quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A mulher no casamento chuvoso


Chovia.
Havia uma moça. Estava de branco.
Olhos embaçados, afagos e tapinhas nas costas. Um monte de gente tentava se organizar, num caos aparente. E na organização do tumulto é que se tumultuava tudo ainda mais.
E a moça longe daquilo tudo. Esperando. Como nunca.
Odiava usar branco, mas concordara. E, novamente, deveria concordar. Estava realmente linda.
Ela terminava de se arrumar. Últimos ajustes. A espera. Prende a respiração, amarra tudo, aperta. Pincel e o desenho no rosto, como uma tela. Não, não havia pintores. Mas havia uma obra de arte. Era um clichê. Mas, afinal, era um casamento.
Chovia mais forte.
E, na chuva, chegavam os convidados. Cada vez mais. Mais tumultos, olhos e tapinhas. Sorrisos distribuídos na porta e por toda igreja.
A moça, que era a noiva, pensava naquilo tudo. Engraçado. Talvez não fosse a palavra exata, mas foi a que lhe veio a mente. Riu. Um riso meio débil. Pensou naquilo tudo e começou e pensar que se sentia de uma maneira estranha. Comentou com a mãe.
Não, não era nervosismo. Nem ansiedade. Não disse isso só pensou. Diante da resposta da mãe a sua angústia, riu novamente, o mesmo riso de antes, e ficou em silêncio.
Tinha certeza que não. Ao contrário. Queria estar nervosa. Era tão ansiosa sempre. Por que não naquele dia?
Não sabia. Sentia-se calma. Como nunca.
E como era ruim sentir-se daquele jeito. Sempre se imaginou enlouquecida no dia do casamento. Era como queria estar. Descontrolada. Como nunca.
Mas, ao contrário, estava calma. Estranhamente calma. Era como se não ligasse para aquilo tudo. Para todo aquele caos. E, de fato, era o que acontecia.
Indiferença.
A palavra a ser utilizada. Definia perfeitamente seu sentimento. Pensou nisso. Dessa vez, não sorriu. Sentir daquela forma estava longe de ser seu sonho. Sonhou tanto com o casamento. E agora?
Chovia ainda mais.
O tumulto crescia na igreja. As vozes se misturavam ao som da chuva, produzindo um efeito único. Ela não perceberia, quando chegasse.
Entrou no carro. Estava pronta. Em parte.
Os coadjuvantes se organizavam na entrada. O noivo suava um pouco. Sorrisos e olhos embaçados. Muitos.
O carro dobrou a esquina e chegou à igreja. Ela pensou mais uma vez. Ela não sorria. Saiu e, sob o guarda-chuva, caminhou até a porta.
As portas se abriram. Todos puderam vê-la.
Estava de branco. Como nunca.
Odiava usar branco, mas concordara. E, novamente, deveria concordar: estava linda. Foi quando ouviu o som dos violinos. Ia começar.
Estava triste. Como sempre.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O dia em que encontrou Lourenço Mutarelli


