncio.

UMA: O que é angustiada?
OUTRA: Não sei. Minha falou no telefone com minha tia que tava angustiada.
UMA: Por quê?
OUTRA: Por causa do sangramento no coração.
UMA: Mas como é que isso?
OUTRA: Não sei. Deve ter alguma coisa a ver com o sangramento. Você não tá angustiada?
UMA: Não sei. Tô?
OUTRA: Acho que tá. Deve estar, né?
UMA: Acho que tô ficando.
OUTRA: E como é?
UMA: Não sei explicar.

Silêncio.
A menina que ralou o joelho fica encarando o ferimento.

OUTRA: Tô preocupada com você.
UMA: Por quê?
OUTRA: Minha disse, no telefone com minha tia, que tava com o coração sangrando e tão angustiada que achava que ia morrer. Você acha que vai morrer?
UMA: Não sei.
OUTRA: O que a gente faz?
UMA: Eu não quero morrer!
OUTRA: Eu também não quero que você morra...
UMA: Mas tô angustiada e meu joelho tá sangrando...
OUTRA: Não é o coração.
UMA: Poxa, é meu joelho! Você já machucou o joelho?
OUTRA: Já. Dói muito!
UMA: Você acha que o coração dói assim? Duvido!
OUTRA: Tem razão.
UMA: Não sinto que vou morrer. Mas, meu caso deve ser muito grave...
OUTRA: Será que existe um transplante de joelho?
UMA: Não sei.
OUTRA: Mas a gente precisa fazer alguma coisa!
UMA: Não sei o que fazer...

Silêncio.
A outra menina sai correndo pra dentro de casa.

OUTRA: (gritando) Eu já sei! Eu tenho a cura!

A menina machucada fica no chão do jardim, esperando a outra voltar. A outra menina volta com um vidrinho na mão.

OUTRA: Escuta: pode doer, mas você tem que ser forte.
UMA: Tá.
OUTRA: Acho que só isso pode te salvar. É mertiolate.

A outra menina passa o mertiolate no joelho da menina machucada. Ela faz uma cara feia, mas, aparentemente, melhora. Apoiada na outra, consegue levantar.

OUTRA: Tá melhor?
UMA: Tô.
OUTRA: Impressionante.
UMA: Você devia dar o mertiolate pra sua mãe.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O dia em que a banda esquisita de Seattle regeu 40 mil vozes





Queria poder agradecer pelo que o Pearl Jam representa. Não acho possível.
É, eu gosto de grunge. Gosto da guitarra distorcida, suja, das letras depressivas e do sotaque tosco das bandas de Seatlle. Mas, não, não ando vestido de roupa xadrez nem tenho cabelo comprido. Os anos 1990 já se foram: é domingo, 2011, estamos no Sabódromo. Eu e mais uns 40 mil.
Eles, vinte anos na estrada, ainda estão aí. Não importa se mais velhos. A voz do Eddie está cada vez mais rouca, ele já não sobe mais nas grades nem pula do palco: a idade chega.
Mas a relação com o público não muda. A dedicação e a doçura permanecem. Você olha pros caras e pensa o quanto eles gostam do que fazem. Aí, algum mal-humorado vai dizer que ganham bem, são famosos e deveriam estar sempre felizes. Conheço um monte de gente que odeia o que faz. E odeia a todos em volta.
A verdade inexorável é que há uma energia inexplicável naquele palco e isso contagia a quem vê. Esse é só o primeiro passo para a construção da relação com o público. Quem olha tudo isso, faz disso seu alimento. O que segue é um fervor quase religioso da plateia, cantando em uma só voz: a voz do desajuste.
No fundo, é isso. O Pearl Jam está sempre lá pra nos mostrar o lado mais escuro e sombrio da nossa alma e o nosso desajuste constante, seja na forma de um garoto qualquer, de quem foi abandonado, explorando as relações disfuncionais ou de alguém que simplesmente não consegue encontrar alguém melhor. No fim, tira você disso tudo dizendo que tá tudo errado, que tudo quase sempre dá errado, mas você está vivo. E é isso que importa.
Não acredito que isso baste, mas obrigado, Pearl Jam. Muito obrigado.

domingo, 6 de novembro de 2011

Caminho de volta

ELE e ELA estão sentados em um banco, em frente a praia.

