quarta-feira, 17 de agosto de 2016

"Lona dos sonhos" n'O Tempo

O Lona na Lua recebeu os idealizadores do Clube da Leitura. Ao centro da imagem, Rafael Cal e Zeca Novais responderam questionamentos sobre os aspectos ambientais do livro "Lona dos Sonhos".



O Tempo foi lá conferir o encontro do Clube de Leitura que discutiu o "Lona dos sonhos: as histórias do Lona na Lua" e fez uma matéria bem legal. Você pode conferir aqui.

sábado, 13 de agosto de 2016

A festa de Mateus - personagens





“ter um filho com 14 anos não é fácil. viver com alguém com essa idade não é fácil. a minha mãe vivia querendo se meter a falar do jean, achando que o jean era o meu pai. aí eu mandei ela calar a boca. você já mandou a sua mãe calar a boca alguma...

“ter um filho com 14 anos não é fácil. viver com alguém com essa idade não é fácil. a minha mãe vivia querendo se meter a falar do mauro, achando que o jean era o meu pai. aí eu mandei ela calar a boca. você já mandou a sua mãe calar a boca alguma vez?” (angela)




“eu queria pedir a vocês, por favor, pra ninguém tocar no assunto do mateus. por favor.” (mauro)
“transbordou um reservatório de merda”
juliana, em “a festa de mateus”: https://goo.gl/Cqi042

“transbordou um reservatório de merda.” (juliana)


“ele me pediu em namoro no final do nosso primeiro encontro. a gente foi ao cinema ver o ‘labirinto de fauno’. fez um monte de comentário inteligente sobre o filme. achei que fosse um gênio. depois, descobri que ele decorou uma resenha antes de sair...
“ele me pediu em namoro no final do nosso primeiro encontro. a gente foi ao cinema ver o ‘labirinto de fauno’. fez um monte de comentário inteligente sobre o filme. achei que fosse um gênio. depois, descobri que ele decorou uma resenha antes de sair de casa. mas só descobri muito depois. a gente já tava casado. e isso, aparentemente, não é motivo pra pedir anulação.” (raquel)

“esse evento de hoje, por exemplo. fiquei me perguntando em casa: mas que porra é essa? você também deve estar se perguntando isso. o que a gente vai fazer lá?”
bernardo, em “a festa de mateus”: https://goo.gl/Cqi042

“esse evento de hoje, por exemplo. fiquei me perguntando em casa: mas que porra é essa? você também deve estar se perguntando isso. o que a gente vai fazer lá?” (bernardo)

“subo essa rua andando toda semana. essas merdas de faculdade espalhada na cidade. aí venho fazer matéria na praia vermelha e subo essa rua. pior que depois que terminei com o mateus ele ficava me esperando passar naquela pracinha ali em frente ao...

“subo essa rua andando toda semana. essas merdas de faculdade espalhada na cidade. aí venho fazer matéria na praia vermelha e subo essa rua. pior que depois que terminei com o mateus ele ficava me esperando passar naquela pracinha ali em frente ao campus. stalker brasileiro nem sabe fazer essas porras direito. uma amiga minha ficava falando ‘olha, esse menino é doido, vai entrar atirando na sala e matar a gente’ e eu só pensava ‘deus me livre de morrer no prédio de física’.” (ana)

“porque vou te falar: eu sou foda. sou mesmo, sou um cara foda. já peguei mulher pra caralho, já comi quem eu quis, do jeito que eu quis. eu pego quem eu quiser e aonde eu quiser. não tem essa comigo. mas isso aqui é outra coisa. é diferente.”
andré,... 
“porque vou te falar: eu sou foda. sou mesmo, sou um cara foda. já peguei mulher pra caralho, já comi quem eu quis, do jeito que eu quis. eu pego quem eu quiser e aonde eu quiser. não tem essa comigo. mas isso aqui é outra coisa. é diferente.” (andré)

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“a festa de mateus” é uma história - ou muitas - sobre as nossas doenças mais profundas. 
sobre as distâncias, os abandonos, a solidão. 
sobre perdas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

"A festa de Mateus" no site do Solar do Jambeiro





"Com estreia marcada para a terça-feira, 09 de agosto de 2016, às 20h, no Solar do Jambeiro, o espetáculo 'A festa de Mateus' inaugura em Niterói o conceito do 'hiperdrama', onde o público pode ser coautor da própria dramaturgia, ao escolher caminhos de como quer acompanhar a trama. O espetáculo, que de forma inovadora, terá inicio em cinco diferentes lugares da Zona Sul da cidade, será apresentado como parte do projeto Terças de Teatro, com entrada franca. 

