domingo, 30 de outubro de 2011

As Cinzas de I Know it's Over

ELE: Alô?
ELA: Alô?
ELE: Oi, sou eu...
ELA: Oi... tudo bem?
ELE: Tudo, tudo bem... e você?
ELA: Tô bem.

Pequena pausa.

ELE: Certo... escuta, eu liguei pra saber se eu posso passar aí pra pegar as minhas coisas...
ELA: Passar aqui? Hoje?
ELE: É, eu pensei em passar aí no fim da tarde.
ELA: Pegar o quê?
ELE: Nada importante... só uma coisa minha que eu deixei aí...
ELA: Ah, hoje não vai dar...
ELE: Ah, não... e amanhã?
ELA: Amanhã também não.
ELE: Também não?
ELA: Não, amanhã também não dá.
ELE: Ok. Que tal na segunda?
ELA: Não dá, eu tenho dentista.
ELE: O dia todo?
ELA: É.

Pausa.

ELA: Alguma coisa importante?
ELE: Não, é que eu tava a fim de ouvir o meu disco dos Smiths que eu deixei aí.
ELA: Ah, o meu disco dos Smiths?
ELE: Como seu?
ELA: Meu sim.
ELE: Não, não.
ELA: Sim, sim.
ELE: Cê tá maluca?!
ELA: Quê?!
ELE: Esse disco é meu, foi você que me deu, no nosso primeiro aniversário, não lembra?
ELA: Não, não. Esse disco é nosso. Eu comprei pra nós dois.
ELE: Claro que não! Olha, eu não vou nem discutir isso com você. Presta atenção: você me deu esse disco!
ELA: Presta atenção você: esse disco é nosso! Por que você é sempre assim, hein? Nunca vai crescer? Daqui a pouco vai chamar a mamãezinha pra brigar comigo e mandar eu devolver o disco... Vê se cresce um pouco!

Pausa.

ELA: Alô?
ELE: Oi...
ELA: Nada, só queria saber se você ainda tava aí.
ELE: Tô sim. Já terminou?
ELA: Por enquanto, sim.

Pequena pausa.

ELE: Como é que tá tudo?
ELA: Ah, tá tudo ótimo. Hoje mesmo eu vou sair com umas amigas, vamos pruma boate. Muita diversão, até o sol nascer.
ELE: Ah, legal. É isso aí. Diversão.

Pequena pausa.

ELA: E você? Como é que tá?
ELE: Ah, eu tô ótimo também. É muito bom não ter responsabilidade, não ter que dar satisfação a ninguém, é ótimo! Eu hoje vou sair também...
ELA: Ah é? De repente a gente até se esbarra...
ELE: Não...
ELA: Não?
ELE: Não... não, é que eu vou numa festa particular...
ELA: Ah...
ELE: É.
ELA: De quem é a festa? É de alguém da minha época? Às vezes eu conheço...
ELE: Não. Não é de ninguém que você conheça. É do... é do... Jorge. É do Jorge. Despedida de solteiro do Jorge.
ELA: Do Jorge da Clara?
ELE: Não! Não... é do Jorge da... da... Luciana. Você não conhece, é do meu novo emprego, da equipe de criação...
ELA: Ah...
ELE: É... despedida de solteiro, sabe como é, né?
ELA: É, sei...

Pausa.

ELE: E aí, tem conhecido gente interessante?
ELA: É... umas pessoas aí...
ELE: Ah... legal. Isso é legal. Eu torço muito pra você achar alguém legal.
ELA: Brigada.
ELE: É sério, de coração.
ELA: Não se preocupa, eu sei...

Pequena pausa.

ELA: Eu conheci um cara no outro dia...
ELE: Ah, é? Que legal...
ELA: É... ele parece ser gente fina...
ELE: Como é que é o nome dele?
ELA: O nome?
ELE: É, o nome. Ele tem um, né?
ELA: Claro.

Pequena pausa.

ELA: Paulo.
ELE: Paulo, legal.
ELA: É.
ELE: E o Paulo faz o quê?
ELA: Ele... é bancário.
ELE: Pô, legal, hein?
ELA: É, legal...
ELE: Ele trabalha em qual agência?
ELA: Quem?
ELE: O Paulo.
ELA: Ah, lógico, ele trabalha... Por que você quer saber?
ELE: Não... por nada, é só curiosidade... nada demais...
ELA: Ah, tá... você não conhece ele não...
ELE: Tá...