Era o final do ano. E no final do ano todos os lugares estão cheios.
Evitou os shoppings enquanto pode. Comprou presentes pela internet. Fez encomendas: a revendedora conhecida ficou em êxtase. A mãe e as tias ficariam depois.
Mas teve que encarar o monstro. Sempre resta alguma coisa. Sempre falta comprar aquele presente. Praquela pessoa. Presente que você não encontra em qualquer lugar. Pessoa chata.
Entrou no inferno.
Não foi de carro. Primeiro, o trânsito não andava. Segundo, nunca havia vagas. Terceiro, não dirigia. Depois do caos e do calor, chegou, afinal.
Ao entrar, teve uma sensação forte. Por que o ar condicionado não estava ligado? Foi até um segurança. Pensava no presente. Muita gente passando por ele. O segurança disse que estava enganado. Estava ligado.
Deixou o jovem de uniforme falando sozinho. Seguiu. Seu destino ficava no final do corredor. Pensava no final.
Passou, no caminho, por outro rapaz uniformizado. Perguntou. O rapaz pensou um pouco. Consultou o rádio. Não, não podia estar ligado. O rapaz discordou. Disse que estava muito cheio. O shopping. Ele também parecia estar.
Enquanto ele falava, pensou na temperatura do ambiente. E pensou que o jovem rapaz usando uniforme azul marinho era bem intencionado. Pensou também que de boas intenções o inferno estava cheio. O shopping também. Riu. O segurança não entendeu e ele foi adiante. Pelo corredor.
O cheiro do ambiente era pesado. O ar condicionado deve estar desligado, disse a uma menina no balcão de informações, um pouco antes da loja em que ia comprar o presente. Era bonita. Quando ela se virou para falar com a colega, os olhos dele acompanharam sua bunda. Pensou em um livro que tinha lido. Riu. De novo. E foi embora antes da resposta.
Chegou, enfim, a porta da loja. Não conseguiu avançar. Sentiu-se um Dante do século XXI. Sem musa alguma, no entanto. Parou.
Estava cheio demais. A loja também. O ar condicionado não funcionava. Ninguém estava muito preocupado com isso. Queriam comprar.
Foda-se o presente.
Foi tomar um café.
Entrou na cafeteria e sentou no banco perto do balcão. Pediu um espresso e reclamou do ar desligado. Olhou para o lado e viu um homem sentado. Percebeu que ele mexia a boca. Como se estivesse falando. Mesmo sem entender exatamente o que homem dizia, balançou a cabeça e sorriu concordando. 
Não conseguia pensar muito bem. O cheiro era forte. Estava com fome. Tanta fome que comeria um pedaço da parede.
Não comeu. O ar condicionado estava desligado. Todos pareciam ignorar tal fato. Ainda assim, não havia trauma suficiente.
Concentrou-se no café. Bebeu o espresso. Devagar. Estava quente. Como o resto.
O homem ao lado fez outro comentário. Não entendeu, mais uma vez. Mas percebeu que ele rabiscava alguma coisa no guardanapo. Talvez um desenho.
Acenou com a cabeça e quase sorriu. O garçom disse ao homem que tudo aquilo que estava acontecendo havia sido previsto. Tudo estava na embalagem do cigarro. Foi quando ele parou por um momento.
Olhou bem.
Parou o olhar no homem por um instante. Não podia ser.
Não, não podia ser.
O garçom se foi e ele fitou o homem sentado. Pensou no Lourenço Mutarelli. Parecia. Mas ele não estaria ali, ao seu lado. Olhou de novo.
Não.
Era uma época infernal. Ele não estaria ali.
Até que parecia.
Mas não podia ser. Personagens não são os autores. São invenções. Apenas. Que não existia isso. Pensou que era tudo idiotice sua. Devorara todos os livros dele. Conhecia desde os quadrinhos.
Não, não podia ser.
Olhou de novo pro que o homem rabiscava no guardanapo. Não conseguia enxergar. Não conseguia ouvir suas palavras.
Não, não podia ser.
Pensou em sua mulher. Ela havia dito qual era seu problema. Era tão criativo que se perdia em suas próprias fantasias. Talvez tivesse razão. O calor, a obsessão, o cheiro, o espresso, o pensamento sobre comer um pedaço da parede.
Sendo ou não, o homem cansou daquele cara esquisito ao seu lado. Deixou o dinheiro e o guardanapo sobre o balcão e foi. Ele resolveu ir também. Sem presente algum.
Foi quando ele conseguiu ver o que estava rabiscado.

Nada mais tenho a oferecer, senão a decifração da embalagem e histórias cada vez mais amargas.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O maço de cigarros


Uma mulher, bem velha, está sentada na varanda. O carteiro passa na calçada.

CARTEIRO: Oi.
VELHA: Olá.
CARTEIRO: Tudo bem?
VELHA: Cartas?
CARTEIRO: Nada pra senhora.
VELHA: Tem certeza?
CARTEIRO: Absoluta.
VELHA: Nem contas mais eu recebo!

Silêncio. O carteiro não sabe exatamente o que dizer.

CARTEIRO: Tem uma pro seu filho. Ele tá aí?
VELHA: Não.
CARTEIRO: Está viajando?
VELHA: Não.
CARTEIRO: No trabalho?
VELHA: Não. Por quê?
CARTEIRO: Por nada. Sempre tem carta pra ele, mas nunca sei quem é. Fica uma curiosidade.
VELHA: Ele saiu. Ainda não voltou.
CARTEIRO: Entendi.
VELHA: Você é muito curioso.

A velha acha o carteiro curioso demais. Mas não deixa de responder às perguntas dele.

CARTEIRO: É que eu gosto de ver as caras das cartas, sabe?
VELHA: Não.
CARTEIRO: Deve ser coisa de carteiro.
VELHA: Não sei, nunca entreguei cartas.
CARTEIRO: Gosto de imaginar os rostos quando entrego as cartas.

Silêncio.