Com texto de Rafael Cal e direção de Ricardo Rocha, a peça conta com a participação de Amaury Lorenzo, Fabio Fortes, Jean Bodin, Renata Egger e Vivian Sobrino, atores e atrizes com forte atuação em Niterói, além das convidadas Ana Flavia Chrispiniano e Barbara Abi-Rihan.

(...)"


A matéria completa tá em http://culturaniteroi.com.br/blog/?id=2278&equ=solar.


Pra acompanhar as informações sobre a peça "A festa de Mateus", visite nossas páginas:

afestademateus.tumblr.com

https://www.facebook.com/afestademateus/

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A festa de Mateus - estreia




“A festa de Mateus” é a peça que escrevi e estreia hoje, dia 9. A direção é do Ricardo Rocha e tem um elenco recheado de atores e atrizes talentosos: Amaury Lorenzo, Ana Flávia Chrispiniano, Bárbara Abi-Rihan, Fabio Fortes, Jean Bodin, Renata Egger e Vivian Sobrino.
O espetáculo usa a cidade como cenário e leva os personagens e o público por deslocamentos físicos e emocionais por ela até o Solar do Jambeiro, em São Domingos, Niterói. Às 20h - sem qualquer possibilidade de atraso - as cenas começam em um posto de gasolina, em frente à reitoria da UFF, em frente a um supermercado do Ingá, num café e no próprio Solar.
Em momentos diferentes, os personagens saem de seus locais originais e se dirigem à casa em que está sendo realizada uma festa. E as cenas que vinham se desenrolando nos pontos originais e pelo caminho continuam acontecendo no endereço definitivo.
Parece loucura. E é.
Uma deliciosa loucura, é verdade. A expansão da atuação para a rua, fora do controle - um falso controle, né? - que o palco italiano e a sala fechada com o público sentadinho em seus lugares numerados dão. É vertigem.
Assim, gostaria de convidar vocês a se juntarem a nós nessa vertigem. Venham conhecer essa família completamente desequilibrada. E se desequilibrem conosco.

Algumas informações importantes.
O espetáculo “A festa de Mateus” se inicia PONTUALMENTE às 20h, em cinco locais distintos:
1) Solar do Jambeiro (Rua Presidente Domiciano, 195, Ingá) — 32 espectadores;
2) em frente à Reitoria da UFF (Rua Miguel de Frias, 9 — Icaraí) — 2 espectadores
3) escadaria do supermercado Pão de Açúcar, no Ingá (Rua Paulo Alves, 42, Ingá) — 8 espectadores
4) em frente à loja de conveniências do Posto Shell (esquina Rua Miguel de Frias com Rua Fagundes Varela, Icaraí) — 1 espectador
5) no interior da Escola de Animação e Desenho Animator (Rua Visconde de Moraes, 255, Ingá) — 7 espectadores
* Você deverá escolher o local que deseja iniciar. 
* A partir de sua escolha, deve enviar uma mensagem pelo whatsapp para o telefone (21) 99110–5961 para fazer a reserva.
* O deslocamento até o Solar do Jambeiro do público que escolher iniciar no supermercado Pão de Açúcar (local 3) ou na Escola de Animação e Desenho Animator (local 5) será realizado a pé. Os demais deslocamentos (locais 2 e 4) serão realizados de carro. 
* Caso não deseje fazer os deslocamentos externos, você deve se dirigir diretamente ao Solar do Jambeiro para retirar sua senha uma hora antes do espetáculo. 
* Importante lembrar que a lotação do espetáculo é reduzida. São apenas 50 lugares disponíveis.
* Qualquer dúvida pode ser enviada por mensagem para a página de “A festa de Mateus”.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

"A festa de Mateus" em Niterói


Uma festa.
Uma família disfuncional.
Um convidado que não chega.

"A festa de Mateus" estreia no próximo dia 9 e fica em cartaz por todas as terças de agosto e setembro no Solar do Jambeiro, em Niterói. Com texto de Rafael Cal e direção de Ricardo Rocha, a montagem conta com a participação de Amaury Lorenzo, Ana Flávia Chrispiniano, Bárbara Abi-Rihan, Fabio Fortes, Jean Bodin, Renata Egger e Vivian Sobrino.

No espetáculo, os pais de Mateus organizam uma festa para ele, convidando parentes e amigos. Ao chegar ao local, no entanto, os convidados percebem que faltam coisas básicas para uma festa, inclusive o homenageado que não chega.

Naquilo que deveria ser uma noite de festa, momentos de tensão emergem e levam a explosões de raiva, demonstrações de afeto e momentos de constrangimento coletivo. Os convidados vão se esbarrando e se misturando ao público, procurando saídas para suas vidas ou se afundando ainda mais nelas.