Pequena pausa.

ELA: E você? Aposto que tá pegando todas...
ELE: Nada...
ELA: Tá namorando?
ELE: Não. Tô curtindo minha solteirice...
ELA: Ah...

Pausa.

ELA: Eu tava pensando... vou fazer o seguinte: vou fazer uma cópia do disco, agora, antes de sair, e deixo lá na portaria pra você. Aí você passa aqui na hora que quiser e pega...
ELE: Cópia?! Como cópia?
ELA: Cópia, cópia, ué. Vou fazer uma cópia do disco pra você e aí você pega aqui na portaria...
ELE: Eu não quero porra de cópia nenhuma!
ELA: Que isso... calma, não precisa ficar alterado, eu só tô tentando achar uma solução...
ELE: Não tem essa de cópia! Você me deu, o disco é meu! Eu quero o meu disco!
ELA: Olha aqui, pra falar a verdade, esse disco é muito mais meu do que seu.
ELE: Quem disse isso?
ELA: Eu tô dizendo. Eu ouvi esse disco muito mais que você, você quase não ouvia ele.
ELE: É claro que eu não ouvia sempre, a minha tolerância a voz do Morrisey tem limite. E só porque você ouve o disco mais que eu, o disco é seu?
ELA: Claro!

Pequena pausa.

ELE: O disco é meu e não tem papo!
ELA: Por acaso você agora virou gay?
ELE: Gay?
ELA: É, gay.
ELE: Cê tá maluca?!
ELA: Sei lá, essa vontade incontrolável de ouvir Morrisey...
ELE: Eu não quero ouvir Morrisey, eu quero ouvir Smiths!
ELA: “and if you are so very entertaining, why are you on your own tonight?”
ELE: Cala a sua boca!
ELA: Nossa, você tá agressivo, hein?
ELE: Agressivo? Você que acha eu tô sendo agressivo? Só tô te tratando como você merece...
ELA: Você devia falar assim com a vadia da tua mãe!
ELE: Não fala da minha...
ELA: Ouviu bem: vadia!
ELE: Não fala da minha mãe!
ELA: Aquela... aquela... ainda deve ficar fazendo a tua cabeça contra mim...
ELE: Ela não...
ELA: Puta velha, não deve ter mais nada pra fazer...
ELE: Ela não tem nada a ver com isso!
ELA: Desgraçada!
ELE: Olha, você tá precisando de ajuda.
ELA: Eu não preciso de ajuda, eu preciso de um AR-15 e licença pra matar!

Pequena pausa.

ELE: O que a minha mãe tem a ver com o fato de eu querer o meu disco dos Smiths?
ELA: A sua mãe sempre me odiou.
ELE: É claro que ela nunca gostou de você...
ELA: Como “claro”?
ELE: Claro, você sempre foi arrogante...
ELA: Arrogante?!
ELE: ... metida...
ELA: Metida?!
ELE: ... mal-humorada...
ELA: Mal-humorada?!
ELE: ... grossa...
ELA: Grossa?!
ELE: ... e um monte de outras coisas que eu levaria dias pra citar.
ELA: Quer dizer que eu sou tudo isso?
ELE: Tudo isso e muito mais! Aliás, eu nem sei como eu fui me interessar por você...
ELA: Mas eu sei: quando é que uma mulher linda e inteligente, como eu, ia dar mole prum babaca feito você? Hein?
ELE: Muitas mulheres deram mole pra mim, tá?
ELA: Mulheres como eu? Duvido.
ELE: Como você, não sei, mas, melhores, com certeza.
ELA: Ra, ra, ra... duvido. Aliás, eu devo ter sido a única mulher que você comeu sem ter que pagar antes.

Pequena pausa.