CARTEIRO: Mas e seu filho?
VELHA: O que tem?
CARTEIRO: Nunca vi.
VELHA: E?
CARTEIRO: Ele mora aqui mesmo?
VELHA: Mora.
CARTEIRO: Mas sempre sai a essa hora, né?
VELHA: Você é da polícia?
CARTEIRO: Não.
VELHA: Então, não enche meu saco.

Silêncio.
O carteiro esboça um sorriso, como se tivesse sido uma brincadeira da velha. Não foi, mas ela ri como se tivesse sido.

CARTEIRO: E seu marido, não está?
VELHA: Não.
CARTEIRO: Saiu?
VELHA: Também.
CARTEIRO: Foi trabalhar?
VELHA: Olha a minha idade. Meu marido é aposentado.
CARTEIRO: Então, saiu por quê?

Era manhã de Natal e tudo era grande e alegre e eram presentes e era a correria das crianças. E ele foi comprar cigarro.

VELHA: Porque não é obrigado a ficar em casa só por ser aposentado.

Não foi ausência por um tempo: havia ainda uma imagem de relance no espelho.

CARTEIRO: Não quis dizer isso.
VELHA: Velhos também andam.
CARTEIRO: Eu sei, senhora. Não falei por mal.
VELHA: Às vezes até saem de casa, acredita?

Silêncio.

VELHA: Ele só foi comprar cigarros.

E a casa se tornou um imenso corredor vazio.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O ovo



Sentia que estava sendo cozido.

ELE: Tô com fome.

Ele disse alto, pra ela ouvir.
Abriu a geladeira e pegou um ovo na porta.

ELA: Vai comer agora?
ELE: Vou.

Ele respondeu com uma certa rispidez.
Era uma reação.
Não tinha certeza, era apenas uma sensação, mas achava que estava sendo cozido.

ELA: A gente precisa conversar.

Ela queria conversar.
Ele sabia o que significava aquilo.

ELE: Li num livro que quando alguém diz que precisa conversar é porque não tem nada mais a ser dito.

O fogo estava aceso. No fogão.

ELA: Eu gosto de você.
ELE: E?

A panela cheia de água estava sobre o queimador do fogão. O ovo, suspenso.

ELE: E?

Repetiu.
Mas o silêncio permaneceu.

ELA: Acho que a gente precisa ficar longe.

Soltou o ovo na panela. Um pouco de água caiu fora da panela e atingiu o queimador. Quase apagou o fogo que ainda estava aceso.

ELE: Por quê?

Silêncio.

ELA: Não sei. Mas acho que é melhor.
ELE: É muito bom saber que você tem argumentos sólidos.

Ela se irritou. Ele tampou a panela.

ELA: É isso, acho que a gente não tá se entendendo.
ELE: Claro que não, você quer ficar longe de mim e eu quero ficar perto de você. Estamos em um impasse.
ELA: Mas eu só quero ficar longe um pouco. Não é definitivo.

Silêncio.

ELA: A gente só precisa respirar. Precisa de espaço. Pensar.

Ele podia respirar bem, não achava que estava apertado e não precisava pensar.

ELE: Tem razão. Como você quiser.

A água fervia. O ovo chacoalhava levemente dentro da panela. Estava sendo cozido.


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"Sodade" no Mundo Mundano


Era um menino brincando no tapete da sala. No canto, em uma poltrona velha e confortável, estava sentada um homem igualmente velho. Em suas mãos, um charuto, e sua fumaça enchia a sala, marcada pelo sol de fim de tarde que entrava pela janela. Também cheio de som estava o ambiente: da vitrola saíam as palavras enroladas de uma mulher. O menino olhava para o avô e para a fumaça, hipnotizado pelo cenário. E perguntou:
- Vô, por que você tá ouvindo essa música chata?


O texto completo está no Mundo Mundano.