A apresentação começa em cinco espaços da cidade e o espectador escolhe de onde deseja começar no momento da aquisição do ingresso. A partir disso, todas as suas escolhas até o fim determinam a perspectiva que terá da história.

A peça nasceu do "Projeto Hiperdrama", idealizado pelos também produtores Fabio e Vivian. Eles queriam contar um conjunto de histórias que se passasse em lugares distintos da cidade, interagindo com o espaço urbano e culminando no encontro dos personagens no casarão localizado no Ingá.

A ideia veio da experiência deles como espectadores da montagem de "Quase nada é verdade", escrita e dirigida por Rodrigo Portella. Ele veio ao Rio de Janeiro realizar uma oficina com os participantes do projeto em que falou sobre o conceito de hiperdrama, objeto de suas investigações artística e acadêmica. A ideia essencial é pensar na apropriação de conceitos do audiovisual e da internet, como o de hiperlink e hipertexto para realizar uma encenação teatral.

Em "A festa de Mateus", o público escolhe o ponto de partida para assistir, que cenas ou personagens vai acompanhar, que lugares vai ocupar durante a apresentação. Dessa forma, constrói ativamente o espetáculo que deseja assistir, construindo um olhar ainda mais específico sobre a experiência teatral.

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"A festa de Mateus" foi selecionado na Chamada Pública de Teatro no Solar do Jambeiro da Prefeitura Municipal de Niterói, Secretaria de Cultural de Niterói e Fundação de Arte de Niterói - FAN.
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Serviço:

A festa de Mateus
De 9 de agosto a 26 de setembro.
Sempre às terças-feiras, às 20h.
No Solar do Jambeiro (Rua Presidente Domiciano, 195), em Niterói.

domingo, 3 de julho de 2016

"Lona dos sonhos" por aí: entrevista com o Lucas Fernandes, participante do Lona na Lua


O Lucas Fernandes, monitor de circo do Lona na Lua, foi o vencedor de um reality social promovido pelo Criança Esperança. Um pouco antes de começar o show da edição deste ano, o Lucas deu uma entrevista ao youtuber PH Cortês.

Na entrevista, além de falar sobre sua trajetória, o Lucas fala do nosso livrinho e tem algumas imagens do lançamento.

Pra quem quiser assistir, taí:


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aqui todo mundo chora


A lona cobre uma trupe de gente que chora. Não de chorões no sentido de quem pede, reclama ou coisa do tipo. Mas de quem emociona e se emociona.
Essa talvez seja a grande lição deixada pelo processo de realização do Lona dos sonhos. A emoção à flor da pele é, sem dúvidas, uma das marcas dessa galera.
O Zeca chora o tempo inteiro, todos estão acostumados. Mas não sabia que essa força da água querendo explodir pelos olhos era regra.
A cada entrevista pude ver todo mundo com o olho brilhando ao falar do projeto. A emoção das lembranças, das tristezas e das alegrias, estava presente o tempo inteiro.
Não faltaram pausas fora de tempo, no meio de uma frase, como que engolindo uns 15ml de lágrima. Não funcionava: vinha a frase seguinte e o choro desandava.
Alguns me fizeram chorar junto. Teve quem chorasse lembrando de um professor que teve na adolescência. Teve gente próxima lembrando de dias tristes. Teve o pessoal da antiga lembrando das suas histórias e sentindo o quanto era tudo especial e deles. Teve a lembrança permanente da Raphaela. Teve tia Fátima fazendo de tudo pra fugir de conversar comigo sob o argumento de que eu ia fazê-la chorar.
Estava certa. E eu, discretamente, chorei junto, tentando segurar uma pontinha de objetividade ali na investigação.
Ela e todo mundo ali, de alguma maneira, me bagunçaram por dentro nas suas falas e nos seus choros. Múltiplos, variados, plurais, puros, reais.
A emoção pura, ali, na cara, nos gestos, nas palavras. A emoção avisando pra todo mundo que ali é o lugar dela e não vai embora e não aceita não como resposta. A emoção gritando:
- Aqui todo mundo chora.


O texto foi publicado também no Medium Brasil.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

"Vende-se uma geladeira azul" por Livia Brazil


Foi em dezembro, mas acabei esquecendo de colocar aqui: a Livia Brazil fez um post lá no blog dela falando sobre o texto da minha peça "Vende-se uma geladeira azul".