ELE: Pode acreditar que essas, as que eu tinha que pagar antes, sempre me saíram muito mais baratas que você. E tinham um custo-benefício muito melhor.
ELA: Ah, agora tá defendendo a classe da mamãezinha? Vai pro inferno, seu babaca!
ELE: Não, brigado, não tô afim de encontrar ninguém da sua família hoje.
ELA: Cala a boca! Seu idiota! Dobra sua língua pra falar da minha família! Só porque você foi criado na zona, não significa que todo mundo tem uma familia igual a sua não!
ELE: Olha, você tá descontrolada, é melhor eu desligar, depois a gente se fala...
ELA: Ah, você acha que eu tô descontrolada? Vou mostrar o que é descontrole pra você...
ELE: O quê... quê que se vai fazer?
ELA: Espera um instantinho.
ELE: Não vai se matar pra me deixar com remorso não, sua maluca! Porque eu não vou ficar com remorso! Entendeu? Não vou ficar com remorso! Não vou ficar!
ELA: Calma, não vou fazer nada disso...
ELE: O quê que se vai fazer?
ELA: Espera, tô pegando um isqueiro...
ELE: Isqueiro?
ELA: De que material é feito o disco mesmo?
ELE: Quê?!
ELA: Vinil?
ELE: Não!
ELA: O quê?
ELE: Não faz isso...
ELA: É vinil, não é? Você sabe se ele é inflamável?
ELE: Não faz isso, por favor!
ELA: O fogo é tão lindo, né?
ELE: Peraí, fala comigo... tá me ouvindo?
ELA: Tô...
ELE: Escuta: esse disco é uma raridade, não faz isso...
ELA: Você já viu um disco pegando fogo?
ELE: Por favor... não queima, por favor...
ELA: Você já viu um disco pegando fogo?
ELE: Não!
ELA: A fumaça é preta...
ELE: Não faz isso... por favor...
ELA: O cheiro me lembra alguma coisa que eu não sei bem...
ELE: Pára!
ELA: Não dá pra mudar o destino, meu bem...
ELE: Eu imploro se você quiser... não faz isso...

ELA desliga o telefone.

ELE: Alô? Alô?

A manhã

No quarto, ele acorda.
Ela observa, sentada em uma poltrona, perto da janela.

ELE: O que eu fiz?
ELA: Nada.
ELE: Nada?
ELA: Fizemos sexo ontem.
ELE: Isso eu sei.
ELA: Então?
ELE: Devo ter feito alguma merda.
ELA: Por que você acha?
ELE: Você tá aí, quieta, sentada, olhando pra mim.
ELA: Pode ser só amor.
ELE: Pode.
ELA: Tá chovendo lá fora.
ELE: Muito?
ELA: Acordei com o barulho.
ELE: Não ouvi.
ELA: Diminuiu.
ELE: E ficou aí?
ELA: Porque não dá mais pra mim.
ELE: Dormir comigo?
ELA: Ficar junto.
ELE: Entendi.
ELA: Com ninguém.
ELE: Entendi.
ELA: Entendeu?
ELE: Não.

Silêncio.

ELA: Queria que fosse possível.
ELE: ...
ELA: Mas você torna ainda mais difícil.
ELE: É?
ELA: Chegar bêbado aqui é só uma parte disso.
ELE: Desculpa.
ELA: Tá desculpado.
ELE: Podia ter me mandado embora.
ELA: Podia.
ELE: Mas?
ELA: Tava querendo fazer sexo.
ELE: Entendi.
ELA: É difícil conviver com alguém.
ELE: Sei.
ELA: Com manias. Tenho as minhas e já são muitas.
ELE: Sei.
ELA: Não quero dividir meu espaço. Menos ainda, meu tempo.
ELE: Sei.
ELA: Sabe?
ELE: Não.
ELA: Sou assim, meio problemática mesmo. Tenho dificuldade com intimidade.
ELE: Vou embora.
ELA: Tá certo.

Silêncio.
ELA olha.
ELE levanta, pega a roupa e caminha em direção a porta.

ELA: A verdade é que não quero mais ficar com você. Não tenho mais vontade. Achei melhor dizer que a culpa era minha, mas, no fundo, acho você um babaca. Não seria pedagógico. Mudei de ideia: é melhor você saber que eu sou muito legal e você que é um merda.