http://www.mundomundano.com.br/v1/?com=secao_conteudo&secao=3&conteudo=1723

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reflexões diante da estufa


Era uma estufa, em um bar qualquer do centro. Dentro dela, uma coxinha. O dia estava bastante quente e prometia uma chuva violenta no fim da tarde. As paredes de azulejo compunham o cenário em que a caixa de metal e vidro estava inserida.
Suado que estava, pegou um guardanapo e secou a testa. Pediu uma coca-cola e encarou a estufa. Duas sardinhas, cinco ovos coloridos, três lingüiças e uma coxinha. Permaneceu alguns segundos na dúvida. Olhou cada uma das coisas disponíveis. Parou na coxinha. Foi quando pensou nela.
O quanto poderia ser insólita aquela situação, ele não sabia. Nunca pensou em reconhecera mulher que amava uma coxinha. Ela nem gostava de salgado. Nem gostava, nem odiava. Ela e a coxinha viviam uma relação de indiferença.
Ele encarou a coxinha mais uma vez. Olhou com atenção, fixando-se em cada detalhe. Nada.
Pensou no formato. Ela até estava um pouco fora de forma, mas nada parecido com aquele formato. Seria o aspecto? Todo aquele óleo em que, aparentemente, havia sido banhada a coxinha não parecia com ela. É verdade que seu cabelo era bastante oleoso, mas achava não ser essa a questão. Estava ligeiramente perdido. Começava a ficar angustiado, não compreendendo aquilo tudo. Pensava e via uma coxinha.
Foi interrompido pelo balconista, que perguntou se comeria alguma coisa. Pediu uma coxinha.
Recebeu-a num guardanapo. Logo a gordura tomou. Ele até pensou, mas não, não tinha a ver com aquilo. Apertou de leve, sentindo a consistência. Era firme. Olhou mais uma vez. Demoradamente.
O sol continuava forte. Não havia vento. O ventilador, dentro do bar, era um mero artigo de decoração. O próprio bar era uma estufa. Nela, agora, estavam juntos: ele e a coxinha.
Ele pensava nela. Só via a coxinha, mas pensava nela. Os dois juntos, dentro de uma estufa. Não, não era isso. Afastou aquele pensamento e se concentrou no salgado e sua existência concreta. Fixou os olhos naquele monte de massa e frango a sua frente.
Mordeu, mastigou, engoliu. Não sentiu o gosto. Tentou de novo. Mordeu, mastigou. Dessa vez, devagar, bem devagar. Engoliu. Nada. Comeu a coxinha inteira e nada. Não havia sabor. Foi quando pensou nela de novo.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"O pedido" no Manufatura



ELE está em um bar.
ELA chega.

ELE: Tava preocupado.
ELA: Desculpa o atraso.
ELE: Não tem problema. Acabei de chegar.
ELA: Trouxe os papéis?
(...)



"O pedido" está lá no Manufatura .


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Sobre conhaque e morte


Dois homens estão em um boteco, sentados em uma mesa na calçada. Um deles pede um conhaque.

UM: Sabe de que é feito isso aqui?
OUTRO: Deveria ser a base de destilado de vinho.
UM: Não é?
OUTRO: É destilado de aguardente e gengibre.
UM: Nada de alcatrão?
OUTRO: Não. Alcatrão tá no seu cigarro.
UM: Entendi.
OUTRO: Por que o assunto?
UM: O mesmo que é usado naquele conhaque ali?
OUTRO: Cara, sei lá. Por que esse papo?
UM: Tô pensando em me matar.
OUTRO: Hã?!

O potencial suicida sorri.

UM: É.
OUTRO: Por quê?
UM: Pela experiência.

O colega de bar não acredita. Fica olhando pra ele por uns segundos, esperando uma gargalhada ou qualquer sinal de que aquilo não passa de uma brincadeira.

OUTRO: Você tá falando sério mesmo?
UM: Você acha que eu iria brincar com uma coisa dessas?

Alguém que estivesse assistindo aquela cena pensaria imediatamente que era hora de parar de beber.

UM: Dá pra eu me matar de tanto beber?
OUTRO: Acho que sim.
UM: Acha?
OUTRO: Você tá falando uma parada tipo Despedida em Las Vegas?
UM: Não tinha pensado nisso.
OUTRO: É cinema, mas acho que é possível sim.
UM: Mas é demorado. Queria uma coisa mais objetiva.
OUTRO: Por que isso, cara?
UM: É a experiência.
OUTRO: De morrer?
UM: É. Você já morreu?
OUTRO: Claro que não.
UM: É isso. Queria saber como é estar morto.
OUTRO: Por quê?
UM: Tô meio de saco cheio.
OUTRO: De quê?
UM: De tudo.
OUTRO: Como assim?
UM: Ah, sei lá. Viver tá meio chato. Sempre as mesmas coisas. Acordo, trabalho, volto pra casa. No fim de semana, saio. Como umas mulheres por aí. Não sei, sempre me parece a mesma coisa, o mesmo ritual que se repete na semana seguinte.

Silêncio.
O potencial suicida tem o rosto leve.
Seu amigo está chocado.