Então convido vocês a darem um pulinho lá pra ler e ver outros posts dela. E pra quem quiser ler a peça, tá aqui.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A cidade que ficou cinza


É uma cidade cinza. O sol bate forte, poderia dizer inclemente se não fosse um clichê tão grande, é quente, sufocante, ar pesado, suor escorrendo. Mas, ao mesmo tempo, é um sol amarelo fraco, como se tivesse sido lavado demais e perdido a cor.
E o sol amarelo fraco contra a cidade cinza dá um aspecto estranho. Estranho porque até deveria, mas não é triste. É desolador.
Desolador como um abandono. É isso o que parece: parece o abandono. Uma luz amarela fraca contra o muro cinza de chapisco é quase um quadro do Hopper num país tropical. Tivesse um menino sentado no muro contemplando o horizonte, seria.
Devem existir muitos outros lugares assim. Eu mesmo já vi muitos outros lugares desse jeito pelo Brasil. Mas a minha aldeia não foi sempre assim, Rio Bonito era diferente.

(A cidade vista da Serra do Sambê.)
Era de cores fortes. Não, não era só a visão dos olhos de criança. Era a cor das laranjas vendidas na beira da estrada; do céu azul em que passavam os aviões; do branco tão branco da igreja no alto da colina em que a praça termina, que poderia servir de padrão prum operador de câmera que estivesse filmando este roteiro da minha memória; do colorido das camisas das crianças numa correria sem fim, brincando de escambida pelas ruas de casas de cores vivas; não vou nem falar do verde da serra do Sambê porque seria um clichê imperdoável, mas poderia.
Era.
As casas foram sumindo, e, na verdade, ainda estão. Prédios cada vez mais altos foram sendo erguidos. Acaba com a casa, compra um lote, uns lotes, sobe um prediozinho, qualquer coisa mais ou menos tá bom, dois, três andares, faz naquele padrão baratinho, coloca pra alugar, tá cheio de gente vindo pra cá por causa do Comperj. E tome especulação.
Não, não pode ver só dessa maneira, é o progresso, é o futuro, é o desenvolvimento chegando. Gabarito é entrave, sustentabilidade é entrave, memória é entrave. Aproveita que tá à toa aí e derruba mais uma casa que a gente precisa construir outro prédio de gosto duvidoso no centro da cidade.
E um dia eu cheguei e tinha uma placa numa obra dizendo que iam levantar ali um prédio de dez andares. Dez. Dez andares. Acredita num prédio de dez andares lá em Rio Bonito?
E asfalto, muito asfalto. Chega de calçamento, mete asfalto. Asfalto em tudo quanto é lugar, asfalto é progresso, asfalto é modernidade, enche de asfalto. Aplaude o asfalto.
Quando chega o verão fica ótimo, né?, calor insuportável e solo impermeabilizado. Até às quatro da tarde é o calor de dar desmaio; depois das quatro, é ficar ilhado nalgum canto ou tentar conter a água entrando pela porta.
Naquele pedaço ali, eucalipto. Deve ser melhor que ficar sem nada, alguém pode perceber, reclamar, tirar uma foto. Com eucalipto ninguém vai reparar.
E tem lixo, muito lixo, em todos os cantos, tanto lixo que quando chove parece um panelão de sopa. Sopa de entulho.
Falando tudo isso, pode ser que fique a impressão que eu tenho 92 anos e estou lembrando dos meus tempos montando cavalo a pelo, frequentando a Gruta Tupi, andando de trem ou sendo um personagem de um livro de Leir Moraes.
Mas só tenho 30 e tô falando de ontem, anteontem, semana passada, de menos de dez anos. De uma deterioração intensa, rápida, violenta e cruel entendida como progresso.
E o que é pior: parece imperceptível pra quem vive lá. Parece que tá tudo bem, que só aumentou a sensação de insegurança e o discurso meio difuso de insatisfação política.
Não está.
Está cinza e sem cor.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Rumos

Saio de casa com tempo sobrando. Chego no ponto, entro na van, escolho o lugar. Rapidamente, enche e conseguimos sair antes do previsto. Primeiro destino: Rio Bonito.

Isso é raro. Tão raro que poderia ser o primeiro parágrafo de um texto que se passasse num cenário distópico.

Encosto, relaxo, começo a ler um artigo no celular e, quando me dou conta, estamos parados a alguns minutos no trânsito em algum lugar na gigante Itaboraí. Vai demorar mais do que imaginei, mas estou com tempo sobrando.

Isso já não é tão raro assim. Tem carro demais na BR-101, mas isso é tema pra outro texto que não vou escrever.

Chego em Rio Bonito, desço no ponto final, compro uma água e pergunto sobre a van pra Silva Jardim, um município vizinho a Rio Bonito. É um percurso que leva uns 15 ou 20 minutos de carro, meia hora de van e uns 40 minutos de ônibus. 