domingo, 23 de outubro de 2011

O menino e a menina trancados no quarto

ELA: Porque quando você me tocou, foi como se o chão saísse debaixo dos meus pés. É, eu sei que é clichê, mas.
ELE: Eu nunca tinha percebido que as paredes do seu quarto se moviam. E de repente, ele era grande. O seu quarto era imenso. E havia flores e havia sol e havia som. E alguém cantava uma canção.
ELA: E eu pensava que tava caindo, mas não caía. E não era o chão que saía debaixo de mim. Era eu que voava. E eu pensava que não. Que não, que eu não queria amar.
ELE: E nessa canção havia cordas e havia sopros e havia metais e havia percussão e havia todas as coisas. Porque era todas as coisas.
ELA: E quanto mais eu pensava que não queria amar, mais eu pensava que tava amando. Que era tarde demais. Ou cedo demais.
ELE: E as flores se despetalavam ao som daquela canção. E as pétalas caíam sobre mim. E as pétalas caíam a minha frente e eu caminhava pelo infinito sobre as pétalas das flores do teu quarto.
ELA: E eu pensava que não. E eu queria que não. Que não fosse. Como pode uma menina se apaixonar por um menino? Que futuro tem isso?
ELE: Não há futuro pras flores nem pro sol nem pras canções.
ELA: Não há nada nem nunca houve. Mas havia. E havia tudo. E havia tudo ao mesmo tempo.
ELE: E o sol refletia no fundo da sua retina, ainda que as cortinas estivessem fechadas. E as cortinas, de repente, pareciam velas de um barco. De um barco onde eu navegava. Onde navegávamos. Eu e você.
ELA: E eu tinha medo, porque sempre odiei barcos. E sempre odiei o sol e sempre odiei o vento. Mas que futuro pode ter isso, meu Deus?
ELE: E tudo era tão de repente, que, de repente, alguém do barco gritou que havia terra à vista. E todos queriam nadar, mas também queriam morrer na praia.
ELA: E o despertador tocava e o cachorro latia e vovô trazia doce de leite do sítio e era gol do Flamengo e o Brasil ganhava a Copa do Mundo e era São João e era todas as coisas e era todas as coisas ao mesmo tempo.

domingo, 9 de outubro de 2011

Esperando #2

Quando eu era pequeno gostava de admirar meus pais juntos. Era como se fossem sempre namorados, como se tivessem acabado de se conhecer. Ele sempre achava um jeito de demonstrar seu amor por ela. Era muito carinho, muito afeto, muito amor. Um amor que não existe mais hoje. Eles sempre andavam de mãos dadas. Ele também gostava de fazer serestas pra ela. É, é verdade. Ela ficava com um brilho no olhar. Devia se sentir a mulher mais feliz do mundo. E ela... ah, ela adorava cozinhar pra ele... Fazia sempre uma coisa diferente pra ele, alguma comida gostosa, daquelas que a gente come no domingo, com a família toda na mesa. (pausa) Você é advogada? Mesmo? Meu pai sempre quis que eu fosse advogado. Mas, eu fiz faculdade de economia. Odiei. Trabalho num banco. No Centro. Os seus olhos parecem com os dele. Meu pai morreu quando eu tinha 11 anos. Infarte. Tudo bem, não precisa se desculpar. Ele não valia nada mesmo. Um tremendo filho da puta. Desculpa a expressão. Mas ele era mesmo. Um tremendo filho da puta. Batia na minha mãe. Batia na minha mãe e tinha um caso com a minha tia. Não, com a irmã dela, não, com a irmã dele. Tinha um caso com a irmã dele. Bebia. Bebia muito. Um dia ele chegou em casa e deu uma surra na minha mãe. Eu vi tudo. Ele não percebeu que eu tava vendo. Achou que eu tava dormindo. Depois que ele cansou de bater na minha mãe, foi tomar um banho. Deve ter sido pra dar uma relaxada. Enquanto ele tomava banho, peguei veneno de rato na garagem e misturei na comida dele que tava guardada no forno. Fiquei olhando tudo escondido. Ele comeu a comida toda. Devia estar com fome. Quando terminou e foi levantar, caiu no chão e ficou se contorcendo. Minha mãe encontrou ele morto no dia seguinte, no chão da cozinha. Os médicos disseram que foi infarte. Sabe como é, né?, pobre em hospital público...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Esperando

S.H.: Quando eu fiz 16 anos, meu pai me deu um poema. Ele sempre disse que não havia nada como um poema. Nada. Que era a sensação máxima da palavra. Se uma palavra beija o seu rosto, meu filho, ele dizia, você pode beijar a boca do Infinito. Como se a palavra fosse uma condição possível.