OUTRO: Então, é isso?
UM: É.
OUTRO: Por que não dar um tiro?
UM: Não gosto de armas. Muito menos de sangue.
OUTRO: Pular de um prédio?
UM: Não gosto de altura. Nem sangue. E fico pensando em morreu na contramão atrapalhando o tráfego. Não quero atrapalhar a vida de ninguém.

Os dois continuariam a conversa completamente insólita, mas um ônibus que vinha pela avenida perdeu o controle, subiu a calçada e acertou a mesa deles.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre a tolerância



Foi assim: estava sentada na sala de espera quando ele entrou pela porta. Usava um colete apertado, sem blusa alguma por baixo; uma bermuda, até o joelho, rasgada; uma sandália imunda; e, cruzada pro lado esquerdo do seu corpo, uma bolsa de pano, meio encardida. No peito, um cordão feito artesanalmente.
Aquele primeiro momento foi irreparável. Foi um choque. Recuperada, em parte, percebeu que ele vinha em sua direção. Foi quando se sentou ao seu lado.
Aquilo mexeu com ela mais uma vez. Sentiu o impacto daquela presença. Como ele poderia entrar ali, daquele jeito? Não percebera sua inconveniência em estar daquela forma? Achava incompreensível.
Ficou observando-o. Ele cruzou as pernas. Depois, abriu a bolsa e tirou de lá um sanduíche. Os olhos dela se arregalaram. Não acreditou. Desviou o olhar, tentou se ajeitar na cadeira. Não conseguiu: levantou-se e saiu andando. Tentou massagear as mãos, pra se acalmar.
Descontrolada, entrou no banheiro. Diante da pia, abriu a torneira e lavou o rosto. Olhou no espelho durante alguns segundos. Por que tudo aquilo estava acontecendo com ela?
Enxugou o rosto e pensou naquilo tudo mais uma vez. Não acreditava ser possível alguém se vestir e se comportar daquele jeito. Ela apenas queria ir ao médico. Andava nervosa, queria se consultar com um especialista. Mas e aquilo ali, agora? Como agir? Precisava de uma sessão de meditação urgente. Ou da instrutora de ioga, quem sabe.
Saiu do banheiro. Foi em direção a sala de espera de novo. Lá estava ele sentado, comendo seu sanduíche. Ela senta. Tenta se manter sob controle. Entretanto, essa não era uma realidade possível. Pouco a pouco, seus músculos iam enrijecendo. Estava tensa. Tinha vontade de espancar aquele sujeito ali mesmo, naquele instante. Levantou.
De pé, meio instável, caminhou até a janela. Estava fechada, mas chegou o rosto bem próximo ao vidro. Foi como se pudesse estar um pouco lá fora. Tentou puxar o ar, mas faltava. Voltou em direção a cadeira em que estava, mas não sentou. Passou por ela e foi em direção ao corredor. Baixinho, entoava um mantra.
Desistira da consulta. Aflita, correu para o elevador. Com a mão, impediu a porta de se fechar e entrou. Sentia-se um pouco melhor. O elevador desceu e, ao chegar ao térreo, ela saiu correndo dele em direção a rua. Enfim, respirou.
Estava livre de toda aquela opressão da sala de espera. Apesar disso, ainda restava um aperto no peito. Não sabia bem o que era. Pensava em cores calmas. Imaginou um quarto azul e respirou fundo.
Foi até a esquina e sentou em um café. Pensou. Tomou um chá. Queria se acalmar. Mas sempre esbarrava em um pensamento: e se ele voltasse? E se encontrasse com ele outra vez? E se, andando pela cidade, ou numa sala de espera qualquer, estivesse frente a frente com aquele ser, mais uma vez? Não aguentaria.
Pensou, então, na única solução possível: acabar com ele. Ajeitou o corpo na cadeira. Não lhe restava dúvida alguma. Era necessário eliminar aquele sujeito. Não podia perder a oportunidade de resolver a situação. Fixou o olhar na saída do prédio. E esperou.
Esperou até ver seu objeto de ataque. Atravessou a rua rapidamente e foi atrás dele. Discretamente, seguiu o jovem até a esquina. Sinal aberto, carros passando. Esperou o momento exato. Viu o sinal amarelo e o ônibus vindo. Percebeu a aceleração pra tentar cruzar antes do sinal fechar. Foi quando ela tropeçou suavemente, esbarrando nas costas dele. O corpo dele foi pra frente, chegando a rua. O ônibus não parou. O corpo dele ganhou o espaço.
Gritos ecoaram pela esquina. O corpo parou alguns metros a frente. Sob ele, sangue. Ninguém percebeu o que ela havia feito. Ninguém. Ela sorriu discretamente e olhou em volta, tentando ter certeza de seu segredo. Ligou para a emergência. Estava aliviada.
Ainda na esquina, ouviu quando alguém do lado disse que viu o garoto se atirar na direção do ônibus, que achava ser um suicida. Outra, no meio da confusão, dizia ser sensitiva e que aquilo havia sido um suicídio com certeza. Havia cumprido sua missão naquele dia. Ninguém seria mais incomodado por tamanha indelicadeza como o comportamento daquele jovem. Não encontraria mais aquele ser pela rua. Não mais. Estava em paz.