Ou que deveria levar.

A senhora que vendia água e cuidava dos horários da van disse que havia uma programada pra dali a 20 minutos. Tudo bem, estou com tempo, melhor ir no ar condicionado, pensei. E resolvi esperar.

Esperei. Esperei. Esperei. E esperei mais um pouco.

Já meio irritado, sol na cara, fui até a rodoviária pegar o ônibus. E esperei mais: 20 minutos de atraso por causa do sistema de biometria usado pela empresa de ônibus para os passageiros que têm direito à gratuidade.

Cinco horas depois de sair de casa, cheguei ao destino final, Silva Jardim. O passeio, viagem, ou seja lá como vamos chamar essa ida ao município, faz parte da preparação do livro “Lona dos sonhos, a história do Lona na Lua”, sobre o projeto sociocultural surgido em 2007, sobre o qual escrevi na semana passada. A cidade tem, desde 2015, um convênio com o projeto e possibilita a 200 crianças e adolescentes a participação em atividades artísticas e fui lá conferir e conversar com algumas pessoas.

Mas escrever sobre isso de novo? É. Só que quero falar de outras coisas. 

Além de escrever um livro, que já é um negócio por si só especial, a experiência da pesquisa e redação tem sido interessante em outros aspectos. Muito interessante, aliás. E isso rende mais textos do que o que cabe na história que estou contando.

Em primeiro lugar, o exercício da pesquisa relativamente livre. Digo isso porque, apesar da necessidade do uso de uma metodologia clara para o sucesso do trabalho, há certa liberdade das amarras acadêmicas.

Junto com isso, lidar com história oral pra valer é um desafio. Ouvir as pessoas, todos esses depoimentos que colhi, cruzar com as outras fontes, tudo isso tem sido um trabalho estimulante. É perceber a construção das memórias sendo apresentada ali na minha frente, ver o que se oculta, o que se mostra discretamente, o que grita na penumbra da fala, o que precisa ser dito.

E não apenas as questões formais são estimulantes nesse projeto. O grande impacto de participar dele é voltar a passar tempo em Rio Bonito. Nos últimos anos, as visitas foram constantes, mas rápidas. Dificilmente pra passar mais de uma noite.

Com o livro, passar mais tempo não era uma opção. Aí, muitas coisas se cruzam, porque contar a história do outro acaba sendo olhar pra dentro, olhar pra minha própria história, pras minhas questões.

No caso, olhar pra Rio Bonito, a cidade em que cresci e morei a maior parte da minha vida, a minha aldeia. A cidade que lembro colorida, com gente simples, crianças brincando, mariola e laranja na beira da estrada, o carrinho de batata frita na pracinha, sorvete barato e um monte de lojas de carro.

É claro que há outras memórias, não é tão simples assim. E, claro também, há lembranças tristes, problemas e coisas do tipo. Mas, depois de nem sei quanto tempo, andar pela cidade além do circuito casa-rodoviária-restaurante-amigos, me fez olhar pruma outra cidade.

Uma cidade diferente, que ainda é minha, meu lugar, mas não é mais aquela minha, aquele meu lugar. Uma cidade que se impôs nos últimos anos e que, agora, quica aqui no teclado esperando meus dedos pra virar texto aqui (quando virar, deixo o link aqui).

E vem uma sensação de novidade. Uma sensação de tomar uma estrada que vi no mapa, conferi o melhor caminho pelo Google Maps e preparei o melhor traçado com calma e afinco, fiz tudo como deveria. Mas, de repente, no meio da estrada reta havia uma rotatória com cinco, seis, sete, oito direções. Talvez mais, nem sempre os olhos alcançam todos caminhos.

No fundo, escrever sobre o Lona, é isso. É escrever sobre a lona e o que ela cobre e quem ela cobre. É também o lugar, os lugares, todos, pequenos e grandes; é falar das pessoas e por elas, deixar a voz delas ecoar dentro e fora de mim; perceber os encontros e desencontros das nossas vozes.

É, no fim, escrever sobre a nossa aldeia, sobre pertencimento, sobre aquele caldeirão todo que fez a minha geração e, agora, faz outras debaixo de uma cúpula estrelada. 

É uma viagem longa. Feita de idas e voltas, interessante, dolorosa, cansativa, agradável, emocionante, tortuosa, cheia de rotatórias, de curvas e algumas retas. 

Uma viagem ainda em definição do que é, mas, sem dúvida, muito diferente da que fiz até Silva Jardim.


O texto está publicado na minha página no Medium.