ELA: Acho que tô começando a acreditar nas coisas que você me diz.
ELE: Isso é uma coisa boa.
ELA: É isso.
ELE: O quê?
ELA: Eu acredito.
ELE: Que bom.
ELA: Também acho. Mas, também não acho.
ELE: Não entendi.
ELA: E o que vai ser depois?
ELE: Depois é o depois.
ELA: Depois é o depois?
ELE: É. Só resta ele.
ELA: Simples assim?
ELE: Simples assim.
ELA: É...
ELE: Ou, então, a gente pode ficar chorando pelos cantos, lamentando a nossa própria incompetência, ou cheirar cocaína, ou ficar assistindo televisão e comendo chocolate, ou ter câncer, ou cometer suicídio. Como você vê, temos várias opções. Mas, ainda acho que a melhor delas é aproveitar os momentos felizes.
ELA: Queria te dizer uma coisa.
ELE: Diga.
ELA: Talvez seja melhor não.
ELE: Talvez seja melhor sim.
ELA: Depois te digo.
ELE: Diz agora.
ELA: Deixa pra lá, não é nada importante.
ELE: Então, diz agora.
ELA: Depois. Depois eu digo.
ELE: Tá certo.

Silêncio.

ELA: Amo você.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O beijo


ELA: Você não me ama mais?
ELE: Não sei.
ELA: Nem um pouquinho?
ELE: Não sei.
ELA: E como é que faz pra saber?
ELE: Não sei.

ELA beija ELE.

ELA: E agora?
ELE: Não sei.
ELA: Me desculpa.
ELE: Tudo bem.
ELA: Pelo beijo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Eu não devia ter feito isso.
ELE: Tudo bem.
ELA: Tudo bem, tudo bem...
ELE: Tudo bem.
ELA: Fala outra coisa!
ELE: Outra coisa.
ELA: Você sempre soube ser desagradável quando quis.
ELE: E, às vezes, eu conseguia ser desagradável mesmo sem querer.
ELA: Você sempre foi um cara muito inteligente.
ELE: O que você quer que eu diga?
ELA: Sei lá, diz que me odeia.
ELE: Te odeio.
ELA: Odeia mesmo?
ELE: Não sei. Odeio mesmo?
ELA: Você tá me perguntando?
ELE: Tô.
ELA: Por quê?
ELE: Como por quê? Você não mandou eu dizer que te odiava?
ELA: Você não me odeia?
ELE: Não sei! Mas, que merda!, eu não sei! Acaba logo com essa angústia e me diz o que você quer ouvir.
ELA: Eu quero ouvir alguma verdade!
ELE: Por exemplo?
ELA: A gente podia ter dado certo.
ELE: Também podia ter sido pior.
ELA: Pior do que foi?
ELE: Melhor do que foi?
ELA: Você acha que foi bom?
ELE: Não sei.
ELA: Não sei, não sei...
ELE: Droga! Pára com isso! Não sei e pronto.
ELA: Tá bem. Vou parar. É melhor eu ir embora.
ELE: Pra onde você vai?
ELA: Não é da sua conta.
ELE: Tem razão.
ELA: Eu sei.

Silêncio.

ELE: Sabe, desculpa por não retribuir o beijo.
ELA: Eu nem sei porque fiz aquilo.
ELE: Não tava com vontade?
ELA: Tava.
ELE: Então? Isso basta.
ELA: A primeira coisa que a gente aprende na vida é que não pode fazer tudo que tem vontade.
ELE: Mas não devia ser assim.
ELA: Então, bate um papo com Deus e pede pra ele criar o mundo de novo.
ELE: Você sabe que eu não acredito nessas coisas.
ELA: Esqueci.
ELE: Não esqueceu nada. Falou só pra provocar.
ELA: Tem razão.
ELE: Na verdade, o que eu acredito menos ainda é que se fosse possível recomeçar o mundo de novo, do zero, mesmo tendo a disposição a nossa experiência, faríamos tudo errado de novo, cometeriam todas as nossas mesmas falhas, teríamos todos os nossos mesmos defeitos, todos os nossos mesmos desvios.

Silêncio.

ELE: Eu não consegui retribuir o seu beijo.
ELA: Eu percebi.
ELE: Não, não era isso que eu queria dizer.
ELA: Então, o quê?
ELE: É simples: o problema é comigo. Não tem nada a ver com você.
ELA: Você é muito cretino.
ELE: Cretino...
ELA: Eu vou embora.

Silêncio.
ELA vai em direção a porta.
ELE não impede.
ELA para, em frente a porta.

ELA: Se você voltasse, eu te aceitava.