domingo, 11 de dezembro de 2011

O quereres






"Chico é perfeito. Caetano, pecador. Chico paira acima de nós, Caetano está ao nosso lado. Chico é irrepreensível, Caetano engana-se. Identificamo-nos com Caetano, mas todos gostaríamos de ser como Chico. Até o próprio Caetano." (Manuel Halpern)

Os quereres dela


Chovia. A porta da igreja estava cheia de gente, ainda naquela confusão pré-cerimônia.
Ela estava por ali. Naquele tumulto, procurava algum rosto conhecido. Olhou praquilo tudo em volta. Queria chorar discretamente. Mas não chorou. Olhou pra tudo mais uma vez e pensou no que realmente queria.
Ela queria casar. Ponto. Não adiantava ninguém dizer que estava jovem ainda, que amor vai e volta, que a hora chega. Nada disso fazia sentido.
Queria ser pedida em casamento. Queria toda a surpresa, ele de joelhos, a caixinha, o anel. Queria o brilho da pedra, do sorriso dele e dos seus próprios olhos. Queria a festa de noivado. A família em volta da mesa, todo álcool e gritos de festa. Queria a mesa cheia, o avô certo da virgindade e o pai meio deprimido. Queria ostentar a aliança. Queria ter o trabalho de organizar o casamento, de marcar a festa e escolher a igreja. Queria pegar o buquê no casamento da amiga e ser a próxima a casar. Queria um salão cheio, uma dança bizarra, encher a cara até desmaiar e só ter noite de núpcias no dia seguinte. Afinal, sexo se faz todo dia, festa de casamento é uma vez na vida.
Queria. Mas, apesar de todo seu querer, isso não bastava.
Não, não estava tão jovem assim. A hora já havia chegado. Há muito. Por que não era ela ali?

Queria tudo isso. Mas não queria por querer. Ou por ser mulher. Queria porque amava. Bastante.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Durante o casamento chuvoso


A igreja está cheia. Faz muito calor e o casamento vai começar. Ela não é a noiva. Isso é um problema, ainda que não compreenda isso. Ouve a música começar suavemente e ganhar seus ouvidos. Sente um aperto.
As portas se abrem: é a noiva. Seus olhos estão cheios de lágrimas. O que há pra se dizer? Olha para o lado. O amigo sorri, colocando a mão sobre seu ombro.

ELE: Parece que ela tá assada.

Ela sorri. Mas o comentário não será suficiente para aplacar a dor por muito tempo.

ELA: Deve ser o sapato.
ELE: Ou a antecipação da lua de mel.

Ela sorri de novo. Ganha mais fôlego. Como continuar. Por que não ela, ali?

ELE: Isso tem que parar.
ELA: O quê?
ELE: Sua dor.

Ela fica em silêncio. Na igreja, ecoa a música executada pelo trio no balcão.

ELE: Não sei como. Mas essa é sua parte.
ELA: Não sei o que faço de errado.

O choro da visão da noiva se mistura ao choro novo. Ou velho.

ELE: Sabe.

Isso, ela sabe. Mas não parece aceitar. O telefone vibra: é uma mensagem. Ela responde.

ELA: Tenho que ir. Não demoro.

Não, ela vai demorar.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Perto do balcão do bar



Perto do balcão do bar, ele olha demoradamente para o lugar onde estão guardadas as garrafas. Sempre gostou de vinho. Pede uma Cachaça. O atendente serve e ele vira de primeira. Bate o no balcão e aponta o indicador para dele. O rapaz coloca mais uma dose. De novo, a mesma coisa. Terceira dose, terceiro gole, terceira batida. Dessa vez, o gesto é negativo. Chega de cachaça. Olha de novo para as garrafas. Pensa. Pensa no álcool. Sente o esôfago queimando, levemente. Sente o coração apertado. Pensa nela. Não entende. Gostaria de entender, mas não entende. Pede o conhaque. De alcatrão, avisa. Vira em um gole. E pensa na dor. Nas dores. O atendente pergunta se ele não gostaria de um petisco. Ele ignora, mesmo não tendo comido nada o dia inteiro. Pensa nela. Gostaria de vê-la naquele momento, mas mesmo que estivesse ali, sua visão já começava a ficar meio turva. Talvez falar com ela. Mas não. Continua sem entender. Pede mais conhaque. Toma dois, três. Começa a chorar. Não sente mais a queimação no esôfago. Chora de dor de amor. Pede uma cerveja. Garrafa no balcão, copo na mão, pensa. Gostaria de uma explicação. Está com raiva. Talvez ódio. O corpo delicadamente anestesiado. A alma, não. Dá um gole na cerveja, mas agora, são mais longos. Ela havia sido gelada. Ir embora só é simplesmente pra quem não sente, ele não entende. E pensando nisso, mata a primeira garrafa de cerveja. A segunda desce rápido, apesar da mão já não obedecer ao comando do cérebro na mesma velocidade. Ainda assim, acha que está muito suave. Pede vodka. A fala piora nitidamente. Pensa em quanto poderia beber, sem que morresse. Queria que ela morresse. Seu pensamento não está muito claro. A visão dela se mistura a outros elementos indefinidos, uma mistura de sombras e claridade pálida. Vai embora o primeiro copo. Pensa nela e em como é triste estar só. Outro. A fala já está muito lenta. Não consegue nem pensar em levantar. Pensa nela. Ela está nua, tem um quadro escuro e confuso ao fundo. Outro copo. Ela grita alguma coisa. Ele responde. Tem um sorriso débil nos lábios. Bebe outra dose. Não consegue lembrar o que bebe. Tem uma mulher, cabelos muito escuros, ela dá adeus a um jovem, não sabe quem são. Sabe que queria matar alguém. Quer matar, acha. Quer matar alguma coisa dentro de si e não sabe o que. Não consegue.

Texto publicado originalmente no Diários Gastronômicos

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Através do para-brisa

Eles discutem. Ele quer, ela diz que também. Ele vai.
Passa a semana. Ele não quer. Sente a ausência. Mas ela diz que está tudo bem, que precisa pensar. Diz que não quer a prisão. Ele sofre, mas ama. Pensa. Ela diz que pensa.
Passa outra. Ele ainda sofre. Ela diz que.

ELE: Oi.
ELA: Oi.
ELE: Quanto tempo.
ELA: Tá tudo bem?
ELE: Tá.

Não está. Ele ama. E o que fazer? Tem dúvidas. Rupturas nunca são indolores.

ELA: Vamos lá em casa no fim de semana.
ELE: Tem certeza?
ELA: Aniversário do meu pai.

Ele pensa. Quer ir. Diz que vai. Ela sorri. Ele acredita. Quer acreditar.

ELE: Como você tá?

Ele quer ouvir que está tudo ruim. Quer ouvir sobre sua ausência. Quer saber da angústia daqueles dias. Quer a narração do calvário.

ELA: Bem.

Que não vem. Ela diz sorrindo. Não há peso. Ele sofre, mas não balança.

ELE: Que bom.

Ele não pode mais. Mas insiste. Quer mais.

ELA: Tenho que ir. A gente se vê no sábado.

Ele confirma. Ela vai. Ele pensa. Sofre, mas espera. A semana demora a passar. Ele espera.
É sábado. Ele vai. Ela sorri com a chegada dele. Ele depositou todas as esperanças naquele dia. Ela não. Dois beijos, um oi e um tenho que ir ali ver umas coisas.
Ele percebe, mas decide ignorar. Não está calor, mas ele sente o ar irrespirável. Mas insiste. A festa segue. Ela ignora. Ele não entende. Pensa em tudo.
Um caminho tão longo juntos. Pensa nos bons momentos. E olha pra ela. Ela sorri. Ele começa a perceber o caráter maquinal daquele gesto. Percebe, então, que toda a lembrança boa omite duas ruins. E que nem tudo é perfeito e cor de rosa. Que as coisas dão errado. A reprodução dos gestos consolida a relação e corrói a alma. Onde estaria sua alma? Pensa. Sente uma fisgada no peito quando decide partir. Seria sua alma? Entrando ou saindo? Pensa em cada gesto repetido. E sorri, sereno. Decide ir embora, sem despedidas. E vai.
No carro, antes de ligar, olha através do para-brisa. Finalmente, ele entende. Não pode mais. E percebe que é só seguir.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A sacerdotisa Ruth *


“O artista de alta qualidade possui o dom misterioso de chegar aos demais sem qualquer explicação, mas, também, depois de todas as explicações.” (Artur da Távola)


O release da exposição anunciava uma “uma retrospectiva da vida e da carreira da grande dama do teatro brasileiro, com fotografias, pinturas e objetos pessoais”. Porém, a exposição Ruth de Souza, a Sacerdotisa da Dramaturgia, em cartaz no Salão Guarani do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, até dezembro, é mais do que uma retrospectiva ou um tributo a Ruth de Souza. Trata-se de um marco necessário na construção da memória e da identidade da sociedade brasileira.

A exposição que homenageia os 90 anos de Ruth de Souza faz parte das comemorações pelo Dia da Consciência Negra. Com curadoria do Museu Afro Brasil, de São Paulo, lugar onde estreou a exposição, apresenta uma excelente entrevista com a atriz, além de fotos de seus trabalhos, figurinos utilizados e homenagens recebidas.

Ruth nasceu no Rio de Janeiro em maio de 1921. Descobriu o teatro – ou o teatro a teria descoberto? – duas décadas depois, com Abdias Nascimento e Paschoal Carlos Magno, no Teatro Experimental do Negro. A partir daí, torna-se sucesso nos palcos e no cinema. Em 1954, disputa o Leão de Ouro, em Veneza. Não vence, mas vale lembrar que uma de suas concorrentes era a estrela em ascensão Katherine Hepburn.

Com uma carreira consolidada no cinema e no teatro, em 1969 passa a integrar o elenco da Rede Globo, tornando-se a primeira negra a protagonizar uma novela, em A Cabana do Pai Tomás. Desde então, participa ativamente das produções da emissora.

Ao visitar o Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio, além do passeio pelo centro histórico, em processo de revitalização, o expectador pode observar um trabalho bastante interessante na composição da exposição. Toda a força dramática da atriz está expressa nas fotos, não se perde o frescor e delicadeza de sua atuação, ainda que congelada na tela. O rosto da atriz, na foto, no cinema, na tv, é a representação da população brasileira, com seus sorrisos e sofrimentos.

Contudo, apesar do cuidado acentuado em todo o trabalho de pesquisa e exposição iconográfica, merece destaque a recordação de outro aspecto da vida de Ruth: a luta contra o racismo. Isso está presente logo ao entrar no Salão Guarani: a primeira visão é uma entrevista concedida por Ruth de Souza à revista AfroB.

Aparentemente, é um texto longo, que, pode-se imaginar, desestimula o visitante, interessado em observar as fotos, prêmios e figurinos. Mas, basta um olhar mais atento para perceber a importância daquelas palavras. Seja na análise sobre a forma de tratamento ao negro no Brasil, independentemente de profissão, seja na fala sobre os jovens atores negros que explodem no Brasil, como Lázaro Ramos e Thaís Araújo. Em tempos de negação constante da existência de preconceito racial, é importante a posição expressa pela atriz. Sobretudo, considerando que se trata de um evento da agenda da consciência negra na cidade.

Assim, a exposição Ruth de Souza, a Sacerdotisa da Dramaturgia marca não apenas os 90 anos de idade da atriz, mas seus 65 de carreira e uma vida de luta contra o racismo. Vivendo em um país em que, muitas vezes, as personalidades se omitem diante de questões polêmicas, Ruth deixa sua marca. Faz lembrar sua personagem na novela O Bem Amado, Chiquinha do Parto, esposa de Zelão das Asas, lembrando ao público que não se destrói sonhos. 

Mais do que isso, permanece viva e ativa, sonhando com todos nós. Em 1986, homenageando a atriz em um artigo no jornal O Globo, Artur da Távola dedicou a “Ruth de Souza, atriz de importância proporcional ao seu silêncio e discrição, o abraço comovido do fã”. Faço minhas as palavras do jornalista.


SERVIÇO
Exposição: Ruth de Souza – A Sacerdotisa do Brasil
Local: Salão Guarani do Teatro Municipal Carlos Gomes (Rua Pedro I, nº 4 – Pça. Tiradentes, Centro)
Abertura: 20 de novembro, domingo, às 14h.
Temporada: 21 de novembro a 18 de dezembro (de terça a domingo, das 14h às 18h. Tels: 2215-0556 / 2224-3602).
Entrada gratuita.

Classificação: livre.



* O texto foi integralmente publicado na revista Aguarrás.